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Vítima brasileira de Epstein cobra justiça e fala sobre criar a filha

Marina Lacerda relata abusos na adolescência, critica sigilo de documentos nos EUA e diz que experiência molda a educação da filha

Vítima brasileira de Epstein cobra justiça e fala sobre criar a filha (Foto: Jonathan Ernst/REUTERS)

247 - Aos 14 anos, Marina Lacerda chegou à mansão de Jeffrey Epstein, em Manhattan, no estado de Nova York, após ser informada por uma amiga de que poderia ganhar dinheiro fazendo massagens para o então financista. Décadas depois, ela afirma que aquele foi o início de um ciclo de exploração que marcaria sua vida e que, até hoje, aguarda desdobramentos na Justiça norte-americana.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Marina relembrou que, quando esteve na residência de Epstein, já havia sofrido abusos do padrasto e enfrentava dificuldades financeiras com a mãe e a irmã. Segundo seu relato, a abordagem inicial foi cordial, mas rapidamente evoluiu para uma situação de vulnerabilidade. Ela afirma que os abusos se estenderam até que completou 17 anos.

Na casa, contou ter visto fotografias de autoridades nas paredes. À época, diz que não reconhecia muitos dos nomes, mas recorda imagens de Epstein ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do ex-presidente Bill Clinton.

Hoje, aos 37 anos e mãe de uma menina de 12, Marina atua na defesa de outras vítimas e cobra a responsabilização de cúmplices. Durante a entrevista, vestia uma camiseta com a frase: “A verdade é que… as vítimas de Epstein ainda estão no aguardo”, com parte do texto encoberta por borrões, em referência a documentos mantidos sob sigilo pelo Departamento de Justiça dos EUA.

A experiência de violência moldou sua forma de educar a filha. Ela afirma que mantém vigilância constante, conversa abertamente sobre limites e monitora situações que possam expor a adolescente a riscos. “Sou dura com a minha filha mesmo, sou chata. Não é que eu penso que vai acontecer com ela [o que aconteceu comigo]. Ela tem uma vida de adolescente normal. Não vou colocar minha filha no lugar que fui colocada. O mundo é muito perigoso”, declarou.

Morando há cerca de três décadas nos Estados Unidos, Marina também critica famílias que não questionam a origem de recursos enviados por filhos adolescentes que vivem sozinhos. “Os pais não questionam. Sabe por quê? Porque já sabem”, afirmou, ao comentar casos de jovens que acabam vulneráveis à exploração.

Sobre sua própria trajetória, destacou que já estava exposta a situações inadequadas antes de conhecer Epstein. “Já tinha sido apresentada ao sexo, ao mundo de começar a fazer dinheiro, uma responsabilidade que foi minha, sem eu querer”, disse.

Ela sustenta que milhares de documentos relacionados aos crimes atribuídos a Epstein ainda não vieram a público. “Temos que nos concentrar nos 3 milhões que já temos agora. Entre eles, há perpetradores que ainda não foram responsabilizados, que não foram levados à Justiça”, afirmou.

Marina ressalta que alguns nomes influentes aparecem repetidamente nos arquivos, incluindo o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para ela, a demora na responsabilização aprofunda a sensação de impunidade. “Esperamos 20 anos por justiça, enquanto sobreviventes com 56 anos aguardam respostas de crimes cometidos quando tinham 18. São três décadas de impunidade”, declarou. “Vamos esperar quanto tempo mais? Mais 20 anos, como esperaram as sobreviventes?”

Ela mencionou ainda que a secretária de Justiça, Pam Bondi, afirmou em audiência nesta semana que as investigações já começaram, mas sem detalhar alvos ou prazos. “Precisamos saber disso. Outros países estão responsabilizando monarquias, e nós não estamos fazendo nada nos Estados Unidos”, criticou.

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