Lula defende regulação das Big Techs, soberania nacional e diz que outro mundo é possível
Em entrevista em Barcelona, presidente afirma que a esquerda precisa enfrentar a máquina de mentiras da extrema direita
247 – Em entrevista concedida em Barcelona ao programa Calma Urgente!, no contexto do encontro Global Progressive Mobilization, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a regulação das plataformas digitais, reafirmou a centralidade do Estado na indução do desenvolvimento e disse continuar convencido de que “um outro mundo é possível”. A conversa foi exibida no YouTube, no canal do programa, e ocorreu após os debates do evento que reuniu lideranças progressistas de vários países.
Ao longo da entrevista, Lula tratou de temas centrais do debate contemporâneo da esquerda, como soberania, precarização do trabalho, crise climática, educação, combate à desinformação e reconstrução das políticas públicas após os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Em tom firme, o presidente também sustentou que o campo progressista precisa aprimorar sua presença nas redes digitais para enfrentar a estrutura de mentira organizada pela extrema direita.
Lula volta a defender um projeto transformador
Questionado sobre o esvaziamento do imaginário que, no início dos anos 2000, animava o Fórum Social Mundial sob o lema “um outro mundo é possível”, Lula reconheceu falhas na experiência, mas reafirmou sua convicção de que a transformação segue ao alcance da política.
Ao lembrar o declínio do Fórum Social Mundial, ele avaliou que faltaram objetivos concretos e continuidade entre uma edição e outra. Segundo o presidente, o espaço perdeu eficácia porque reunia muitas vozes, mas não estabelecia metas comuns capazes de organizar ação política continuada. Nas palavras dele, o fórum “parecia mais um shopping frente de vender produto ideológico”.
Ainda assim, Lula rejeitou qualquer ideia de resignação. “Eu ainda acredito e brigo todo dia para manter a tese de que um outro mundo é possível”, afirmou. E completou: “Eu não faria política se eu não acreditasse que outro mundo é possível”.
A resposta do presidente buscou combinar horizonte estratégico com realismo institucional. Ele argumentou que governar exige considerar a correlação de forças, o peso do Congresso, o papel do Judiciário e a capacidade de mobilização da sociedade. Para Lula, o desafio não é abandonar a transformação, mas fazê-la avançar dentro das condições reais da luta política.
Reconstrução após a devastação neoliberal
Um dos eixos mais fortes da entrevista foi a defesa do terceiro mandato como um período de reconstrução nacional após a destruição promovida pelos governos anteriores. Lula afirmou que, do ponto de vista prático, o atual governo já fez mais em três anos e quatro meses do que em seus dois primeiros mandatos.
“Do ponto de vista prático foi muito mais”, disse. Em seguida, explicou a diferença histórica: “Agora nós tivemos que reconquistar para fazer a mesma coisa, porque eles tinham destruído o que nós fizemos”.
Lula citou a recriação de ministérios estratégicos, como Trabalho, Cidades, Igualdade Racial, Direitos Humanos e Mulheres, além da recuperação da capacidade administrativa do Estado. Segundo ele, quando reassumiu a Presidência, o Ibama tinha 700 funcionários a menos do que quando deixou o cargo, em 2010.
O presidente recorreu à metáfora de uma reforma de casa para explicar o desafio. “É muito mais difícil reformar que fazer uma nova”, declarou, comparando a reconstrução de políticas públicas à recuperação de estruturas deixadas em ruínas.
Ele também apresentou indicadores para sustentar sua avaliação sobre o atual governo. “Hoje nós temos a menor inflação acumulada em 4 anos da história do Brasil. Hoje nós temos a maior massa salarial da história do Brasil. Tudo isso e o menor desemprego da história do Brasil”, afirmou. Ao mesmo tempo, reconheceu que os avanços ainda são insuficientes diante das necessidades populares: “Ainda é pouco diante da necessidade do povo”.
A batalha política das redes e a regulação das Big Techs
Lula voltou a apontar as plataformas digitais como peça decisiva do avanço da extrema direita. Para ele, o campo progressista está em desvantagem porque a direita construiu uma estrutura muito mais eficiente de manipulação e mentira.
“Nós nas redes digitais estamos aquém deles”, afirmou. Em seguida, resumiu de forma direta o funcionamento dessa engrenagem: “Eles se prepararam muito mais. Eles montaram uma máquina de contar mentira”.
Ao tratar da regulação das Big Techs, Lula rejeitou o discurso liberal de que qualquer intervenção significaria censura. Segundo ele, o objetivo não é controlar opiniões, mas responsabilizar crimes e impedir o uso das plataformas como território sem lei.
“O que você não pode é permitir que seja liberdade da rede digital para você cometer o crime que você não pode cometer na vida real”, disse. Em outro momento, reforçou: “Um crime cometido na rede digital é tão crime quanto o crime cometido na vida real”.
O presidente reconheceu, contudo, as limitações institucionais para aprovar uma regulação mais ampla. Lembrou que medidas dessa natureza dependem de lei aprovada no Congresso e admitiu que a correlação de forças ainda impõe obstáculos. “Nós temos que avaliar as possibilidades da gente fazer a reforma necessária, a reforma que é correta fazer ou a reforma que você pode fazer”, resumiu.
Ainda assim, insistiu que o Brasil precisa avançar. “Eu quero regular, quero regular”, declarou. E acrescentou que essa regulação deve preservar o funcionamento econômico das plataformas, mas sob responsabilidade pública: “Nós vamos regular da forma possível em que eles ganham seus dinheiros trabalhando honestamente”.
Lula pede ação internacional contra o poder desmedido das plataformas
Ao ser provocado sobre o caráter monopolista das Big Techs e seu poder já comparável ao de Estados nacionais, Lula elevou o debate para a escala global. Para ele, nenhum país conseguirá, sozinho, enquadrar empresas desse porte.
“A regulação dessas plataformas não é um país sozinho”, afirmou. Na sequência, defendeu que o tema seja tratado em instâncias multilaterais: “Nós temos que ter uma decisão de todos os países”.
Lula mencionou explicitamente a ONU como espaço para esse esforço internacional. Segundo ele, a regulação deve proteger “as pessoas de bem desse mundo” contra crimes digitais, violência contra crianças, mulheres, população negra, indígenas e pessoas LGBT+.
A fala do presidente reforça uma leitura cada vez mais presente em setores progressistas: a de que o poder privado das corporações tecnológicas já ultrapassou a esfera empresarial e passou a incidir diretamente sobre soberania, democracia e segurança social.
Estado forte, soberania e desenvolvimento nacional
Em outra frente importante da entrevista, Lula defendeu o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, em contraposição à destruição neoliberal das estruturas públicas. Ao responder a uma pergunta sobre os novos fundamentos da soberania brasileira no século XXI, o presidente retomou a tradição histórica de Getúlio Vargas e associou sua trajetória à continuidade desse projeto nacional.
Segundo ele, o Brasil viveu dois grandes momentos de inclusão social real: o getulismo e os governos petistas. “Você vai perceber que teve dois momentos na história desse país que teve política de inclusão social no governo Getúlio e no governo do Mir Lula”, afirmou, em referência à própria trajetória.
Lula exaltou o legado de Vargas, sobretudo a criação do salário mínimo e da CLT, lembrando que tais medidas foram revolucionárias em seu tempo por retirarem o trabalhador de uma condição de “semiescravidão”. Em seguida, projetou esse raciocínio para o presente e defendeu um novo ciclo de desenvolvimento assentado na educação, na política industrial e no fortalecimento de empresas estratégicas.
“A Petrobras, do jeito que ela tá, uma empresa de economia mista, bem dirigida, do jeito que ela tá, ela vai bem”, afirmou. Ao mesmo tempo, criticou o desmonte promovido em governos anteriores e declarou: “Eu quero recomprar a refinaria que foi vendida. Eu sonho em que a BR volte pra mão da Petrobras”.
Lula também citou fertilizantes, indústria naval, saúde e inovação tecnológica como áreas decisivas para a soberania nacional. “Esse país tem que ser grande naquilo que ele pode ser grande”, disse. E resumiu sua visão sobre o papel do poder público: “O estado tem que ser forte”.
Educação como eixo de transformação nacional
A educação apareceu como uma das grandes obsessões programáticas da entrevista. Lula argumentou que a superação da dependência e da desigualdade no Brasil passa diretamente pela formação profissional e pela democratização do ensino superior.
“É o único jeito de você fazer com que esse país cresça de verdade e se transforme numa economia rica”, afirmou. Ao falar sobre investimentos em universidades e institutos federais, comparou o custo anual de um estudante com o custo do encarceramento, expondo a irracionalidade das prioridades históricas do país.
Sobre a Universidade Federal do ABC, declarou: “Fiquei feliz porque a maioria dos estudantes eram mulheres”. Em seguida, apresentou o dado que considera emblemático: “Sabe quanto custa um aluno por ano naquela universidade? R$ 20.000. Sabe quanto custa um Fernandinho Beiramar num presídio de alta segurança? R$ 40.000”.
O mesmo raciocínio apareceu ao tratar dos institutos federais. “Você sabe quanto custa o estudante com almoço, sabe? No Instituto Federal durante um ano? R$ 16.000. Sabe quanto custa um preso numa cadeia de São Paulo? R$ 35.000”.
A partir daí, Lula formulou uma síntese política contundente: “Toda vez que alguém disser para você custa muito, você pergunta quanto custa não fazer?”.
Ele também afirmou que o governo está preparando propostas para resolver de maneira estrutural o atraso educacional brasileiro e apontou avanços recentes na alfabetização infantil. Segundo o presidente, o objetivo é fazer com que o país deixe para trás uma dívida histórica que jamais foi enfrentada com a seriedade necessária.
Trabalho precário, aplicativos e seguridade social
Ao comentar as transformações do mundo do trabalho, Lula adotou um tom pragmático e reconheceu que a esquerda precisa aprender com a nova realidade laboral. Segundo ele, não se trata de impor formas antigas de organização, mas de garantir proteção social mínima a quem trabalha em plataformas e relações flexíveis.
“Nós não queremos regular o cara que trabalha com Uber, o cara que entrega comida”, disse. “O que nós queremos é dizer para ele, sabe que ele precisa trabalhar do jeito que ele quiser, mas ele tem que ter algumas garantias”.
O presidente insistiu que a palavra-chave é segurança. “O que nós queremos é o seguinte, é segurança”, afirmou. Na prática, isso significa construir mecanismos de previdência, amparo em caso de acidente, jornada minimamente protegida e condições mais dignas para os trabalhadores de aplicativos.
Lula disse que o governo já discute formas de financiamento de carros e motos para reduzir a vulnerabilidade de quem depende de aluguel desses instrumentos de trabalho. Também defendeu pontos de apoio para recarga de bateria, higiene e descanso.
Ao mesmo tempo, mostrou cautela quanto à pressa legislativa. “Eu estou convencido que a gente não tem que ter pressa, a gente precisa fazer as coisas correta”, declarou. Para ele, o novo modelo precisa ser construído com participação direta dos trabalhadores envolvidos: “A gente não quer fazer da nossa cabeça, a gente quer fazer da cabeça deles”.
Família, mulheres e combate ao feminicídio
A entrevista também abordou a disputa política em torno da ideia de família, apropriada pela extrema direita em diversos países. Lula rejeitou esse monopólio discursivo e afirmou que, na prática, nenhum governo cuidou tanto das famílias brasileiras quanto os governos petistas.
“Ninguém cuida da família como nós cuidamos”, declarou. Como exemplo, citou o Bolsa Família, políticas de crédito para mulheres, programas de saúde voltados ao público feminino e ações educacionais destinadas à permanência de jovens na escola.
Lula deu destaque especial à valorização das mulheres e ao combate à violência de gênero. Em uma das passagens mais marcantes da conversa, afirmou que o enfrentamento ao feminicídio não é um tema exclusivo das mulheres, mas uma responsabilidade dos homens.
“O problema da mulher, o problema da violência contra a mulher, não é um problema da mulher”, disse. E emendou: “É o homem que tem que resolver. O homem é que tem que parar de ser violento”.
Na mesma linha, completou com uma frase direta: “A luta contra o feminicídio é uma luta do homem”. Para o presidente, o enfrentamento da violência exige um processo educacional contínuo, iniciado dentro de casa e ampliado na creche, na escola e na universidade.
“Nós precisamos mostrar que nós somos iguais”, afirmou. E concluiu em tom incisivo: “Nós homens aqui, precisamos nos educar, aprender que mulher não é saco de pancada”.
Clima, petróleo e as contradições da transição
Um dos momentos mais delicados da entrevista foi a pergunta sobre a contradição entre a expansão da Petrobras como produtora de petróleo e a urgência climática global. Lula respondeu defendendo uma posição que busca combinar uso estratégico do petróleo com a ampliação das energias renováveis.
“Eu também defendo” a diminuição do uso de combustível fóssil, afirmou. Mas logo acrescentou: “Eu não posso defender o fim da Petrobras, porque o petróleo é uma riqueza pro Brasil”.
Na visão do presidente, o Brasil tem uma condição singular porque sua matriz energética já é muito mais limpa do que a dos países centrais. Ele argumentou que o país possui vantagem comparativa por causa do etanol, do biodiesel e da predominância de fontes renováveis na matriz elétrica.
“O Brasil já tem 2025% da nossa toda da nossa energia renovável”, afirmou, em referência à composição energética mais ampla, acrescentando que, na parte elétrica, “são 90% renovável”.
Lula também defendeu o uso da renda petroleira para impulsionar a educação e outros investimentos estratégicos. “Dessa riqueza a gente vai fazer uma revolução na educação”, disse.
Embora a resposta não elimine a tensão entre expansão fóssil e emergência climática, ela evidencia a linha adotada pelo governo: utilizar a renda do petróleo como instrumento de desenvolvimento nacional, ao mesmo tempo em que se aposta na liderança brasileira na transição energética via biocombustíveis e matriz elétrica relativamente limpa.
Inclusão social como marca histórica
Ao final da entrevista, Lula voltou ao tema que atravessa toda a sua trajetória política: a inclusão social como núcleo do projeto nacional. Ele apresentou como prova dessa transformação a mudança no perfil das universidades brasileiras e das políticas públicas nos últimos anos.
“Hoje quando eu vou na USP, que eu vejo metade daquela universidade com gente negra ou parda”, disse. Em seguida, resumiu o que considera uma das maiores conquistas de seus governos: “A gente conseguiu transformar a universidade brasileira na cara do Brasil com a cor, com o jeito e com as diferenças, sabe, do povo brasileiro”.
A fala sintetiza o eixo mais consistente da entrevista: mais do que oferecer uma formulação teórica nova para o futuro da esquerda global, Lula apresentou sua marca histórica como a defesa intransigente do Estado social, da educação pública, da inclusão dos pobres e da reconstrução nacional diante da ofensiva neoliberal e da barbárie da extrema direita.
Ao encerrar a conversa, o presidente retomou a convicção que guiou sua resposta desde o início: “Pode ficar certo, um outro país é possível e nós estamos construindo”.


