Pequim pressiona EUA a revogar tarifas unilaterais e alerta para “contramedidas” diante de novo imposto global de Trump
Ministério do Comércio chinês diz que medidas como tarifas “recíprocas” e ligadas ao fentanil violam regras internacionais
247 – A China instou os Estados Unidos a revogarem suas medidas tarifárias unilaterais impostas a parceiros comerciais e afirmou que acompanhará de perto quaisquer “medidas alternativas” adotadas por Washington para sustentar tarifas elevadas. Pequim sinalizou que seguirá disposta a cooperar com os EUA em bases de benefício mútuo e em favor da estabilidade da economia global, mas avisou que responderá com contramedidas caso seus interesses sejam atingidos.
As declarações foram publicadas pelo portal do Diário do Povo, citando posicionamentos do Ministério do Comércio da China e avaliações de autoridades e analistas após uma reviravolta no cenário comercial norte-americano: na sexta-feira, a Suprema Corte dos EUA derrubou tarifas abrangentes propostas pelo presidente Donald Trump, que, horas depois, prometeu reimpor rapidamente os tributos por outros caminhos.
Segundo o relato, Trump anunciou planos para uma nova tarifa “global” de 10% com base na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, percentual que posteriormente elevou para 15%. A movimentação busca manter o peso tarifário mesmo após a decisão da Suprema Corte, que redesenhou parte do arcabouço utilizado para justificar cobranças recentes.
Suprema Corte derruba parte das tarifas e Washington busca novo caminho
Antes do julgamento, as tarifas dos EUA sobre importações chinesas eram descritas como um conjunto de cinco camadas, totalizando 37%, de acordo com cálculos da Guosheng Securities. O pacote reunia 2,5% de tarifas de nação mais favorecida, 8,4% sob a Seção 301, 11% sob a Seção 232, 10% relacionadas ao fentanil e 5,1% sob tarifas chamadas de “recíprocas”.
A decisão da Suprema Corte, conforme exposto, invalidou as tarifas associadas ao fentanil e as chamadas “recíprocas” aplicadas à China, reduzindo a taxa-base para 21,9%. Em seguida, a inclusão da nova tarifa “global” de 15% elevaria novamente a carga composta para cerca de 28,6%, segundo a Guosheng Securities.
Esse vai e vem, na leitura chinesa, amplia a incerteza e preserva um patamar elevado de barreiras comerciais, com impacto potencial sobre cadeias globais de produção, custos industriais e expectativas de empresas que operam nos dois mercados.
“Oposição consistente” e recado a Washington sobre medidas “alternativas”
Um porta-voz do Ministério do Comércio da China afirmou que o país realiza uma “avaliação abrangente” do conteúdo e das implicações do veredito. Na mesma linha, reforçou que a China se opõe, de forma sistemática, a “todas as formas de medidas tarifárias unilaterais”.
Na crítica, Pequim sustentou que ações unilaterais dos EUA, incluindo tarifas “recíprocas” e as vinculadas ao fentanil, ferem regras do comércio internacional e também contrariam a própria lei doméstica norte-americana, sem beneficiar qualquer parte.
Em um trecho central do posicionamento, o porta-voz advertiu sobre o próximo movimento de Washington e a reação chinesa: “Também notamos que os EUA estariam preparando medidas alternativas, como investigações comerciais, para manter tarifas sobre parceiros comerciais”. Em seguida, acrescentou: “A China acompanhará de perto a situação e tomará ações firmes para proteger seus interesses legítimos”.
O governo chinês ainda enfatizou a lógica de ganhos mútuos como base para reduzir tensões: “Os fatos mostram que tanto a China quanto os EUA se beneficiam da cooperação e perdem com o confronto”.
Estabilidade “dinâmica” nas relações e trégua tarifária estendida
Apesar das turbulências, o texto aponta que as relações China-EUA, após “altos e baixos” e múltiplas rodadas de negociações comerciais ao longo do último ano, alcançaram uma “estabilidade dinâmica geral”, formulação atribuída ao ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi.
O quadro inclui um acordo para estender por um ano a trégua tarifária, após as mais recentes consultas comerciais realizadas na Malásia em outubro. Ainda assim, o ambiente descrito é de prudência estratégica, já que os mecanismos de contenção, sobretudo em setores tecnológicos, permanecem no centro do atrito.
Nesse contexto, o economista-chefe e chefe do instituto de pesquisa da Yuekai Securities, Luo Zhiheng, afirmou que os EUA ainda mantêm tarifas relativamente altas sobre a China e que os esforços para contê-la em áreas de alta tecnologia continuam. Para ele, o poder de barganha nas futuras negociações dependerá dos pontos de alavancagem de cada lado, especialmente resiliência econômica e força tecnológica.
Luo também indicou a estratégia chinesa para reduzir vulnerabilidades e preservar iniciativa no longo prazo, defendendo o fortalecimento dos fundamentos econômicos, a ampliação da capacidade de inovação tecnológica independente e a manutenção de “determinação estratégica” em um cenário internacional complexo e em transformação.
Seção 122 tem prazo e pode ser apenas “ponte” para medidas mais duráveis
Um componente relevante do episódio envolve a própria viabilidade jurídica e temporal da tarifa “global” anunciada por Trump. Xiong Yuan, economista-chefe da Guosheng Securities, avaliou que há limitações estruturais que tornam a Seção 122 inadequada como mecanismo duradouro de tarifas.
De acordo com esse diagnóstico, a legislação impõe um limite rígido de 150 dias para quaisquer tarifas implementadas por esse dispositivo, com expiração no fim de julho, salvo prorrogação por ato do Congresso dos EUA. A expectativa, segundo Xiong, é que a invocação da Seção 122 funcione como medida interina, com uma possível guinada posterior para estruturas legais mais robustas, como as Seções 301 e 232.
Na leitura apresentada, isso significa que a disputa tarifária pode migrar de formato, mas não necessariamente arrefecer no curto prazo, mantendo a pressão sobre as negociações e ampliando a volatilidade das regras do jogo para empresas.
Setor empresarial pede agenda além de tarifas e controles
O texto também traz a visão do empresariado ligado ao comércio bilateral. Sean Stein, presidente do US-China Business Council, disse esperar que futuras negociações consigam ir além de tarifas, alíquotas e controles de exportação, abrindo espaço para discutir como as duas economias podem cooperar com mais eficiência.
Stein destacou o peso sistêmico dessa relação e a necessidade de acerto fino nas questões econômicas: “Os EUA e a China são as duas maiores, mais tecnologicamente avançadas e mais dinâmicas economias do mundo. Há muitas coisas que precisamos fazer direito na frente econômica”, afirmou.
A mensagem, combinada às advertências de Pequim, reforça um ponto: a disputa tarifária não é apenas sobre percentuais, mas sobre o desenho de instrumentos legais e políticos que redefinem, na prática, as condições de acesso a mercados, as cadeias de suprimento e a competição tecnológica.
O que está em jogo na próxima rodada
A partir das informações fornecidas, o episódio sinaliza um ciclo de reacomodação. De um lado, a China insiste na revogação de medidas unilaterais, chama atenção para violações a regras internacionais e indica disposição para reagir. De outro, os EUA buscam alternativas legais para manter tarifas elevadas após a decisão da Suprema Corte, com Trump apostando em um “imposto global” temporário e potencialmente sujeito a limites do Congresso.
No meio desse tabuleiro, a trégua tarifária estendida por um ano indica tentativa de administrar o conflito, mas a presença de tarifas ainda altas e a continuidade de restrições em setores de alta tecnologia mantêm a relação sob tensão. O próximo passo dependerá, como ressaltou Luo, da força relativa de cada economia e de sua capacidade tecnológica, além da arquitetura jurídica que Washington escolher para sustentar as barreiras.



