HOME > Brasil

Vorcaro tenta acelerar delação em troca de prisão domiciliar

Defesa do dono do Master tenta acelerar acordo de colaboração para obter habeas corpus, mas enfrenta resistência do STF e alto volume de provas exigidas

Foto mostra o banqueiro Daniel Vorcaro na prisão (Foto: Reprodução )

247 - A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, intensificou as negociações para firmar um acordo de delação premiada com o objetivo de obter liberdade provisória o mais rápido possível. Preso preventivamente desde março, Vorcaro pressiona seus advogados para deixar a cadeia e aguardar o julgamento em regime domiciliar, em meio a uma investigação que ganhou dimensão nacional e envolve suspeitas graves no sistema financeiro e em outras esferas, relata o Metrópoles.

Os advogados alertaram o empresário de que as chances de perdão total na Justiça são praticamente inexistentes, mesmo com eventual confissão e colaboração. A negociação é considerada complexa devido ao grande volume de provas já reunidas contra o banqueiro e à exigência de que ele apresente informações detalhadas sobre todos os envolvidos no esquema investigado.

O caso envolve o Banco Master, instituição que cresceu rapidamente no mercado financeiro ao oferecer produtos com rentabilidade acima da média, como CDBs que atraíram milhares de investidores e permitiram a captação de cerca de R$ 50 bilhões. Parte significativa desses recursos, porém, foi direcionada para ativos de baixa liquidez, como precatórios e empresas em dificuldades, elevando o risco das operações.

Investigações da Polícia Federal identificaram indícios de práticas irregulares, incluindo emissão de títulos sem lastro, operações simuladas e ocultação de recursos por meio de empresas intermediárias. As suspeitas apontam para uma estrutura organizada de fraude dentro do banco. Diante da deterioração financeira e de violações às normas do sistema, o Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025.

No mesmo período, Vorcaro foi preso ao tentar embarcar para Dubai em um jato particular no Aeroporto de Guarulhos. Após ser solto com uso de tornozeleira eletrônica, voltou a ser detido em março deste ano durante nova fase da investigação, ligada à Operação Compliance Zero, que apura a venda de carteiras de crédito fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB).

As apurações avançaram para além do setor financeiro, incluindo suspeitas de corrupção de autoridades, lavagem de dinheiro, invasão de sistemas e até planos de intimidação contra jornalistas. Também surgiram indícios de conexões do banqueiro com integrantes do Banco Central, do Congresso e do Judiciário, ampliando o alcance do caso para uma crise institucional.

A estratégia de colaboração ganhou força após a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal formar maioria para manter a prisão preventiva. Vorcaro substituiu sua defesa, demitindo o advogado Pierpaolo Bottini — que era contrário à delação — e contratando o criminalista José Luís Oliveira Lima, especialista em acordos de colaboração.

Em 19 de março, o banqueiro foi transferido de helicóptero para a carceragem da Polícia Federal em Brasília, condição que ele mesmo teria estabelecido para avançar nas negociações. Ele assinou um termo de confidencialidade com a Polícia Federal e com a Procuradoria-Geral da República (PGR), sinalizando disposição para colaborar.

A delação, que será conduzida de forma conjunta pela PF e pela PGR — algo inédito no país — enfrenta resistência política e institucional. Investigadores rejeitaram qualquer possibilidade de acordo seletivo, deixando claro que não haverá proteção a envolvidos. A expectativa aumentou após o vazamento de mensagens que indicariam proximidade entre Vorcaro e autoridades.

Atualmente, a Polícia Federal realiza a análise de dados extraídos de oito celulares do banqueiro para dimensionar o alcance dos crimes e identificar possíveis envolvidos. O volume de provas e a complexidade do caso são apontados como fatores centrais na condução rigorosa do acordo.

Para que a delação seja aceita, a legislação exige a apresentação de provas concretas, como documentos, registros e gravações que sustentem as declarações do colaborador. Caso contrário, o acordo pode ser rescindido ou ter seus benefícios reduzidos.

O advogado criminalista Alexandre Lourenço explicou os riscos de uma colaboração ineficaz: “Em regra, isso não significa aumento automático da pena como punição adicional, visto que não existe essa previsão legal. O que tende a ocorrer é a perda total ou parcial dos benefícios prometidos no acordo, justamente porque a colaboração deixa de ser considerada integralmente eficaz”.

Sobre a possibilidade de liberdade, ele ressalta que não há garantia automática: “É perfeitamente possível que o colaborador responda em liberdade e até conclua toda a colaboração fora da prisão, mas isso não decorre de um efeito automático da delação. Depende da avaliação do juiz sobre a necessidade, ou não, da prisão preventiva e das demais medidas cautelares”.

A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre o andamento das negociações até o momento.

Artigos Relacionados