Redução da jornada de trabalho terá impacto positivo na distribuição da renda a favor dos trabalhadores mais pobres
Estudo do Ipea mostra que contratos de 44 horas se concentram entre empregados com menor escolaridade e salários mais baixos
247 - A possível redução da jornada de trabalho no Brasil pode ter um impacto direto na redistribuição de renda, beneficiando principalmente trabalhadores que hoje enfrentam rotinas mais longas e com menor remuneração. Essa é a principal conclusão de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que será divulgado nesta terça-feira (10).
De acordo com informações publicadas pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, a análise destaca que a jornada máxima de 44 horas semanais, prevista na legislação brasileira, está concentrada justamente entre profissionais de menor renda e menor nível de escolaridade, o que reforça o potencial redistributivo de uma eventual mudança nas regras atuais.
A constatação é baseada em dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) de 2023, utilizada como referência para mapear o perfil dos trabalhadores brasileiros em diferentes regimes de contratação. Segundo o levantamento, jornadas mais extensas tendem a predominar em setores caracterizados por salários mais baixos e maior rotatividade de mão de obra.
O estudo também aponta que contratos de 40 horas semanais aparecem com mais frequência entre ocupações que oferecem salários médios mais elevados. A nota técnica do Ipea indica, portanto, uma relação clara entre a duração do expediente e a qualidade das condições de trabalho, sugerindo que reduzir o tempo máximo semanal poderia diminuir desigualdades estruturais do mercado de trabalho brasileiro.
Debate ganha força com proposta de fim da escala 6x1
A discussão sobre mudanças na jornada voltou ao centro do debate político e econômico nas últimas semanas, impulsionada pela proposta de extinguir a escala 6x1, regime em que o trabalhador atua seis dias seguidos e descansa apenas um. O tema passou a ser tratado como uma das prioridades do governo Lula para este ano, ampliando a pressão por medidas que alterem a atual organização do trabalho no país.
Com a divulgação do estudo, a expectativa é que os dados reforcem o argumento de que a redução do tempo de trabalho não se limita a uma questão de qualidade de vida, mas também pode funcionar como instrumento de política pública voltado à diminuição das desigualdades salariais.
Ao evidenciar que os brasileiros submetidos às jornadas mais longas são justamente aqueles com menor remuneração e maior instabilidade nos vínculos empregatícios, o levantamento do Ipea adiciona uma dimensão econômica e social ao debate, apontando que mudanças na legislação podem afetar diretamente a distribuição de renda no país.


