HOME > Brasil

Trump gera insatisfação de todo lado e cria clima muito tenso nos EUA, avalia Reginaldo Nasser

Professor afirmou no Giro das Onze que atentado ocorre em meio a frustrações, crise no Oriente Médio e rachaduras na extrema direita

Donald Trump (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

247 - O professor Reginaldo Nasser afirmou nesta segunda-feira (27) que Donald Trump vive um ambiente político de forte desgaste nos Estados Unidos, marcado por frustração entre aliados, dissensos no campo militar e rachaduras dentro da própria extrema direita. Para ele, o novo episódio tratado como atentado contra Trump deve ser analisado dentro de um cenário mais amplo de tensão social e política.

A avaliação foi feita em entrevista ao Giro das Onze, do Brasil 247, no YouTube. Ao comentar o caso, Nasser disse que a tentativa de explicar episódios dessa natureza apenas pela motivação individual do autor é limitada, porque atos de violência política costumam refletir também o ambiente em que são produzidos.

“Trump gera isso, gera insatisfação, frustração de todo lado e cria um clima muito tenso”, afirmou o professor. “Vai aparecer mais, não vai ficar nisso, porque essa gestão do Trump está muito pior que a outra.”

Nasser disse que, em situações de atentado, há uma tendência inicial de procurar uma motivação racional ou direta. Segundo ele, porém, esse caminho pode ser insuficiente. “A questão não é motivação, porque você não vai conseguir racionalmente aprender isso”, declarou.

O professor afirmou que o autor de um ato desse tipo pode expressar frustrações acumuladas em um ambiente político inflamado. “Ele não sabe dirigir a frustração, ele não sabe canalizar a raiva”, disse. Para Nasser, é provável que se trate de alguém que esperava algo de Trump e se sentiu decepcionado.

Rachadura na extrema direita

Nasser relacionou o episódio à insatisfação crescente de setores da extrema direita norte-americana com a condução do governo Trump, especialmente em temas de política externa e Oriente Médio. Ele citou o caso de Tucker Carlson, figura influente da direita nos Estados Unidos, que passou a fazer críticas ao presidente por suas posições na região.

Segundo o professor, essa insatisfação não significa uma mudança ideológica desses setores, mas uma frustração com promessas que não teriam sido cumpridas. “Não é de alguém que mudou, que continua de direita, de extrema direita. Está frustrado com o Trump”, afirmou.

Nasser disse que esse movimento tem alcance relevante, inclusive entre jovens. “O Trump não cumpriu as promessas, estão arrependidos. Então isso está crescendo muito entre jovens”, avaliou.

Para o professor, há uma ruptura em curso no campo conservador norte-americano. “Está tendo uma ruptura, uma cisão muito forte na extrema direita”, afirmou.

Atentado e segurança

Ao comentar as circunstâncias do atentado, Nasser também questionou a ideia de ação completamente isolada. Segundo ele, mesmo quando o executor atua sozinho, é preciso observar as condições que permitiram o ataque.

“Ele é solitário na ação, mas não significa que a preparação foi solitária e que a facilitação foi solitária”, disse. “Isso não existe.”

O professor afirmou que esquemas de segurança envolvem muitas pessoas e podem ser fragilizados por falhas pontuais. Para ele, a entrada do autor em um ambiente protegido levanta dúvidas sobre possíveis brechas. “É estranho esse cara entrar dessa forma tudo sozinho”, afirmou.

Nasser também avaliou que a cobertura midiática de episódios envolvendo violência política nos Estados Unidos tende a capturar a atenção pública e deslocar outros temas. Segundo ele, a imprensa internacional deve concentrar esforços em detalhes pessoais do autor, enquanto assuntos como negociações diplomáticas e crise externa perdem espaço.

“Os Estados Unidos são muito isso. A mídia vai agora investigar o pai dele, a mãe, as ideias, o irmão que denunciou. Vai longe”, afirmou.

Crise militar e política externa

Durante a entrevista, Nasser afirmou que o governo Trump enfrenta divisões também no campo militar. Ele citou demissões de alta chefia nas Forças Armadas norte-americanas e disse que mudanças desse tipo durante um conflito indicam dissenso interno.

“Isso é raro que aconteça nos Estados Unidos, essas demissões de alta chefia durante um conflito”, afirmou. “Isso denota que tem dissenso.”

O professor ponderou que Trump não atua sozinho e ainda conta com apoio em parte das Forças Armadas e de setores políticos. Mas, segundo ele, o presidente norte-americano adotou uma postura de aposta em relação ao Irã e agora enfrenta dificuldades para administrar as consequências.

“Ele apostou na coisa do Irã, fez uma aposta. Deu ruim, ele está tentando consertar, não está sabendo sair”, afirmou.

Nasser disse que a escalada envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos também deve ser analisada a partir dos interesses econômicos que sustentam o complexo militar. Para ele, há setores que lucram com a continuidade da guerra.

“Alguém está ganhando 2 bilhões de dólares por dia. Quem ganha 2 bilhões de dólares por dia quer que acabe a guerra? Claro que não”, disse.

Irã não confia nos Estados Unidos

Ao tratar das negociações frustradas com o Irã, Nasser afirmou que Teerã não vê condições para confiar em Washington. Segundo ele, a experiência recente de ataques durante períodos de negociação comprometeu a credibilidade dos Estados Unidos.

“O Irã estava negociando com os Estados Unidos o ano passado e, durante a negociação, ele foi atacado por Israel”, afirmou. “Então como é que ele vai acreditar nos Estados Unidos?”

Para o professor, o impasse envolve dois eixos principais: a área militar, com o debate sobre enriquecimento de urânio e mísseis balísticos, e a dimensão econômica, especialmente relacionada ao controle de rotas e recursos estratégicos. Ele avaliou que não há perspectiva de uma solução rápida.

“Não tem, pelo menos no horizonte agora, nenhuma perspectiva de negociação, porque o Trump também do lado dele não quer sair perdendo nessa”, disse.

Nasser afirmou ainda que a destruição da infraestrutura civil iraniana tem produzido danos profundos ao país. Segundo ele, a estratégia de ataques contra pontes, indústrias e estruturas públicas busca desgastar a vida social e econômica do Irã.

“Como eles não estavam destruindo a capacidade militar do Irã como previam, o que fizeram? Atacar a infraestrutura civil”, afirmou. “Isso acaba com o país.”

Guerra, drones e corrida armamentista

O professor também analisou o papel dos drones nas guerras contemporâneas. Segundo ele, esse tipo de tecnologia alterou a dinâmica dos conflitos, ao permitir que equipamentos de baixo custo causem danos relevantes a sistemas militares muito mais caros.

“Com um drone de mil dólares você causa um inferno para quem tem mísseis de 10 milhões”, afirmou.

Nasser disse que a guerra assimétrica já havia sido observada na Ucrânia, com o uso de drones iranianos pela Rússia. Para ele, o avanço dessas tecnologias tende a ampliar a corrida armamentista no Oriente Médio, especialmente entre as monarquias do Golfo.

“Emirados, Arábia Saudita, Qatar, que têm muito dinheiro, vão fazer o quê? Comprar mais arma”, disse. “Vai ser corrida armamentista.”

Livro discute a volta de Trump

No programa, também foi apresentado o livro A volta de Trump, choque político e relações internacionais, organizado por Sebastião Velasco e Cruz e Neusa Bógus. O lançamento foi anunciado para quarta-feira (29), às 18h, na PUC.

Nasser explicou que a obra foi produzida por pesquisadores do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos, que reúne especialistas de diferentes universidades e estados brasileiros. Segundo ele, o livro tem caráter analítico e prospectivo, sem pretensão de fazer previsões fechadas.

“Ninguém vai fazer previsão”, afirmou. “O analista de relação internacional não é para fazer previsão.”

O artigo de Nasser no livro trata dos Acordos de Abraão, do Golfo Pérsico, da Arábia Saudita e do entorno regional que inclui o Irã. O professor afirmou que a obra busca compreender Trump para além da retórica e da cobertura superficial.

“Ele fala muito sobre muita coisa. Algumas coisas que ele fala se articulam em ações, outras não”, disse. “Não dá para dizer que tudo é retórica e nada é retórica.”

Trump e a política brasileira

Na parte final da participação, Nasser avaliou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve relacionar a atuação internacional de Trump às posições de seus aliados no Brasil. Para o professor, a extrema direita brasileira se vincula a interesses dos Estados Unidos de forma distinta da direita norte-americana.

“O Lula, com razão, vai conectar o que o Trump tem feito no mundo com aquilo que os seus aliados estão pleiteando aqui no Brasil”, afirmou.

Segundo Nasser, uma vitória da extrema direita no Brasil, em sintonia com a política externa de Trump, seria prejudicial ao país. “Realmente será uma tragédia a extrema direita ganhar aqui e se conectar com esse tipo de ação que o Trump tem feito no mundo inteiro”, disse.

O professor afirmou que, enquanto setores da extrema direita norte-americana dizem defender o interesse nacional dos Estados Unidos, seus aliados brasileiros reproduzem essa agenda sem defender os interesses do Brasil.

“Lá eles estão defendendo os Estados Unidos e aqui eles não defendem o Brasil, defendem os Estados Unidos”, afirmou. “Então, o Lula, acredito, vai pontuar isso.”

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

Artigos Relacionados