Lula defende educação contra feminicídio e cobra ação de homens
Presidente afirma que combate à violência contra mulheres exige leis, punição, escola e mobilização política
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o enfrentamento ao feminicídio no Brasil deve combinar leis mais duras, ações do Executivo, atuação do Judiciário, punições severas e, sobretudo, educação desde a infância. Segundo ele, o combate à violência contra mulheres precisa ser assumido também pelos homens e tratado como uma questão política nacional.
As declarações foram dadas em entrevista à edição especial do programa Sem Censura, apresentado por Cissa Guimarães, na TV Brasil, nesta sexta-feira (22). Lula comentou os 100 dias do pacto contra o feminicídio, campanha do governo por redução dos índices de violência contra a mulher, e defendeu que a sociedade deixe de tratar o tema apenas como caso de segurança pública.
Ao falar sobre os avanços do pacto, o presidente afirmou que a iniciativa nasceu após episódios de violência contra mulheres que chegaram ao conhecimento da primeira-dama Janja Lula da Silva. Ele relatou que decidiu assumir pessoalmente a pauta ao vê-la abalada com notícias de feminicídio. “Eu vou assumir essa luta em defesa da mulher, porque não é uma questão da mulher, é uma questão do homem”, disse Lula.
Segundo o presidente, o governo construiu o pacto em articulação com outros Poderes. Ele afirmou que, nos primeiros 100 dias, foram aprovadas 11 leis, editados quatro decretos e tomadas 24 decisões no âmbito do Executivo. “Nesses 100 dias, pode ter certeza, nesses 100 dias, nós já fizemos mais do que em todos os 100 anos para trás”, declarou.
Lula ponderou, no entanto, que a resposta legal e institucional não será suficiente para eliminar a violência contra mulheres de forma imediata. Para ele, medidas protetivas, tornozeleiras eletrônicas, casas de acolhimento, aumento de penas e decisões judiciais são instrumentos importantes, mas não substituem a transformação cultural.
“A lei vai ajudar. As decisões das casas da mulher vão ajudar. Colocar a tornozeleira mais severa no cara vai ajudar. Aumentar a pena vai ajudar. Tudo isso vai ajudar. Mas se a gente não acreditar que será através da educação que a gente vai mudar isso, a gente não vai mudar”, afirmou.
O presidente defendeu que o debate seja levado às escolas, igrejas, sindicatos, ao Congresso e às empresas. Na avaliação dele, o feminicídio deve ser tratado como tema permanente na vida pública brasileira.
“O bispo da Igreja Católica vai começar a sua missa no domingo? Fala do feminicídio. O pastor da igreja evangélica vai fazer, mesmo aquele que faz milagre, o pastor Valdomiro e tantos outros, antes de fazer os milagres, fala do feminicídio. O dirigente sindical vai na porta da fábrica pedir aumento de salário, fala do feminicídio. Vocês na empresa falam todo dia. O deputado tem que falar. Nós temos que transformar isso em uma questão política, não é só uma questão de violência, é uma questão política”, disse.
Lula afirmou que a violência contra mulheres tem raízes profundas na formação social e familiar. Ele criticou comportamentos masculinos ligados ao controle, ao ciúme e à ideia de superioridade sobre as mulheres. “É preciso mudar o nosso comportamento como homem”, afirmou.
O presidente também disse que a educação dentro de casa é decisiva para enfrentar o problema. Ele relacionou o machismo à forma como meninos e meninas são criados em muitas famílias. “Se você não tiver uma educação que envolva os pais, e a mãe para educar, você não vai consertar essas coisas”, afirmou.
Lula comentou ainda o impacto da internet e do acesso precoce de crianças e adolescentes a conteúdos pornográficos. Segundo ele, celulares e redes ampliaram o contato de jovens com imagens e práticas que podem distorcer a formação afetiva e sexual. “Hoje, a molecada pega a internet, ele vê o que o avô nunca viu, o que o pai nunca viu, o que o tataravô nunca viu”, disse.
Ao tratar da relação entre tecnologia, comportamento e violência, o presidente afirmou que a regulação das redes pode contribuir no futuro para o combate ao feminicídio. “Um homem não pode obrigar uma mulher a querer transar com ele. Um homem não pode querer obrigar uma mulher a gostar dele”, afirmou Lula.
O presidente também relembrou situações de machismo vividas em outras gerações e disse que o país avançou, mas ainda está distante de resolver o problema. “Eu acho que nós já evoluímos bastante. Mas ainda falta muito. Falta muito”, declarou.
Lula voltou a defender a combinação entre políticas públicas, currículo escolar, punição e garantia efetiva de proteção às mulheres ameaçadas. Ele chamou atenção para casos em que vítimas são assassinadas mesmo após obterem medidas protetivas. "Quando essa ação protetiva que a gente faz, a gente tem que dar garantia, porque tem mulher que está com a ação protetiva na mão e é assassinada”, afirmou.
Na entrevista, também foi lembrada a Central de Atendimento à Mulher, pelo número 180, canal de orientação, prevenção e denúncia de violência contra mulheres. A apresentadora e as participantes destacaram a frequência com que casos de feminicídio são noticiados, especialmente após fins de semana.
Lula associou o enfrentamento à violência de gênero a uma mudança de mentalidade dos homens. Para ele, a sociedade precisa deixar de naturalizar comportamentos machistas e passar a repreendê-los de forma mais direta.
“O cara que bate na mulher dele, ele não conta para o amigo que ele bateu na mulher dele. Ele não conta. Ele não conta para o amigo que ele é violento”, disse.



