PF rejeitou delação de Vorcaro por ver "seletividade" em proposta de colaboração no caso Master
O principal incômodo na investigação foi a percepção de que a proposta de colaboração premiada tinha omissões e evitava aprofundar episódios mais sensíveis
247 - A Polícia Federal rejeitou a colaboração premiada feita pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, alegando que a proposta de delação tinha omissões relevantes e não apresentava fatos novos capazes de alterar o rumo da Operação Compliance Zero.
Segundo a coluna da jornalista Mirelle Pinheiro, do Metrópoles, integrantes da investigação afirmaram que o conteúdo apresentado pelo dono do Banco Master não trouxe surpresa relevante. Em algumas frentes, segundo essas fontes, investigadores já teriam informações mais completas do que aquelas descritas nos anexos encaminhados pela defesa.
A PF comunicou formalmente à defesa de Vorcaro nesta quarta-feira (21) que a proposta de delação premiada feita pelo banqueiro foi rejeitada. O empresário e o Banco Master são investigados no âmbito da Operação Compliance Zero. Segundo as investigações, o esquema de fraudes financeiras movimentou ao menos R$ 12 bilhões.
O principal incômodo dentro da investigação foi a percepção de que a proposta de delação tinha caráter "seletivo". A expressão usada nos bastidores foi “delação seletiva”, em referência à avaliação de que Vorcaro reconhecia fatos considerados periféricos, mas evitava aprofundar episódios mais sensíveis, que poderiam alcançar personagens influentes de Brasília.
A expectativa da PF era que uma eventual colaboração avançasse sobre a estrutura política, financeira e empresarial ligada ao esquema investigado.
Em vez disso, a defesa teria apresentado uma narrativa considerada parcial e excessivamente calculada. Para integrantes da apuração, esse ponto reduziu o interesse da polícia em seguir adiante com o acordo nos termos apresentados.
A rejeição da colaboração foi resultado de uma combinação de fatores considerados difíceis de contornar nos bastidores da investigação: o estágio avançado das apurações, a quantidade de informações que teriam sido omitidas e a percepção de que o banqueiro tentava limitar o alcance das revelações entregues às autoridades.
De acordo com fontes ligadas à Operação Compliance Zero, a avaliação interna na PF é que Vorcaro chegou tarde à mesa de negociação. Quando os advogados iniciaram as tratativas formais, os investigadores já haviam reunido um conjunto considerado robusto de provas.
Esse material incluía celulares apreendidos, trocas de mensagens, rastreamento financeiro, relatórios de inteligência e documentos obtidos ao longo das fases da operação. Por isso, a colaboração passou a ser vista com maior rigor pelos investigadores.
Vazamentos agravaram desgaste nas negociações
Outro fator que contribuiu para a deterioração das tratativas foram os vazamentos sucessivos de trechos da possível delação. A circulação de informações reservadas incomodou investigadores e foi comunicada ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pelo caso.
Nos bastidores da PF, a leitura foi que os vazamentos comprometeram a confiança necessária para manter as negociações. A partir desse momento, o ambiente entre investigadores e defesa se deteriorou rapidamente.
A corporação também passou a avaliar que havia uma tentativa de construção de narrativa pública por parte da defesa. Para os investigadores, enquanto essa narrativa ganhava espaço, as informações efetivamente entregues não avançavam no mesmo ritmo das descobertas feitas pela própria PF.
Aumento do nível de exigência sobre delações
A situação de Vorcaro se tornou ainda mais delicada porque outros investigados da Operação Compliance Zero também começaram a sinalizar interesse em colaborar com as autoridades. Esse movimento elevou o nível de exigência sobre qualquer eventual acordo de colaboração premiada.
Na avaliação de integrantes da PF, uma delação só faria sentido se apresentasse fatos inéditos, provas concretas e conexões ainda desconhecidas pela investigação. O entendimento interno, até agora, é que a proposta de Vorcaro não cumpriu esses requisitos.
Apesar da rejeição formal pela Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República ainda conduz uma análise paralela sobre os anexos entregues pela defesa. A PGR avalia se existe algum elemento novo que possa justificar uma eventual retomada das negociações.
Enquanto isso, nos bastidores da investigação, prevalece a percepção de que a PF já passou da fase de depender de uma delação de Daniel Vorcaro para avançar sobre o núcleo financeiro e político investigado na Operação Compliance Zero.
Estatísticas
Levantamento divulgado pela Agência Brasil na última segunda-feira (18) mostrou que a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, completou seis meses com 21 prisões temporárias, 116 mandados de busca e apreensão e R$ 27 bilhões bloqueados em bens e valores no caso do Banco Master. A primeira fase ocorreu em 18 de novembro e levou sete pessoas à prisão, entre elas Daniel Vorcaro.
À medida que a apuração avançou, o Banco Central oficializou a liquidação judicial do conglomerado do Banco Master, medida que também alcançou Letsbank, Will Bank e Banco Pleno. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) já desembolsou R$ 49 bilhões para ressarcir parte dos clientes do Master.
A Compliance Zero também revelou vínculos atribuídos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) com a família Vorcaro. Segundo a investigação, há suspeitas de que o parlamentar tenha atuado no Congresso em favor de interesses do banqueiro.
A apuração aponta que Ciro Nogueira teria recebido repasses mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além de outras vantagens. Os investigadores ainda precisam delimitar o alcance das suspeitas e eventuais responsabilidades individuais.
A menção ao senador amplia a dimensão política do caso Banco Master e direciona o foco para as relações entre representantes do mercado financeiro e membros do Congresso Nacional.


