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Vorcaro articulou campanha de influenciadores contra o BC, diz dono de agência

Publicitário disse à PF que banqueiro articulou pessoalmente uma ofensiva digital pró-Banco Master e contra o Banco Central

Foto mostra o banqueiro Daniel Vorcaro na prisão (Foto: Reprodução )
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247 - O publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi e sócio do portal Leo Dias, afirmou à Polícia Federal (PF) que o banqueiro Daniel Vorcaro articulou pessoalmente uma estratégia de comunicação com influenciadores digitais para atuar em defesa do Banco Master e contra a liquidação determinada pelo Banco Central (BC). 

O depoimento, segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, de O Globo,  foi prestado nesta terça-feira (12), em Brasília, no inquérito que investiga uma campanha coordenada nas redes sociais contra o Banco Central e favorável ao Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo Miranda, a estratégia foi acertada diretamente com Vorcaro em uma reunião realizada na casa do banqueiro, em São Paulo, após sua soltura, no fim de 2025.

Projeto DV mirava críticas ao Banco Central

O esquema, chamado internamente de “Projeto DV”, havia sido revelado em janeiro deste ano. Na ocasião, influenciadores relataram terem recebido propostas para divulgar conteúdos favoráveis ao Banco Master e críticos à atuação do Banco Central.

A campanha tinha como base uma reportagem publicada pelo portal Metrópoles com o título “TCU vê indícios de precipitação em liquidação do Master e dá 72 horas para BC se explicar”. A estratégia buscava ampliar nas redes sociais a posição do ministro do TCU Jhonatan de Jesus, que questionava a liquidação do banco.

Embora alguns influenciadores tenham recusado participar da ação, outros aceitaram divulgar conteúdos alinhados à estratégia da agência. Perfis passaram a publicar críticas ao Banco Central e ao diretor de supervisão da instituição, Renato Gomes, apontado como um dos responsáveis pela liquidação do Banco Master.

O influenciador Marcelo Rennó, que possui cerca de 1,2 milhão de seguidores no Instagram, afirmou em uma publicação que o Banco Master sofreu uma “liquidação a jato”, classificando a medida como “muito suspeita” e “muito estranha”.

Já Paulo Cardoso, que acumula mais de 4 milhões de seguidores na plataforma, declarou que “quando um órgão como o TCU entra no caso, é porque tem muita coisa errada”

Agência propôs “marketing de guerrilha”

Em entrevista à Malu Gaspar, Thiago Miranda afirmou que conheceu Daniel Vorcaro em julho de 2024, durante negociações envolvendo participação societária no portal Leo Dias.

Segundo ele, após a primeira prisão do banqueiro, ofereceu ajuda para enfrentar uma “crise de reputação”. A proposta previa ações de “marketing de guerrilha” e um custo mensal de R$ 3,5 milhões. Miranda afirmou que a ofensiva digital contra o Banco Central fazia parte desse plano mais amplo.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que os temas previstos para as campanhas incluíam tópicos como “Os Erros do BC”, “Renato Dias e o histórico do BC”, “Febraban contra um Banco?” e conteúdos relacionados ao banqueiro André Esteves, controlador do BTG Pactual.

Contratos e grupos no WhatsApp

Segundo Miranda, os influenciadores contratados recebiam conteúdos e orientações por meio de grupos de WhatsApp organizados pela agência Mithi. “A gente só dava as matérias para eles comentarem, com briefing”, afirmou o publicitário.

Ele também declarou que todas as ações foram formalizadas por contratos e emissão de notas fiscais. “Todos os influenciadores tinham contratos, todo o trabalho que a gente fez, tinha os contratos. Então, se fosse uma coisa ilegal, que eu tivesse fazendo ilegalmente ou pra bater no Banco Central, enfim, eu teria feito de outra forma”, disse.

De acordo com o empresário, os criadores de conteúdo comentavam apenas reportagens publicadas por veículos de imprensa. “Esse era a regra do negócio: repercutir o que tinha saído em algum veículo”, afirmou.

Os contratos apresentados incluem acordos com perfis como Fofoquei, Alfinetada, Tricotei, Queironica e Easy Fatos, além dos sites GPS e Not Journal e do jornalista Luiz Bacci. Os pagamentos previstos variavam entre R$ 30 mil e R$ 1,5 milhão mensais, conforme o alcance dos perfis contratados.

PF aponta atuação coordenada

Daniel Vorcaro voltou a ser preso em março deste ano por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A investigação aponta que o banqueiro teria obtido informações sigilosas relacionadas à invasão de sistemas da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O caso também envolve suspeitas de ameaças a jornalistas. Na decisão, André Mendonça mencionou a atuação do “Projeto DV”, destacando que o objetivo da campanha era “atacar a reputação do Banco Central do Brasil”.

Para a Polícia Federal, o grupo atuava de forma coordenada para influenciar a opinião pública contra agentes públicos envolvidos nas investigações sobre o Banco Master. A defesa de Daniel Vorcaro informou que ele não irá se manifestar sobre as acusações.

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