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Maioria das mulheres confia pouco na Justiça e na polícia em caso de violência de gênero, diz Datafolha

Pesquisa mostra dificuldade para denunciar e baixa confiança em instituições de proteção

Ato contra o machismo no Brasil (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)
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247 - A confiança das mulheres brasileiras nas instituições responsáveis pelo combate à violência de gênero continua baixa. Pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360, divulgada pela Folha de São Paulo nesta segunda-feira (1º) revela que a maior parte das entrevistadas demonstra pouca ou nenhuma confiança na Justiça e na polícia para protegê-las em situações de violência.

O levantamento mostra que apenas 17% das mulheres afirmam confiar muito na Justiça para atuar nesses casos. Outras 63% dizem confiar pouco, enquanto 19% declaram não confiar. Em relação à polícia, os números são semelhantes: 19% confiam muito, 63% confiam pouco e 17% não confiam.

Violência cresce na percepção da população

A pesquisa ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do país entre os dias 6 e 11 de abril.

Segundo os dados, 89% dos entrevistados acreditam que os casos de violência contra a mulher aumentaram no último ano. Além disso, 71% afirmam que as mulheres correm mais risco dentro de casa do que fora dela.

Para a diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, a violência contra a mulher deixou de ser vista como um tema restrito à esfera privada. "Os dados mostram que a pauta sobre violência contra a mulher deixou de ser percebida como tema privado ou tema feminino. Virou questão central de segurança pública e social", afirmou.

Subnotificação preocupa especialistas

A pesquisa identificou ainda um elevado índice de subnotificação. Entre as mulheres que relataram ter sofrido uma agressão grave no último ano, 37% disseram não ter tomado nenhuma providência após o episódio. Segundo Goldenberg, a decisão de denunciar é cercada por diversos obstáculos.

"A decisão de denunciar uma violência costuma ser extremamente complexa. Ela envolve medo, dependência emocional, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha e, muitas vezes, receio de represálias. Mas, quando a mulher também não acredita que será acolhida, protegida ou que terá uma resposta efetiva das instituições, a barreira para buscar ajuda se torna ainda maior", disse.

Culpabilização das vítimas persiste

Outro dado que chama atenção é a permanência da culpabilização das vítimas. De acordo com o levantamento, 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência contra a mulher seriam consequência de escolhas equivocadas feitas por elas ao escolher um parceiro.

Para Goldenberg, essa visão transfere a responsabilidade do agressor para a vítima. "Muitas mulheres sentem vergonha, culpa e medo de serem julgadas quando sofrem violência. Frequentemente escutam perguntas como 'Por que não saiu antes?', 'Por que continuou nesse relacionamento?' ou 'Como não percebeu?'. Isso dificulta a denúncia, reduz a procura por ajuda e contribui para o silêncio", afirmou.

Reconhecimento tardio da violência

A pesquisa também mostra que parte significativa da população ainda tem dificuldade para reconhecer formas de violência que antecedem agressões mais graves.

Quase metade dos entrevistados, 45%, afirmou que impedir uma mulher de sair sozinha para uma comemoração não configura necessariamente violência ou que isso depende do contexto da relação. O mesmo entendimento aparece quando o assunto é o controle das amizades da companheira, citado por 41% dos entrevistados, e o controle do salário da esposa, mencionado por 42%.

Por outro lado, formas mais explícitas de agressão são amplamente reconhecidas. Humilhar uma mulher em público é considerado violência por 94% dos entrevistados, enquanto 95% afirmam que forçar uma relação sexual dentro do casamento caracteriza violência contra a mulher.

"Essa é uma das conclusões mais importantes da pesquisa. O Brasil avançou muito no reconhecimento da violência física e das suas consequências mais graves. A população enxerga a violência contra a mulher como um problema urgente e crescente, mas ainda existe uma dificuldade de reconhecer as etapas anteriores que sustentam essa violência", afirmou Goldenberg.

"Estamos reconhecendo a violência tarde demais. Se não identificarmos os sinais iniciais, a intervenção e a busca por ajuda acontecem apenas quando a situação já se agravou", ressaltou.

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