29ª Mostra de Tiradentes exibe Anistia 79, documentário de Anita Leandro que interpela a memória e convoca a história
Documentário utiliza imagens inéditas do exílio brasileiro para confrontar memória, história e a luta pela Anistia
Por Andrea Trus (247) - Exibido na Mostra Olhos Livres da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Anistia 79 articula imagens inéditas do exílio brasileiro com depoimentos realizados nos dias atuais, transformando o arquivo em um instrumento de confronto entre memória e história. Filmado em Roma, em junho de 1979, durante a Conferência Internacional pela Anistia e Liberdade Democrática no Brasil, o documentário devolve essas imagens a quem esteve diante da câmera quase meio século atrás e observa o que elas ainda são capazes de provocar.
Registradas por Hamilton dos Santos, militante brasileiro no exílio, durante um encontro histórico da esquerda brasileira, em um momento central de articulação fora do país, as imagens permaneceram por décadas guardadas em um arquivo. O material reúne lideranças comunistas de diferentes tendências, então unidas pela luta comum pela Anistia, em um período decisivo do processo de redemocratização brasileira. Entre os nomes presentes estão Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra, Luiz Travassos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Carmela Pezutti, Denise Crispim e sua filha Eduarda, além de outros militantes que atuavam contra a ditadura militar a partir do exílio.
O arquivo surge quando Anita Leandro procurava documentos para investigar a trajetória de Ângelo Pezutti e teve o acesso a arquivos oficiais negado. Ao se deparar com um arquivo acessível, ela encontra essas filmagens históricas, quase todas sem áudio, que passam a ser o próprio filme, evidenciando parte da história que se construiu pela imagem e pela memória dos entrevistados. Das imagens encontradas, o filme se constrói como um encontro em torno da Anistia, em diálogo com a memória dos envolvidos. A obra recorre a registros visuais e fragmentos de história para refletir sobre memória, política e afetos, mostrando como experiências individuais se entrelaçam com processos coletivos de reconciliação e lembrança, entre passado e presente. Assim, o filme transforma arquivos em narrativa sensível, evocando o passado para provocar, emocionar e inspirar novas formas de contar a história.
Imagens repletas de história e de unidade pela luta coletiva para a consolidação da Anistia. Por exemplo, ver Apolônio de Carvalho e Carmela Pezutti juntos em torno dessa luta traz à tona o próprio conceito da Anistia e como, atualmente, tem sido usada de forma completamente equivocada. A luta continua.
Ao colocar o arquivo no centro da narrativa, Anistia 79 assume uma dimensão metalinguística. As imagens não apenas registram o passado, mas produzem discurso, tensionam versões consolidadas da história e reativam o debate sobre a Anistia e a impunidade dos torturadores. A presença de depoimentos como o de Denise Crispim, viúva de Eduardo Collen Leite, o Bacuri, reforça a dimensão íntima da memória e mostra como experiências individuais se entrelaçam com processos coletivos de reconciliação e lembrança.
O documentário é dirigido por Anita Leandro, que também assina o roteiro com Alice de Andrade, montagem com Isabel de Castro e produção de Maria Flor Brazil e Alice de Andrade. A fotografia é de Bené Machado e o som de Glaydson Mendes. Produzido pela Montanha Russa Cinematográfica, em coprodução com a Banda Filmes, e distribuído pela Embaúba Filmes, o filme reforça a trajetória de Anita Leandro como documentarista e pesquisadora de arquivos da repressão, reconhecida por trabalhos como Retratos de identificação (2014), premiado em diversos festivais nacionais e internacionais.


