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Premiado espetáculo “Os Irmãos Karamazov” retorna ao Rio em curta temporada no Teatro Carlos Gomes

Espetáculo dirigido por Caio Blat e Marina Vianna apresenta uma leitura contemporânea e acessível do romance de Dostoiévski

Premiado espetáculo “Os Irmãos Karamazov” retorna ao Rio em curta temporada no Teatro Carlos Gomes (Foto: Flora Negri)

247 - Clássico revisitado da literatura mundial, Os Irmãos Karamazov retorna aos palcos do Rio de Janeiro em curta temporada no Teatro Carlos Gomes, entre os dias 8 e 18 de janeiro. Fruto de uma construção coletiva, o espetáculo reúne Marina Vianna na direção, ao lado de Caio Blat, Luisa Arraes na produção artística e Maria Duarte como diretora de produção e coidealizadora. A montagem propõe uma leitura contemporânea e acessível do romance de Fiódor Dostoiévski, apontado por Sigmund Freud, criador da psicanálise, como uma obra-prima da humanidade, preservando a força do texto original sem abrir mão de sua complexidade filosófica, moral e humana.

O elenco que dá vida e corpo aos personagens de Dostoiévski é formado por 13 artistas com trajetórias e características diversas, que se alternam na narrativa ora em coro, ora individualmente, explorando múltiplas funções e presenças cênicas. Integram o grupo Nina Tomsic, Pedro Henrique Muller, Catharina Caiado, Sol Miranda, Priscilla Rozenbaum, Lucas Oranmian, Arthur Braganti, Thiago Rebello, Juliete Viana, Maria Luiza Aquino, Sheila Martins, Sofia Badim e Caio Blat.

A encenação concentra-se nos três dias que antecedem e sucedem o crime central da trama, conferindo intensidade, urgência e proximidade à experiência do público, ao mesmo tempo em que estabelece diálogos diretos com temas que atravessam a sociedade brasileira. Embora hoje seja considerado um autor erudito, Dostoiévski foi, em seu tempo, um escritor popular: Os Irmãos Karamazov foi publicado originalmente em formato de folhetim, como uma novela em capítulos veiculada em jornal.

Ambientado na Rússia pré-revolucionária, a história acompanha as disputas entre os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha e seu pai, Fiódor Karamázov, em torno da herança da família e do amor pela mesma mulher. Em um caldeirão explosivo de ressentimentos, desejos e violências, cada um dos filhos contribui, por ação ou omissão, para um desfecho trágico: o assassinato do pai tirano. A partir desse crime, o espetáculo mergulha em questões universais como culpa, justiça, fé, autoritarismo e responsabilidade moral. 

Em entrevista cedida ao 247, Caio Blat comenta o processo de criação do espetáculo, resultado de mais de uma década de estudo da obra de Dostoiévski. O diretor e ator aborda as escolhas de adaptação, a construção coletiva da dramaturgia, a centralidade da música e da polifonia cênica, além do diálogo da obra com o Brasil contemporâneo, da incorporação da Libras como linguagem artística do espetáculo e das transformações provocadas pela circulação nacional da montagem.

Os Irmãos Karamázov é fruto de longos anos de estudo sobre o romance. Como esse longo período de pesquisa influenciou as escolhas finais da montagem?

Caio Blat: Foram mais de dez anos de estudo, o que foi um privilégio. Esse tempo permitiu amadurecer a ideia de assistir a diversas adaptações de Dostoiévski para o cinema, a televisão e o teatro, observando escolhas muito distintas, inclusive montagens longuíssimas, extremamente fiéis ao romance.Com o passar dos anos, ficou claro que não queríamos fazer uma adaptação tão respeitosa. A vontade era criar uma versão moderna, que transgredisse o texto. Vi peças de oito horas e tinha certeza de que não era isso que eu queria. Queria uma montagem que desse conta da potência, da violência e da explosão do texto, mas de forma condensada, quase popular.Não me interessava uma longa jornada noite adentro, mas uma primeira impressão forte, moderna, capaz de dialogar com o público de hoje. Esse amadurecimento, somado ao contato com versões como Crime e Castigo da BBC, foi apontando caminhos de como modernizar o texto e, de certa forma, desrespeitá-lo criativamente.

Em que momento o projeto deixou de ser apenas estudo e passou a se tornar espetáculo?

Caio Blat: Quando reunimos a trupe na sala de ensaio e começamos a ouvir as diversas vozes. Um ponto decisivo foi quando a Luisa Arraes convidou o Arthur Braganti e decidimos que a trilha seria tocada ao vivo, com a cena girando em torno de um piano.

Esse piano passou a representar a mesa de jantar da família Karamázov, o lugar do encontro e do conflito. A partir daí, a peça deixou de ser apenas texto e virou um jogo musical, com o piano no centro e os personagens se sobrepondo.

Surgiu então a ideia de que, assim como na música um tema invade o outro, as cenas e os personagens também se atravessassem. Foi nesse momento que a obra virou espetáculo.

O que mudou na sua leitura de Dostoiévski ao longo desses anos de investigação?

Caio Blat: A pergunta constante foi qual o sentido de fazer Dostoiévski hoje, em 2025, num Brasil em transformação. Não quisemos respeitar o cenário do século XIX, mas investigar como as questões lançadas ali ressoam no presente. Isso aparece, por exemplo, nas questões de gênero. Por que as mulheres são sempre submissas? A Luísa propôs misturar os gêneros dos personagens, com mulheres fazendo papéis masculinos e vice-versa, para questionar o patriarcado e ampliar a autonomia feminina na montagem.

Também nos interessava pensar que Brasil é esse de hoje e como essa Rússia pré-revolucionária dialoga com um país politicamente rachado, com grupos conservadores defendendo a violência. A obra fala de um momento em que a religião começa a perder centralidade política, enquanto surgem forças revolucionárias que questionam a família, a aristocracia e a fé.

A parábola do Grande Inquisidor atravessou todo o processo. Quem são hoje os mercadores da religião? Quem pede dinheiro em nome de Jesus? Alguém ainda segue suas palavras como Aliócha buscava? Essas perguntas orientaram toda a nossa leitura.

A dramaturgia concentra a narrativa em torno de três dias decisivos da história. Como essa estrutura foi construída durante o processo de criação?

Caio Blat: Embora a história original se passe em três dias, na nossa adaptação essa noção literal de tempo se dissolve. O que construímos foi a descida do Aliócha ao inferno.

Em três dias, o mundo dele desaba. O starets, figura religiosa que ele pretendia seguir, morre e, em vez de milagres, seu corpo apodrece. Isso rompe com a fé cega e expõe a maldade humana. Tentando interceder no conflito entre o pai e os irmãos, Aliócha entra em contato com a cobiça, a ganância e a violência. Ele é o herói puro que tenta salvar a família, mas acaba sendo usado por todos. Criamos uma trajetória em que ele não sai de cena, sendo jogado de um lado para o outro, enquanto tudo explode à sua frente. Assim, desmontamos a cronologia e criamos essa queda vertiginosa nos infernos humanos.

Como foi transformar um romance tão extenso e complexo em uma experiência teatral condensada e intensa?

Caio Blat: O teatro oferece muitas camadas. Figurino, música, gestual e corpo constroem sentidos que o texto literário não dá conta sozinho. Por isso, não é preciso respeitar toda a literatura quando se transforma um romance em performance.Aos poucos, fomos nos libertando do texto e transformando a violência e os sentimentos em imagem e ação. Criamos um espetáculo físico, musical, rápido, com personagens que se sobrepõem. A polifonia foi central. A história é contada por muitas vozes, como um coro, uma trupe que troca de personagens e de funções, construindo uma linguagem quase operística, simbólica e corporal.

Quais foram os principais dilemas ao adaptar um clássico sem esvaziar suas contradições filosóficas e humanas?

Caio Blat: A encenação torna ainda mais visíveis os dilemas filosóficos dos personagens. Dimitri se autodestrói por não controlar seus impulsos. Aliócha sofre ao perceber que a religião não responde às perguntas que ele precisa. Ivan, ao ser atingido pela culpa da morte do pai, enlouquece.O teatro permite mostrar essas contradições com o corpo, com a música e com o movimento. Mesmo sendo uma montagem ágil e contemporânea, as grandes questões filosóficas permanecem intactas.

O espetáculo nasce de um processo coletivo com o elenco. Como os ensaios contribuíram para a dramaturgia final?

Caio Blat: A dramaturgia surgiu dos ensaios. O texto inicial era apenas uma sugestão. Quando os atores começaram a improvisar, dançar e criar imagens coletivas, fomos abrindo mão da palavra escrita.Das improvisações nasceram ações, coreografias e desenhos de cena que redesenharam a dramaturgia. Foi um processo profundamente coletivo, construído a muitas vozes.

De que maneira as diferentes formações, corpos e experiências dos artistas influenciaram a encenação?

Caio Blat: O espetáculo é polifônico e cada vez que um personagem assume a narrativa, o tom muda. O elenco é heterogêneo, com origens, idades e corpos diferentes. É raro ver uma peça com treze atores em que todos são protagonistas em algum momento. Essa diversidade materializa o painel humano proposto por Dostoiévski.

Houve cenas ou soluções cênicas que surgiram diretamente da sala de ensaio?

Caio Blat: Muitas. Diversas cenas foram resolvidas fisicamente, com dança e coreografia. O ataque epilético, por exemplo, tornou-se coletivo, fazendo o teatro inteiro tremer. Surgiram cenas no meio da plateia, saídas pelo público e imagens simbólicas, como Dimitri dançando com o pai antes da violência. O corpo, a voz e a música preencheram camadas que estavam apenas sugeridas no texto.

A montagem trabalha com coro, polifonia e sobreposição de vozes. Como esses elementos foram experimentados?

Caio Blat: A polifonia esteve presente desde o início. Improvisávamos cenas com vários atores fazendo o mesmo personagem, com a música ecoando a fala. Em alguns momentos, a fala se transformava em canto. A Libras entrou como uma terceira linguagem, com atrizes sinalizando em cena junto com a música. Essas camadas foram se sobrepondo até a marcação final.

A música ao vivo atravessa toda a peça. Em que momento ela se integrou à dramaturgia?

Caio Blat: Tudo começou com o canto polifônico ortodoxo em russo. Esse estudo de melodias influenciou as falas e as cenas. Durante os ensaios, o Arthur criou temas para os personagens, que passaram a se confundir com a voz e o desenho cênico. A música se tornou estrutural para sustentar a polifonia.

Como se deu o diálogo entre direção, música, movimento e luz?

Caio Blat: Foi uma criação totalmente coletiva. O figurino conta parte da história, a luz cria climas que nascem nos ensaios e a música surge junto da encenação. Os criadores estavam o tempo inteiro na sala de ensaio. As soluções cênicas surgiram sempre em conjunto, num processo de grande sintonia.

A presença de artistas intérpretes de Libras foi pensada desde o início. Como isso impactou o processo criativo?

Caio Blat: A ideia partiu da Maria Duarte, diretora de produção, como um desafio real de acessibilidade. Desde o início, a proposta foi que os intérpretes fossem artistas em cena. O que parecia um desafio virou um grande recurso estético. A Libras é extremamente expressiva e ganhou força com a presença da Juliete e da Malu, duas atrizes muito talentosas. Isso criou uma nova camada simbólica, influenciou as marcações e ampliou a polifonia. Em algumas cenas, toda a ação acontece dentro da linguagem de Libras. A acessibilidade tornou o espetáculo mais rico, belo e potente.

O espetáculo passou por diferentes cidades. Como ele se transformou ao longo da circulação?

Caio Blat: A vocação popular do espetáculo se completa na estrada. A cada cidade, com palcos e públicos diferentes, tudo muda: luz, som, elenco, energia. Com o tempo, o grupo ganhou a cancha de uma trupe de rua. O piano no centro permite que a peça aconteça em qualquer espaço. Os atores aprenderam a se adaptar, substituir colegas e lidar com imprevistos. Hoje, podemos chegar a qualquer lugar, sentar em torno de um piano e contar essa história.

Ao retornar ao Rio, o espetáculo chega igual ou diferente daquele que estreou?

Caio Blat: Chega muito mais maduro, mais livre e mais quente. É um espetáculo que sabe se adaptar a qualquer palco e a qualquer situação. A experiência da estrada tornou a montagem mais libertária e mais revolucionária.

O que esse processo te ensinou sobre criação, tempo e trabalho em grupo no teatro?

Caio Blat: Esse espetáculo só se tornou realidade quando pessoas com o mesmo desejo se encontraram: Maria Duarte, Luisa Arraes, Marina Vianna e eu. A partir desse núcleo, formamos uma equipe e um elenco para realizar um projeto grande e ambicioso, com treze atores, música ao vivo e um piano no centro da cena. A ideia sempre foi criar uma trupe, um trabalho de coro, coletivo, capaz de dar vida à complexidade humana que Dostoiévski propõe.

O espetáculo será apresentado no Teatro Carlos Gomes, localizado na Praça Tiradentes, s/nº, no Centro do Rio de Janeiro (RJ), entre os dias 8 e 18 de janeiro de 2026, com sessões às quintas e sextas-feiras, às 19h, e aos sábados e domingos, às 17h. A montagem é bilíngue, em português e Libras, tem classificação etária de 16 anos, duração de 120 minutos, e os ingressos estão disponíveis para compra no site https://ingressosriocultura.com.br/riocultura/events/51055?sessionView=LIST.

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