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Wagner Moura diz que tem “medo de encontrar o ICE” nos EUA

Ator brasileiro destaca paralelos entre Brasil e Estados Unidos, defende a resistência cotidiana e elogia Lula

Wagner Moura celebra conquista no Globo de Ouro 11/1/2026 REUTERS/Mario Anzuoni (Foto: Mario Anzuoni)

247 - O ator brasileiro Wagner Moura, de 49 anos, vive em Los Angeles há anos com a esposa, a fotógrafa Sandra Delgado, e os três filhos. Agora, às vésperas de mais uma temporada de premiações, ele se vê no centro das atenções internacionais após ser indicado ao Oscar de melhor ator por O agente secreto, thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho, que também recebeu outras três nomeações em Hollywood.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, Moura falou sobre o impacto do filme, a escalada do autoritarismo em diferentes países e o clima de tensão social nos Estados Unidos, onde afirma até sentir medo de uma abordagem de agentes de imigração.

O agente secreto mistura suspense com crítica histórica ao retratar a repressão e a crueldade da ditadura militar brasileira nos anos 1970. O longa se tornou um marco recente do cinema brasileiro após estrear no Festival de Cannes, onde Moura venceu o prêmio de melhor ator. A obra chega aos cinemas espanhóis nesta sexta-feira.

O ator contou que conheceu Kleber Mendonça Filho em Cannes, em 2005, quando apresentava o filme Cidade Baixa e o diretor ainda atuava como crítico de cinema. Ambos são do Nordeste e mantinham contato esporádico até o período político marcado pela ascensão de Jair Bolsonaro, que aproximou os dois em meio ao embate cultural e ideológico no país.

“A gente se falava, não muito mais do que isso. Até o golpe de Estado do Bolsonaro”, afirmou Moura, ao lembrar que o cenário político os tornou mais próximos. Ele também relatou que enfrentou censura durante o governo Bolsonaro com seu filme Marighella, que foi dirigido por ele em 2019, mas só conseguiu estrear em 2021.

“Eu sofri a censura do Bolsonaro com o meu filme Marighella, que só estreou em 2021”, disse.

“Agora é a vez do homem comum”, afirma Moura

Ao comentar seu personagem em O agente secreto, Wagner Moura destacou que não se trata de um líder revolucionário, mas de alguém que resiste no cotidiano — justamente o tipo de figura que, segundo ele, costuma ser a maior vítima dos regimes autoritários.

“Eu já dirigi um filme sobre um revolucionário, sobre o Marighella. Agora é a vez do homem comum”, afirmou.

Na sequência, Moura ampliou o raciocínio ao citar situações atuais nos Estados Unidos e apontar que minorias e imigrantes têm sido alvo preferencial de perseguições políticas e institucionais.

“Porque eles são as vítimas mais numerosas das ditaduras. É esse tipo de gente que é perseguida aqui nos Estados Unidos pela cor da pele, pelo fenótipo, pelo sotaque, pela religiosidade, pelas ideias políticas”, declarou.

Ator vê paralelos entre Brasil e EUA e elogia Lula

Questionado sobre semelhanças entre os acontecimentos recentes no Brasil e nos Estados Unidos, Moura afirmou que as trajetórias políticas dos dois países apresentam padrões parecidos. Ele observou que o Brasil já superou o ciclo bolsonarista, enquanto os Estados Unidos atravessam uma fase de grande instabilidade política.

“Pelo menos nós já nos livramos do Bolsonaro”, disse.

Moura também afirmou estar orgulhoso da atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente diante das pressões externas envolvendo o ex-presidente brasileiro.

“Eu tenho muito orgulho de como o Lula, quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump pressionou para libertar Bolsonaro, foi habilidoso politicamente”, afirmou.

Segundo ele, a reação brasileira diante da tentativa de ruptura institucional teve como base a memória histórica da ditadura militar, algo que, na visão do ator, não existe com a mesma força nos Estados Unidos.

“Os americanos nunca sofreram uma ditadura e, por isso, não carregam esse medo”, avaliou.

“Tenho medo de encontrar o ICE”, diz ator

Ao falar sobre a escalada de tensão política em território americano, Moura mencionou a distopia retratada no filme Civil War, de Alex Garland, no qual interpretou um jornalista em meio a um cenário de guerra civil. Para ele, a realidade norte-americana tem se aproximado perigosamente de situações antes consideradas improváveis.

“Estamos atravessando um momento muito feio. Até eu tenho medo de encontrar o ICE”, afirmou, em referência ao órgão de imigração dos Estados Unidos.

O ator explicou que teme reagir de forma impulsiva diante de situações de injustiça e que, hoje, isso pode ter consequências graves.

“Eu digo isso porque reajo de maneira explosiva quando vejo uma situação de injustiça ou autoritarismo diante dos meus olhos”, afirmou, antes de completar: “E agora eu não sei se poderia fazer isso, porque esses canalhas podem te matar, como a gente já viu”.

Ele relatou ainda que muitos latinos estão vivendo escondidos, temendo ações repressivas e evitando até levar filhos à escola.

“Eu conheço muitos latinos que estão escondidos em casa, sem levar os filhos para a escola. Estamos vivendo tempos muito tristes”, disse.

Redes sociais e extrema direita: “A verdade acabou”

Moura também fez críticas contundentes ao impacto das redes sociais e à forma como a extrema direita teria se apropriado dessas ferramentas para manipular narrativas e enfraquecer o debate público.

“A verdade como a gente conhecia acabou. Os fatos já não importam. Agora as pessoas lidam com versões da realidade”, afirmou.

Ele argumentou que o ambiente digital fragmentou completamente a percepção coletiva do mundo, criando bolhas de informação incompatíveis entre si.

“O que você vê é diferente do que vê um apoiador do MAGA ou um bolsonarista”, declarou, usando a expressão associada aos apoiadores do trumpismo.

Para Moura, esse processo não significa necessariamente que todos os envolvidos sejam pessoas más, mas sim que muitos vivem imersos em um universo paralelo.

“E pode ser que essa pessoa não seja má, mas viva em um mundo paralelo, com informações e conteúdo diferentes, um mundo mentiroso e desconectado do real”, afirmou.

“Os progressistas perderam a batalha das redes sociais”

O ator reconheceu que, no passado, setores progressistas subestimaram o poder político das plataformas digitais. Segundo ele, havia uma crença ingênua de que redes como Facebook seriam ferramentas de democratização da informação.

“Há uma década, no Brasil, nós fomos muito ingênuos”, disse.

Na avaliação de Moura, hoje é evidente uma conexão entre grandes empresários da tecnologia e a extrema direita, o que teria ampliado o poder desses movimentos no debate público.

“Hoje é evidente a união entre os oligarcas da tecnologia e a extrema direita”, afirmou.

Ele concluiu com um diagnóstico direto:

“De alguma forma, nós, progressistas, perdemos a batalha das redes sociais”.

“Há esperança, e ela se chama solidariedade”

Apesar do tom crítico e preocupado, Wagner Moura disse acreditar que ainda há saída para tempos marcados por autoritarismo, tragédias ambientais e desesperança coletiva. Para ele, o caminho passa por união e memória histórica.

“Sim, e ela se chama solidariedade”, afirmou ao ser perguntado se ainda existe esperança.

Ele também destacou o valor da memória como forma de resistência e disse considerar importante que o Brasil enfrente seu passado político recente.

“Hoje o Brasil está encarando de forma saudável a memória histórica”, afirmou.

Nesse contexto, mencionou diretamente a necessidade de responsabilização do ex-presidente.

“Aí eu incluo mandar Bolsonaro para a prisão, porque o passado golpista já não pode ser apagado”, disse.

Campanha ao Oscar exige trabalho e equilíbrio familiar

Ao comentar a campanha internacional do filme rumo ao Oscar, Moura disse que o processo vai muito além de divulgar uma produção. Segundo ele, desde maio, quando a distribuidora Neon comprou os direitos para lançamento nos Estados Unidos, o trabalho se intensificou.

“Estamos trabalhando muito. É mais do que promover um filme”, afirmou.

Apesar da celebração, ele ressaltou que tenta manter os pés no chão, especialmente quando retorna para casa e encontra os filhos.

“A realidade me alcança quando eu volto para casa e meus filhos estão me esperando”, disse.

Melancolia, humor e novos projetos

Ao longo da entrevista, Moura também falou com humor sobre sua personalidade e o tom melancólico de muitos de seus personagens.

“Minha vida é uma luta constante contra a melancolia e a calvície”, afirmou, rindo.

E, ao ser perguntado sobre as batalhas pessoais, respondeu:

“A do cabelo, pior”.

Moura ainda comentou que prefere construir a carreira de forma coerente, evitando escolhas apenas por estratégia de mercado.

“Eu me orgulho de dizer que, mesmo quando eu era jovem e tinha dificuldade para pagar o aluguel, nunca fiz nada de que me envergonhasse ou apenas para pagar as contas”, declarou.

Entre os próximos trabalhos, ele confirmou que seguirá com a peça Um julgamento: atrás de um inimigo do povo, que será apresentada na Espanha durante o verão europeu. Também anunciou que irá filmar com Lisandro Alonso uma versão de O sabor da cereja, de Abbas Kiarostami, além de dirigir seu segundo longa-metragem, Last Night at the Lobster.

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