Master investiu R$ 614 mi em grupo que bancou filme de Bolsonaro
Segundo a PF, empresas do Grupo Entre receberam recursos do Banco Master por meio de títulos, fundos e debêntures
247 - O Banco Master investiu R$ 614 milhões em empresas do grupo Entre, ligado a Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que teria financiado um filme sobre Jair Bolsonaro; as informações são do UOL. Segundo a Polícia Federal, os recursos envolveram emissão de títulos, aportes por fundo vinculado ao banco e pagamento de debêntures.
De acordo com a reportagem publicada nesta quarta-feira (13), a Entre Investimentos emitiu R$ 71 milhões em títulos comprados pelo Master, com vencimento previsto para 2025. Já a Entre Payments recebeu R$ 213 milhões do Fundo Máxima, que pertencia ao banco, além de R$ 330 milhões em pagamento de debêntures do Master.
As duas empresas faziam parte de um grupo fundado e controlado por Antonio Carlos Freixo Júnior. A PF suspeita que ele tenha atuado como um dos operadores financeiros de uma rede atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro, que teria se beneficiado das operações investigadas. Freixo Júnior foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro.
Procurada pelo UOL, a defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria o caso.
Grupo Entre nega irregularidades
O grupo Entre também integrou uma operação de mídia estruturada por Vorcaro, segundo a investigação, e adquiriu sites da revista IstoÉ em leilão judicial. Em nota enviada ao UOL em março, o grupo de Freixo Júnior afirmou que suas atividades sempre seguiram padrões legais, regulatórios e de governança.
“Os serviços prestados pelo Grupo Entre sempre foram conduzidos de forma regular, dentro dos parâmetros legais e regulatórios, seguindo práticas de compliance, governança e controles compatíveis com o mercado financeiro”, declarou o grupo.
A empresa também afirmou que o processo em andamento na Comissão de Valores Mobiliários ainda não teve decisão de mérito.
“O processo em trâmite perante a CVM está em andamento, sem decisão do colegiado sobre o mérito da acusação. A Entre e Antônio Freixo reiteram não ter cometido qualquer irregularidade e confiam que essa será a inevitável conclusão da CVM diante dos argumentos e provas oferecidas pela defesa”, disse.
O grupo ainda contestou a vinculação de Freixo Júnior à investigação.
“A associação de seu nome à investigação é indevida e baseada em um grande equívoco. Decorre de erro grave de enquadramento, que será devidamente demonstrado nos autos, e corrigido no curso das investigações, com base em elementos técnicos objetivos e verificáveis”, afirmou.
CVM identificou atuação no Brazil Realty FII
A Entre Investimentos foi apontada pela CVM como intermediária em um esquema envolvendo o fundo imobiliário Brazil Realty FII, que teria causado prejuízos a fundos de previdência de servidores públicos.
Segundo a apuração, empresas da família Vorcaro compraram cotas do fundo usando ativos superavaliados, e não dinheiro. Para transformar essas posições em recursos financeiros, era necessário vender as cotas no mercado. Nesse contexto, a Entre Investimentos atuaria como compradora garantida dos papéis, absorvendo as cotas e repassando-as a outros investidores.
A investigação afirma que, sem essa atuação, não haveria compradores para os ativos. Entre novembro de 2018 e março de 2020, a Entre realizou 177 operações de compra e venda de cotas do fundo.
De acordo com a PF, os prejuízos recaíram sobre fundos de previdência de servidores públicos que adquiriram as cotas no fim da cadeia e depois não conseguiram revendê-las pelo mesmo valor.
Em um dos episódios analisados no inquérito sobre o Master, a Entre teria comprado, em um único dia, 43% das cotas pertencentes a uma empresa da família Vorcaro. A operação gerou retorno de 22,2% em 24 horas para a companhia, percentual considerado incompatível com o valor real dos ativos pela investigação.
Em processo anterior analisado pela CVM, a Entre transferiu R$ 18 milhões para uma intermediária, que repassou o montante à Viking Participações, empresa de Vorcaro, então diretor do Banco Máxima.
Investigação aponta patrimônio subdeclarado
Outra frente da apuração envolve comunicação recente ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Segundo o UOL, a Entre Investimentos declarou à Reag Trust, administradora dos fundos em que era cotista, possuir R$ 316 milhões em investimentos.
A posição real, no entanto, seria superior a R$ 2,3 bilhões, distribuídos em seis fundos. Para os investigadores, a ocultação do volume efetivo de patrimônio dificulta o rastreamento da origem e do destino dos recursos e pode favorecer práticas de lavagem de dinheiro.
A CVM rejeitou propostas de acordo apresentadas pela empresa para encerrar o processo sancionador. As ofertas chegaram a R$ 4,5 milhões, mas o comitê da autarquia estimou em R$ 50 milhões o valor mínimo aceitável. O caso ainda será julgado.
Banco Central liquidou a Entrepay
O Banco Central também aparece no contexto das investigações. Segundo a reportagem, a liquidação da Entrepay foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da empresa, por infrações às normas que regulam sua atividade e por prejuízos que expunham credores a risco considerado anormal.
A investigação da Polícia Federal segue em torno das relações financeiras entre o Banco Master, empresas do grupo Entre e estruturas ligadas a Daniel Vorcaro, enquanto os processos administrativos na CVM ainda aguardam decisão final.


