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PF considera que Vorcaro quer ganhar tempo com delação frágil, enquanto defesa vê má vontade

Investigadores cobram fatos novos e provas para avançar em acordo de colaboração premiada

Agente da Polícia Federal, Banco Master e Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação I Reprodução)
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247 - A delação de Vorcaro enfrenta resistência na PF e PGR porque investigadores cobram fatos novos e provas para avançar em acordo de colaboração premiada envolvendo Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master, em um processo que ainda depende de avaliação técnica e eventual homologação pelo Supremo Tribunal Federal.

As informações são do jornal O Globo. Segundo a reportagem, integrantes da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda não chegaram a um entendimento com a defesa de Vorcaro sobre a proposta de colaboração, negociada desde março, quando ele foi preso preventivamente pela segunda vez.

De acordo com a apuração, a principal resistência na PF está relacionada ao conteúdo dos anexos apresentados até agora. Investigadores avaliam que o material entregue pela defesa carece de fatos novos e de meios de prova capazes de sustentar uma colaboração premiada. A avaliação interna é que, sem elementos inéditos e documentação de apoio, a tendência é de rejeição da proposta.

Entre integrantes da PF, também há a percepção de que Vorcaro não estaria demonstrando disposição efetiva para colaborar. Parte dos investigadores considera que a negociação poderia estar sendo usada como forma de ganhar tempo e manter o banqueiro distante de um presídio comum.

Defesa considera proposta consistente

A defesa de Daniel Vorcaro, no entanto, sustenta posição oposta. Interlocutores dos advogados afirmam que o material apresentado na semana passada reúne relatos inéditos e possui consistência suficiente para justificar o avanço das tratativas. Para esse grupo, haveria má vontade dos investigadores em prosseguir com o acordo.

Os advogados são comandados pelo criminalista Sérgio Leonardo e tentam destravar as negociações em meio a um calendário considerado apertado. Investigadores apontaram julho como prazo máximo para evitar que eventual colaboração seja contaminada pelo processo eleitoral.

A negociação começou formalmente com a assinatura de um acordo de confidencialidade. Desde então, Vorcaro foi autorizado a permanecer em uma cela especial na Superintendência da PF, em Brasília, onde recebe os advogados diariamente, das 9h às 17h. Esse benefício, porém, deve terminar nesta sexta-feira. Depois disso, ele deverá seguir o procedimento padrão da unidade, com visitas limitadas a até dois advogados por 30 minutos cada.

PGR adota cautela sobre novos anexos

Na Procuradoria-Geral da República, a postura é de cautela. Integrantes da PGR ainda analisam os anexos apresentados pela defesa e avaliam que não há, até o momento, elementos suficientes para uma definição sobre o futuro da proposta.

A avaliação nos bastidores é que a nova versão precisa demonstrar de maneira mais clara a capacidade de entregar fatos inéditos e elementos de corroboração. Para que uma colaboração premiada avance, as informações apresentadas devem ser confirmadas por documentos, registros ou outros meios independentes de prova.

Segundo relatos citados pela reportagem, também há dúvidas sobre a extensão do material a que Vorcaro ainda teria acesso para sustentar determinadas afirmações. Parte da documentação considerada relevante para a investigação já não estaria sob seu controle direto desde a liquidação do Banco Master e a transferência da gestão para um administrador responsável pelo processo.

Menções a políticos e ao filme “Dark Horse”

Interlocutores com acesso ao conteúdo afirmam que os anexos mencionam o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que nega irregularidades, e o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A apuração também aponta que uma troca de mensagens revelou pedido de recursos feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Vorcaro. O parlamentar reuniu a imprensa para tratar das denúncias envolvendo o banqueiro e confirmou ter visitado o executivo no fim do ano passado, quando Vorcaro estava em prisão domiciliar.

De acordo com o material informado, Flávio Bolsonaro disse que esteve na casa de Vorcaro, em São Paulo, para tratar do financiamento do filme “Dark Horse”. O senador afirmou que esse foi o único assunto abordado na ocasião.

Investigadores veem material insuficiente

A primeira versão da proposta de delação foi rejeitada em maio. Depois disso, a defesa entregou novos anexos na segunda-feira da semana passada. O conteúdo foi analisado por integrantes da PF e da PGR ao longo dos últimos dias, inclusive durante o feriado de Corpus Christi.

A tendência atual, segundo a reportagem, é que o material seja recusado novamente caso permaneça como está. A avaliação é que os anexos não avançam muito além do que já foi apurado nas oito fases da Operação Compliance Zero, que resultaram na apreensão de celulares e documentos.

PF e PGR adotaram estratégias distintas ao longo da negociação. Em maio, os delegados deixaram a mesa de tratativas, mas depois retomaram as conversas. Já os procuradores mantiveram contato com os advogados, ainda que considerem a proposta insuficiente no formato atual.

Uma nova reunião entre os advogados e representantes da PF e da PGR está prevista para ocorrer nesta semana. Os investigadores ainda não decidiram se pedirão novos complementos ou se encerrarão as negociações nesta etapa. Mesmo em caso de nova rejeição, eles afirmam que o investigado poderá apresentar outra proposta quando considerar conveniente.

Acordo depende de homologação no STF

A colaboração premiada é um instrumento de obtenção de provas que, entre outros requisitos, envolve confissão de crimes e pagamento de multa. Em troca, o investigado pode receber benefícios legais, como redução de pena ou progressão de regime.

No caso de Daniel Vorcaro, qualquer acordo precisará ser homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do caso Master na Corte. O ministro já sinalizou que não deve aceitar uma colaboração que não acrescente fatos novos à investigação.

Caso o acordo não avance, PF e PGR ficam impedidas de utilizar o conteúdo dos anexos já entregues pela defesa. O impasse, portanto, mantém em aberto o futuro da negociação e aumenta a pressão sobre os advogados para apresentar elementos capazes de convencer investigadores, procuradores e o Supremo de que a delação pode efetivamente contribuir para a apuração.

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