Master realizou R$ 2,8 bilhões em câmbio para empresa investigada por lavagem ligada ao PCC
PF aponta falhas de documentação, indícios de fraude e possível redução de impostos em centenas de operações
247 – O Banco Master, quando ainda operava sob o nome Banco Máxima, realizou remessas cambiais para uma empresa brasileira investigada pela Polícia Federal (PF) sob suspeita de lavar dinheiro para a facção criminosa PCC e para o Hezbollah. Segundo as informações, as remessas somaram US$ 531 bilhões, valor que a reportagem converte como equivalente a cerca de R$ 2,8 bilhões na cotação atual.
As informações foram publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo, que relata que a PF apura a atuação da One World Services (OWS), companhia que oferece venda direta de criptoativos, no modelo conhecido no mercado como OTC (“sobre o balcão”), com menos intermediação de plataformas tradicionais.
Banco e operações sob investigação
De acordo com a investigação, a OWS teria comprado bitcoins para pessoas condenadas por lavagem de dinheiro para organizações criminosas, utilizando contas mantidas no Master, sem entregar a documentação exigida pelo Banco Central (BC) à época, segundo relatório citado no material. As transações teriam ocorrido entre dezembro de 2018 e abril de 2021, período em que os serviços cambiais ganharam peso no balanço do então Banco Máxima, antes da mudança de nome e de estratégia.
O texto também registra a trajetória de controle na instituição: Daniel Vorcaro entrou no Banco Máxima em 2017 e assumiu o controle em 2018, com aprovação do BC em agosto de 2019. No contexto, a PF sustenta que não se trata de um caso isolado, mas de um padrão observado em diferentes instituições analisadas no inquérito.
Nos autos, a PF afirma que oito instituições investigadas, incluindo o Master, “de forma deliberada fecharam os olhos para a realidade de seus clientes”, considerada incompatível com os valores transacionados. A investigação é vinculada à Operação Colossus, deflagrada em 2022 e com desdobramentos em 2024 e 2025, na qual as autoridades passaram a acompanhar movimentações estimadas em R$ 60 bilhões, sendo R$ 8 bilhões em operações de câmbio.
As justificativas usadas e o ponto central do BC
No recorte atribuído ao Master, foram identificadas 331 operações que teriam sido justificadas como aumento de capital de uma offshore ligada à OWS em Miami. Pela regra vigente naquele período, cada remessa demandaria uma ata societária para comprovar o aumento de capital. Segundo o relato, o banco teria entregue apenas 15 atas às autoridades.
O BC também teria considerado inadequada a finalidade declarada das transações, em um ponto que, conforme a apuração, impactaria diretamente a tributação. O material menciona que operações de aumento de capital estavam sujeitas a IOF de 0,38%, enquanto a compra de ativos no exterior pagava 1,1%, o que reduziria a coleta de impostos se a classificação fosse utilizada de forma indevida.
Além disso, os investigadores apontam indícios de fraude nos documentos apresentados. O relatório citado descreve repetição de datas e proximidade incomum entre digitalizações: “Alguns desses arquivos foram digitalizados com alguns minutos de diferença uns dos outros”, afirma o texto atribuído à autoridade policial.
A PF teria consultado o Banco Central sobre as transações e repassado os dados levantados, levando a autarquia a abrir uma apuração própria.
A resposta do banco e o acordo com o Banco Central
Em nota enviada à Folha, o Banco Master afirmou que a apuração foi encerrada administrativamente por meio de termo de compromisso, sem reconhecimento de irregularidade: “As apurações sobre esse tema foram objeto de acordo firmado com o BC, que encerrou o caso no âmbito administrativo, sem reconhecimento de irregularidade”.
O banco, segundo o texto, não divulgou o valor da multa acertada com a autoridade monetária. A reportagem também contextualiza que, em 31 de dezembro de 2022, o Banco Central dispensou a obrigatoriedade de documentação para justificar determinadas operações de câmbio no exterior, com o argumento de desburocratizar o processo. Essa exigência, de acordo com o material, era um dos principais instrumentos usados pela PF para apontar ilicitude na atuação de instituições financeiras, e sua queda foi citada como um dos argumentos favoráveis ao termo de compromisso.


