Lula entendeu que há uma guerra híbrida aberta contra o Brasil, diz Reynaldo Aragon
Analista afirma que ida de Lula ao G7 marcou reação soberana aos EUA e expôs ofensiva externa contra o processo eleitoral brasileiro
247 - O analista Reynaldo Aragon afirmou nesta quinta-feira (18) que o presidente Lula passou a tratar a relação com os Estados Unidos como uma crise aberta, após sucessivos ataques políticos do governo Donald Trump ao Brasil e ao processo eleitoral brasileiro. Segundo ele, a participação de Lula no G7 consolidou uma mudança de postura diante das pressões externas.
As declarações foram feitas ao programa Giro das Onze, da TV 247, transmitido pelo YouTube. Na avaliação de Aragon, Lula foi ao encontro do G7 em um momento de escalada de tensões com Washington, após críticas de Trump à política brasileira e novas manifestações de apoio à família Bolsonaro. “O presidente Lula tentou durante muito tempo negociar com os Estados Unidos. Vamos botar aí três anos e meio. Nesse último ano, a coisa com mais intensidade teve essa falsa química e a gente nunca acreditou”, afirmou Aragon.
Para o analista, a crise deixou de ser apenas diplomática e passou a envolver diretamente a soberania nacional. Ele disse que os Estados Unidos passaram a tratar o Brasil como um país hostil aos seus interesses, em um contexto de disputa geopolítica mais ampla. “Eu acho que o Lula percebeu que os Estados Unidos vão tentar sabotar as eleições”, disse. “É uma crise aberta. É uma guerra híbrida aberta contra o governo Lula e contra o Brasil.”
G7 como palco de reação política
Aragon avaliou que Lula foi ao G7 com o objetivo de marcar posição diante das potências ocidentais. Segundo ele, o presidente brasileiro não atuou apenas em nome do Brasil, mas também buscou se apresentar como voz do Mercosul e do Sul Global.
“O Lula foi com esse espírito e eu acho que é esse espírito que a esquerda precisa aproveitar para essa campanha, porque os ataques foram diretos”, declarou.
O analista destacou que a presença de Lula no fórum teve importância estratégica por ser, segundo ele, “o último palanque político” do presidente no Ocidente antes das eleições. Aragon afirmou que Lula buscou defender interesses comerciais, abrir oportunidades de negociação e impor limites à interferência externa.
“O que está sendo costurado ali é mais uma vez a imagem do grande líder do Sul Global que não vai em nome apenas do próprio país, vai em nome de todo um continente, de um bloco”, afirmou.
Críticas a Trump e defesa da soberania
Na avaliação de Aragon, a fala de Trump de que o Brasil seria um país “politicamente perigoso” explicitou a hostilidade dos Estados Unidos em relação ao governo brasileiro. Ele afirmou que Lula reagiu como um chefe de Estado ao rejeitar qualquer tentativa de interferência nas eleições. “O Lula reagiu como um estatista tem que reagir. Ele bateu o pé e falou assim: ‘Não, vocês podem ter a preferência eleitoral que vocês quiserem, mas vocês não vão se meter nas eleições brasileiras, na soberania, no voto popular’”, disse Aragon.
Para o analista, o conflito também tem efeito eleitoral interno, porque ajuda a evidenciar quem está ao lado da soberania brasileira e quem atua em alinhamento com interesses externos. “Essa é a prova concreta de que o presidente Lula não está entregando o que o Trump quer, o que os Estados Unidos querem. Se estivesse entregando, continuaria no ‘I love you’, na química, estaria tudo bem”, afirmou.
Áudios vazados e fala sobre “esquerdismo”
Aragon também comentou os áudios vazados durante a passagem de Lula pelo G7, incluindo a fala em que o presidente disse não ser “esquerdista”. Para ele, a declaração não prejudica Lula eleitoralmente e pode até ampliar sua interlocução com setores mais moderados. “O Lula não perdeu nenhum voto no campo progressista com isso. A pessoa ficou magoada, mas não deixa de votar”, avaliou.
Segundo Aragon, Lula nunca se apresentou como um dirigente de esquerda radical, embora seus governos tenham implementado políticas sociais associadas ao campo progressista. "Ele nunca se colocou como um cara de esquerda, nunca. Então ele não mentiu”, disse. “Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Prouni, Ciência Sem Fronteiras, todos os programas sociais, isso é a prática do governo dele.”
Operação contra Jaques Wagner
Ao comentar a operação da PF (Polícia Federal) que mirou o senador Jaques Wagner, Aragon afirmou que a apuração deve seguir até o fim e considerou positivo que o caso venha à tona com antecedência. “Quanto antes aparecer, melhor, porque você tem mais tempo de trabalhar”, afirmou.
O analista, no entanto, criticou a postura do PT diante da operação. Segundo ele, uma nota de apoio irrestrito a Wagner pode produzir desgaste político e dar munição à extrema direita. “A partir do momento em que o PT lança uma nota oferecendo apoio irrestrito ao Jaques Wagner, você cometeu um suicídio semiótico absurdo”, disse.
Aragon afirmou que o partido deveria seguir a linha historicamente defendida por Lula em casos de investigação: apuração completa, sem blindagem prévia. “O PT não seguiu a mesma linha que o presidente Lula vem seguindo há décadas. Se tem alguma coisa, que investigue”, declarou.
Para Aragon, Wagner já vinha enfrentando resistência dentro do campo progressista por sua atuação política recente. O analista defendeu cautela institucional e afirmou que o senador deve ter direito à defesa, mas sem comprometer a imagem coletiva do governo e do partido. “Essa proteção institucional do partido é muito perigosa”, afirmou.



