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Moradores de Rio Grande celebram entregas do Minha Casa, Minha Vida e falam em dignidade e recomeço

Empreendimento Junção entrega 1.276 moradias e reúne histórias de mães solo, idosos e famílias que esperaram mais de uma década por um lar próprio

Entidades (RS), 20/01/2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de entrega de 1.276 unidades habitacionais do Empreendimento Junção Rio Grande, no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida. Foto: Ricardo Stuckert/PR (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 – A entrega de chaves do Minha Casa, Minha Vida em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, transformou o começo de ano de 1.276 famílias que agora passam a ter um endereço definitivo, longe do aluguel, do favor e de condições precárias de moradia. A inauguração do empreendimento Junção ocorreu na terça-feira (20) e marcou, para muitos beneficiários, a sensação concreta de segurança, estabilidade e dignidade.

As informações e os relatos foram divulgados pela Agência Gov, via Ministério das Cidades, em publicação de 21 de janeiro de 2026. Ao todo, seis empreendimentos compõem o conjunto habitacional Junção, construído com investimento de R$ 123,6 milhões do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS), dentro da modalidade Entidades — uma das frentes do maior programa habitacional do país.

Investimento público e moradias para recomeçar

O empreendimento reúne casas e apartamentos que passam a abrigar famílias com renda bruta mensal de até R$ 2.850 (Faixa 1), público prioritário da linha Entidades. Nessa modalidade, entidades sem fins lucrativos organizam e executam os projetos habitacionais com participação ativa dos próprios beneficiários, com recursos repassados pelo Governo Federal.

Além das unidades residenciais, o conjunto foi planejado com equipamentos de convivência e lazer: quadra poliesportiva, academia ao ar livre, salão de festas, quiosque com churrasqueira, playground e centro comunitário. Para moradores que vinham de rotinas marcadas por longos deslocamentos e falta de serviços básicos nas proximidades, a estrutura urbana ao redor é tratada como parte central da mudança de vida.

“O sonho da casa própria é minha liberdade”, diz mãe solo

Entre as histórias apresentadas, a de Cândida Gabrieli da Vara, de 33 anos, condensa o impacto social da política habitacional para quem atravessou anos de instabilidade. Mãe de Miguel, de 8 anos, ela descreveu uma realidade anterior marcada por precariedade, distância e dificuldade de acesso a serviços essenciais.

“Antigamente eu morava no interior, no Povo Novo, e vivia como podia. Morava em um casebrezinho, herança de família, e tinha uma vida típica de lá, pacata, tendo que viajar horas todos os dias para poder trabalhar. Emprego era uma dificuldade, porque era longe, a passagem mais cara, a opção era em Pelotas, que é a cidade mais próxima, mas não é todo mundo que contrata pessoal de outra cidade. Saúde também era difícil, porque é muito longe de tudo, o posto trabalhava até às 16h e depois não tinha mais atendimento”, relatou.

As dificuldades, segundo ela, pesavam ainda mais por criar sozinha um filho neurodivergente. A mudança para o Minha Casa, Minha Vida, no entanto, altera esse cenário com a oferta de infraestrutura por perto: unidades de saúde, assistência social, educação e equipamentos públicos nas proximidades, além de restaurante popular, estação rodoviária e creche.

Cândida resumiu o significado da conquista de forma direta: “O sonho da casa própria é minha liberdade, tanto financeira quanto emocional. O fato de eu ser mãe atípica e agora poder ter tudo próximo é fundamental. Não preciso mais caminhar quilômetros para ir ao mercado, viajar horas para trabalhar, então é minha liberdade. Foi uma grande emoção, porque onde eu vivia era de herança e eu não era a única herdeira, então tinha pressão de vender, também era um casebre meio insalubre, apesar de ser meu lar por muito tempo. Fiquei muito feliz quando soube que teria minha nova casa”, celebrou.

Persistência, doença e superação: “É ano novo, vida nova”, afirma beneficiária

Outra história destacada é a de Daniela Freitas, de 37 anos, que esperou mais de uma década desde a inscrição no programa. Mãe de um filho de 18 anos e de duas filhas adotadas, ela relembra que, no meio do caminho, enfrentou um câncer que alterou radicalmente sua rotina e as perspectivas da família. Ainda assim, seguiu acompanhando reuniões e etapas do processo, mesmo durante o tratamento.

“Estou muito feliz, planejei muito por isso. Hoje estou no meu melhor momento. Deus me deu duas filhas, porque pelo câncer que eu tive não poderia ser mãe mais, mas veio a cura, as meninas, e eu com meus filhos estamos indo para o nosso apartamento. A casa significa saber que tem para onde voltar e que meus filhos têm uma casa que é deles. A preocupação como mãe é de que, mesmo se nada der certo, pelo menos os filhos já têm a casinha deles. É maravilhoso”, compartilhou.

Com as chaves em mãos, Daniela também enfatizou o papel da participação ativa dos inscritos, especialmente na modalidade Entidades, em que reuniões e acompanhamento se tornam parte do caminho até a entrega. “Sei que igual a mim tem muitos que sonharam estar aqui. Estou desde o início, quando formamos uma fila enorme desde manhã cedo, no inverno. Naquela época eu era nova, mas quis ir atrás. Nunca perdi uma reunião, mesmo doente, sempre participei. Agora vou morar no Junção, no meu apartamento. É ano novo, vida nova, e essa casa representa meu cantinho, meu conforto, significa tudo para mim. Não adianta só se inscrever, tem que estar junto, participar, e acredito que, da mesma maneira que hoje sou beneficiária, que muitas pessoas ainda vão conseguir também conquistar a casa própria”, acrescentou.

Aos 75 anos, a conquista da privacidade vira “vitória”

A entrega também reuniu histórias de idosos que, depois de uma vida inteira de trabalho e dependência de familiares, alcançam o direito à moradia com autonomia. É o caso de Maria Yolanda Rodrigues, de 75 anos, que vivia em uma casa emprestada e descreveu a nova etapa como realização de um sonho antigo — e, sobretudo, a conquista da privacidade.

“Vi a oportunidade e agarrei. Meus filhos sempre me deram cobertura, mas a gente chega em uma certa idade e quer ter a nossa privacidade. Meu neto tinha um aninho quando fui com ele fazer o cadastro e daquele dia em diante nunca mais perdi as esperanças. Quando visitei o apartamento pela primeira vez, até pedi ao engenheiro para dormir com a chave. Estou emocionada, é uma vitória”, comemorou.

Maria Yolanda reforçou o sentido familiar e pessoal da mudança: “Essa conquista muda tudo. Muda para os filhos, que estão felizes por eu ter meu cantinho, e muda para mim, que vou ter minha privacidade. O próximo sonho agora é curtir bem minha casa e pedir para Deus me dar bastante saúde para aproveitar. Meu conselho é que os outros também não desistam dos seus sonhos”, finalizou.

Reconstrução no RS e novas frentes do programa após as enchentes

O Ministério das Cidades também relaciona as entregas e ações no estado a um contexto mais amplo: a resposta às enchentes de 2024, que destruíram moradias e agravaram vulnerabilidades históricas. Para atender as famílias afetadas, foi estabelecido o Minha Casa, Minha Vida Reconstrução, com créditos extraordinários de R$ 3,5 bilhões para o Rio Grande do Sul.

Dentro dessa frente, foi criado o Compra Assistida, mecanismo que facilita a compra de um imóvel novo ou usado, já existente, no valor de até R$ 200 mil. Somadas as diferentes modalidades em curso no estado, o governo aponta 142 mil novas unidades habitacionais em território gaúcho, equivalentes a mais de R$ 22,6 bilhões em investimentos.

Dignidade como política pública

As histórias reunidas em Rio Grande evidenciam que o impacto de um programa habitacional não se mede apenas por números. O que aparece nos depoimentos é a mudança concreta no cotidiano: proximidade de serviços, alívio financeiro, estabilidade emocional e a sensação de pertencimento a uma cidade que, por muitos anos, parecia distante para quem vivia à margem.

Em comum, as falas de Cândida, Daniela e Maria Yolanda apontam para um eixo central: moradia como direito e dignidade como resultado direto de política pública. Para famílias que atravessaram aluguel, incerteza, doença e envelhecimento sem casa própria, a chave entregue não é apenas um objeto — é o símbolo de uma vida que, enfim, pode começar de novo.

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