“Trump faz jogo para agradar o povo americano”, aponta Lula em entrevista à TV 247
“Eu disse para o Trump: ‘temos que escolher se queremos ser temidos ou amados’”, relata o presidente
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump adota uma estratégia voltada a agradar o público interno, com discursos que projetam poder e superioridade, ao mesmo tempo em que defendeu uma liderança baseada no respeito e no diálogo internacional.
A declaração foi feita em entrevista à TV 247, em parceria com a Revista Fórum e o DCM, nesta terça-feira (14), quando Lula também relatou conversas com Trump e criticou o uso de ameaças na política externa.
Segundo o presidente, a postura do líder norte-americano busca reforçar a imagem de potência global. “Trump faz um jogo na tentativa de agradar o povo americano para tentar passar a ideia de um país potência, preponderante, onipotente, aquele povo superior”, afirmou.
Lula destacou que reconhece o papel dos Estados Unidos no cenário mundial, mas rejeitou a associação desse protagonismo a posturas autoritárias. “Obviamente que somos admiradores dos Estados Unidos, um país que cresceu, se desenvolveu, a maior economia do mundo, o maior país bélico do mundo, a maior tecnologia, a capacidade de trabalho do povo americano. Tudo isso a gente admira. Mas isso não é pelo autoritarismo do presidente”, disse.
O presidente relatou ainda uma conversa direta com Trump, na qual defendeu outro modelo de liderança. “Eu disse para o Trump: ‘a gente tem que escolher se a gente quer ser temido ou amado’. Esse é o papel do líder”, afirmou.
Na avaliação de Lula, o exercício da liderança baseado no medo compromete a legitimidade. “As pessoas podem me considerar uma liderança porque gostam de mim, e as pessoas podem achar que sou líder porque têm medo. E quem tem medo não vê liderança, vê um algoz”, declarou.
Ele também criticou ameaças no cenário internacional e conflitos recentes. “Essas ameaças do Trump não fazem bem para democracia, essa guerra com o Irã é inconsequente”, afirmou.
Lula mencionou ainda impactos econômicos nos Estados Unidos, como o aumento do preço dos combustíveis, e comparou com o cenário brasileiro. “Agora a gasolina nos Estados Unidos está 35% mais cara. O Brasil é um dos países em que o combustível está mais baixo no mundo nesse momento”, disse.
O presidente também comentou a posição do Papa Leão XIV e reforçou a defesa do diálogo. “Ninguém precisa ter medo de ninguém. Eu disse para o Trump: ‘ô Trump, não precisa ficar falando para mim que você tem o maior navio do mundo; não quero guerra com você; minha guerra é no argumento’”, afirmou.
Ao tratar do sistema político, Lula ressaltou a importância da democracia e de suas instituições. “Fora da democracia, qualquer coisa é pior. A democracia é um regime difícil porque você tem que conviver com imprensa, sindicato, com oposição, Congresso… Mas essa é a riqueza da democracia”, declarou.
Ele destacou que o regime democrático exige convivência com divergências e participação ativa da sociedade. “Quando você fala de democracia, você não está falando de um pacto de silêncio. Você está falando de uma sociedade em ebulição”, disse.
Por fim, o presidente defendeu uma visão ampliada de cidadania. “Democracia não é apenas votar. As pessoas querem votar, controlar o pensamento dos seus eleitos, querem o direito de trabalhar, comer, estudar, ter acesso à cultura, lazer, construir suas famílias. As pessoas têm que ter direito de serem cidadãs”, concluiu.


