Festival de Berlim tenta conter crise após declarações de Wim Wenders sobre posicionamento político de cineastas
Direção reage após repercussão negativa da fala e reafirma direito à liberdade de expressão dos artistas
247 - A direção do festival Berlinale tentou neste domingo (15) encerrar a controvérsia envolvendo declarações sobre o papel político de cineastas durante o evento. A reação ocorreu após falas do presidente do júri, o diretor alemão Wim Wenders, que defendeu que o festival deveria "ficar fora da política", contrariando a tradição histórica de engajamento político do evento. As informações são da RFI.
Em comunicado enviado à imprensa na noite de sábado (14), a diretora do festival, Tricia Tuttle, afirmou que artistas "são livres de exercer seu direito à liberdade de expressão". Ela também declarou que não se deve esperar que eles se posicionem sobre todos os temas políticos. A polêmica marcou os primeiros dias do festival. Segundo Wenders, os cineastas devem "fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos".
Ausência de posicionamento gera debate
A declaração ocorreu após questionamento sobre a ausência de posicionamento do festival sobre o genocídio de Israel em Gaza, diferentemente do que ocorreu na edição de 2024. Ainda no comunicado, Tuttle afirmou que não acredita que haja cineastas no festival que sejam indiferentes ao sofrimento humano em diferentes regiões do mundo, citando conflitos e crises humanitárias.
A diretora também afirmou que os cineastas se manifestam por meio de suas obras e debates sobre seus trabalhos. Segundo ela, o ambiente midiático atual, marcado por crises constantes, reduz o espaço para discussões focadas exclusivamente em cinema e cultura. A repercussão das declarações de Wenders levou a escritora indiana Arundhati Roy a recuar da participação prevista no evento. Ela apresentaria uma versão restaurada do filme para o qual escreveu o roteiro em 1989.
Tradição de engajamento político desde 1951
A Berlinale é reconhecida historicamente pelo engajamento político desde sua criação, em 1951, na antiga Berlim Ocidental. Já na primeira edição, o evento exibiu o filme "Rebecca", do diretor Alfred Hitchcock, obra que tinha sido proibida pelo regime nazista.
Ao longo das décadas, o festival incorporou debates sobre temas sociais e geopolíticos, incluindo crise de refugiados e pautas ligadas ao movimento #MeToo. Entre iniciativas associadas ao evento estão premiações ligadas a direitos humanos, como as concedidas pela Anistia Internacional.
Na edição de 2026, discussões políticas também apareceram em coletivas de imprensa. Durante a apresentação do filme "Rosebush Pruning", do diretor brasileiro Karim Aïnouz, jornalistas questionaram temas ligados à política dos Estados Unidos e ao contexto migratório ligado ao governo de Donald Trump. Em sua fala, Ainouz também defendeu o financiamento público ao cinema do Brasil.


