Você realmente sabe quem foi Tiradentes?
Saiba como e por que ele foi transformado em herói nacional a partir da Proclamação da República
247 – A imagem de Tiradentes como mártir da liberdade e herói nacional está profundamente enraizada no imaginário brasileiro. Celebrado todos os anos no dia 21 de abril, ele é frequentemente apresentado como um precursor da independência e símbolo da luta contra a opressão colonial. No entanto, a história por trás dessa construção é mais complexa — e revela muito mais sobre o Brasil da República do que sobre o próprio personagem do século XVIII.
Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, viveu em um período marcado pela exploração econômica da colônia portuguesa, especialmente em Minas Gerais, onde a extração de ouro sustentava boa parte da riqueza do Império. Nesse contexto, a Coroa impunha pesados tributos, como o chamado “quinto”, que correspondia a 20% de todo o ouro extraído. Com a queda na produção, Portugal intensificou a cobrança por meio da derrama, um mecanismo coercitivo que permitia a apreensão de bens da população para completar as metas fiscais.
Foi nesse cenário que surgiu a Inconfidência Mineira, em 1789. O movimento, formado majoritariamente por membros da elite local — militares, proprietários e intelectuais —, buscava romper com o domínio português e estabelecer uma república em Minas Gerais. Embora influenciado por ideias iluministas e pela independência dos Estados Unidos, o projeto tinha limites claros: não havia consenso sobre o fim da escravidão e a mobilização popular era restrita.
O alferes que se tornou herói
Tiradentes não era o mais rico nem o mais influente entre os conspiradores. Alferes de baixa patente, também atuava como dentista, tropeiro e comerciante. Ainda assim, destacou-se por sua postura mais enfática em defesa da independência. Diferentemente de outros envolvidos, que adotavam maior cautela, ele teria se mostrado mais disposto a levar o plano adiante.
A conspiração, no entanto, foi descoberta antes de se concretizar. Em troca do perdão de suas dívidas, o coronel Joaquim Silvério dos Reis denunciou o movimento às autoridades portuguesas. Seguiu-se uma longa investigação, que culminou na prisão dos envolvidos. A maioria conseguiu penas mais brandas, como o exílio. Tiradentes, por sua vez, foi condenado à morte.
Em 21 de abril de 1792, ele foi enforcado no Rio de Janeiro. Como forma de punição exemplar, seu corpo foi esquartejado e partes foram expostas ao longo do caminho entre o Rio e Minas Gerais. A mensagem era clara: qualquer tentativa de desafiar a autoridade colonial seria severamente reprimida.
Mudança a partir de 1889
Apesar da brutalidade da execução, Tiradentes não foi imediatamente transformado em herói. Durante o período colonial e mesmo ao longo do Império, sua memória permaneceu marginal, associada a uma conspiração fracassada. A mudança de percepção viria apenas décadas depois, com a Proclamação da República, em 1889.
O novo regime precisava consolidar sua legitimidade e construir uma narrativa histórica que rompesse com a monarquia. Nesse processo, Tiradentes foi resgatado e reinterpretado como símbolo de resistência ao poder monárquico e precursor da República. A escolha não foi casual: ele havia sido executado pela Coroa portuguesa, o que facilitava sua associação à luta contra a opressão.
A institucionalização dessa imagem ocorreu rapidamente. Em 1890, o governo provisório de Deodoro da Fonseca decretou o 21 de abril como feriado nacional, elevando Tiradentes à condição de herói oficial. Seu nome passou a batizar ruas, cidades e instituições, enquanto sua história era incorporada aos currículos escolares.
À semelhança de Jesus Cristo
Paralelamente, sua imagem foi reconstruída no campo simbólico. Representações artísticas começaram a retratá-lo com traços semelhantes aos de Jesus Cristo: barba longa, semblante sereno e expressão de sacrifício. Essa associação reforçava a ideia de martírio, transformando Tiradentes em uma figura quase sagrada, alguém que teria dado a vida por um ideal maior.
Esse processo de construção, no entanto, simplificou e, em certa medida, distorceu aspectos importantes de sua trajetória. A Inconfidência Mineira não foi um movimento popular amplo, e seus objetivos estavam longe de promover uma transformação social profunda. Ainda assim, Tiradentes acabou se tornando o rosto mais visível de uma ruptura simbólica com o passado colonial.
Hoje, ao revisitar sua história, é possível compreender Tiradentes sob uma perspectiva mais equilibrada: nem apenas um rebelde motivado por interesses fiscais, nem o herói absoluto da narrativa oficial. Sua trajetória reflete um momento inicial de contestação ao sistema colonial, posteriormente ressignificado para atender às necessidades políticas de um novo regime.
Assim, entender quem foi Tiradentes exige ir além do mito. Significa reconhecer tanto os limites do movimento do qual participou quanto o papel que sua memória desempenhou na construção da identidade nacional brasileira.


