Noticiário negativo, percepção da economia e impacto da isenção do IR afetam avaliação do governo, diz Felipe Nunes
Pesquisa Genial/Quaest aponta influência de cobertura negativa, percepção econômica pior e baixo impacto da mudança no imposto de renda
247 - A piora na avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, registrada pela pesquisa Quaest/Genial e divulgada nesta quarta-feira (11), reflete uma combinação de fatores políticos e econômicos que influenciaram a percepção pública no último mês. Segundo análise do cientista político Felipe Nunes, professor e diretor da Quaest, três elementos principais ajudam a explicar a deterioração dos indicadores: o aumento do noticiário negativo, a piora na percepção sobre a economia e o impacto limitado da atualização da tabela de isenção do Imposto de Renda.
Os dados mostram que 44% dos brasileiros aprovam o governo, enquanto 51% desaprovam a gestão federal, o que representa um saldo negativo de sete pontos percentuais. Trata-se do pior resultado desde julho de 2025.
A avaliação geral do governo também apresentou deterioração. A parcela de entrevistados que classifica a gestão como positiva caiu de 33% para 31% no último mês. Ao mesmo tempo, a avaliação negativa subiu de 39% para 43%. Já o percentual que considera o governo regular oscilou de 26% para 25%.
Para Felipe Nunes, o ambiente informativo teve papel relevante na mudança de percepção.
“Essa mudança parece ser uma combinação de três fatores”, afirmou.
O primeiro deles é o aumento do impacto do noticiário negativo sobre o governo. De acordo com a pesquisa, 47% dos entrevistados disseram ter sido impactados por notícias negativas no último mês, enquanto apenas 24% relataram influência de notícias positivas.
Esse cenário também se refletiu nas preocupações dos brasileiros. A corrupção passou a ocupar a segunda posição entre os principais problemas do país, mencionada por 20% dos entrevistados. A violência permanece em primeiro lugar, citada por 27%.
Outro fator apontado pela análise é a piora na percepção da economia. Embora os índices ainda não estejam tão negativos quanto os observados no mesmo período do ano anterior, a tendência de deterioração vem sendo registrada desde dezembro de 2025.
Segundo o levantamento, 48% dos entrevistados afirmam que a economia piorou no último ano, enquanto 24% dizem ter percebido melhora no período.
O terceiro elemento destacado é o impacto limitado da mudança na tabela de isenção do Imposto de Renda. De acordo com os dados, praticamente não houve alteração no percentual de brasileiros que dizem ter sido beneficiados pela medida. O índice passou de 30% para 31% no último mês.
Cenário eleitoral mantém polarização
O levantamento também analisou cenários eleitorais e reforça a permanência de forte polarização política no país. Nos diferentes cenários de primeiro turno testados, Lula aparece com intenções de voto entre 36% e 39%.
O senador Flávio Bolsonaro surge com índices entre 30% e 35%, consolidando-se como principal adversário nos cenários avaliados. Outros nomes aparecem com percentuais menores: Ratinho Jr registra 7%, Ronaldo Caiado tem 4%, enquanto Romeu Zema e Eduardo Leite aparecem com 3% cada.
Em uma comparação entre dezembro de 2025 e março de 2026, Lula passou de 39% para 36% das intenções de voto em um dos cenários testados. No mesmo período, Flávio Bolsonaro avançou de 23% para 33%. Já Ratinho Jr recuou de 13% para 7%, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo permanecem com 2%.
Segundo Felipe Nunes, o crescimento de Flávio Bolsonaro está ligado à ampliação do apoio entre eleitores alinhados ao bolsonarismo.
“Desde que foi lançado pelo pai, Flávio tem conseguido monopolizar o eleitor bolsonarista”, afirmou.
De acordo com a análise, a conversão nesse grupo passou de 76% em dezembro de 2025 para 92% em março de 2026. Entre eleitores de direita, o apoio subiu de 45% para 71%. Já entre os eleitores independentes, o desempenho passou de 11% para 21%.
Empate no segundo turno
Nas simulações de segundo turno, os dados apontam empate numérico entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com 41% das intenções de voto. No levantamento anterior, a diferença entre os dois era de cinco pontos percentuais.
Para Felipe Nunes, o resultado reforça um cenário de forte divisão política no país.
“O empate entre os dois principais competidores a seis meses da eleição reforça a tese da calcificação”, disse.
Segundo ele, Lula mantém hegemonia entre eleitores anti-bolsonaristas, enquanto Flávio Bolsonaro concentra apoio no campo anti-petista.
Entre os eleitores independentes, o levantamento indica Flávio numericamente à frente de Lula, com 32% contra 27%. Nesse grupo, 36% afirmam que não pretendem votar em nenhum dos dois e 5% dizem estar indecisos.
Rejeição elevada entre possíveis candidatos
O levantamento também mostra mudanças na percepção negativa dos eleitores. Pela primeira vez, a parcela de entrevistados que afirma ter medo da continuidade de Lula na presidência (43%) supera numericamente aqueles que dizem temer a volta da família Bolsonaro ao poder (42%).
Lula também registra o menor índice de potencial de voto da série histórica, com 41%, além da maior rejeição entre os possíveis candidatos testados, alcançando 56%.
A rejeição ao senador Flávio Bolsonaro também é elevada e chega a 55%, mas a diferença entre os dois diminuiu ao longo dos últimos meses.
Entre os eleitores independentes, Lula apresenta maior potencial de voto, com 29% contra 26% de Flávio Bolsonaro, mas também enfrenta rejeição maior: 65% contra 61%.
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 120 municípios entre quinta-feira (6) e domingo (9). O nível de confiança é de 95% e a margem de erro é de dois pontos percentuais.


