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Acordo para emissão de Panda Bonds pelo Brasil reduzirá custo da dívida e diversificará fontes de financiamento

Durigan formaliza em Pequim a intenção do governo brasileiro de lançar títulos em renminbi, em iniciativa que fortalece a cooperação Brasil-China

Durigan fechou acordo para a emissão e Panda Bonds (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O governo brasileiro deu um passo estratégico para ampliar sua presença no mercado financeiro chinês, reduzir custos de financiamento e diminuir a dependência do dólar. Nesta quinta-feira (25), o Ministério da Fazenda formalizou a intenção de emitir títulos de dívida soberana no mercado da China, conhecidos como “Panda Bonds” ou “títulos panda”, em uma operação que poderá sair a juros significativamente inferiores aos pagos atualmente pelo Tesouro Nacional em emissões em moeda norte-americana.

A carta de intenção foi entregue pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao presidente do Banco Popular da China (BPC), Pan Gongsheng, durante cerimônia realizada na sede da instituição, em Pequim. Com a iniciativa, o Brasil se torna o primeiro país da América Latina a formalizar esse tipo de emissão no mercado chinês.

Os títulos panda são papéis de dívida emitidos por governos, empresas ou instituições estrangeiras no mercado financeiro da China, em renminbi, nome oficial da moeda chinesa, contabilizada em yuans. O mercado chinês de títulos é o segundo maior do mundo, com volume superior a 200 trilhões de yuans, o equivalente a mais de R$ 150 trilhões.

A operação tem potencial para representar uma economia relevante para o Tesouro Nacional. Segundo os dados apresentados, emissões recentes de títulos panda têm registrado juros entre 1,70% e 2,05% ao ano. Para comparação, o Tesouro brasileiro emitiu, em 2025, títulos em dólar com prazo de cinco anos a 5,2% ao ano e papéis de 30 anos a 7,5% ao ano.

O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura pagou 1,70% ao ano em uma emissão de três anos. O banco estadunidense Morgan Stanley obteve taxa de 1,98% em cinco anos, enquanto o britânico Barclays captou recursos a 1,95% em três anos, segundo informações da Xinhua Financeira e do Banco da China. A agência chinesa classificou a taxa paga pelo banco asiático como “significativamente abaixo” da praticada em títulos equivalentes em dólar ou euro.

No caso brasileiro, a expectativa é que o governo consiga condições favoráveis, uma vez que títulos soberanos costumam ter melhor classificação de risco do que papéis emitidos por empresas privadas. A multinacional brasileira Suzano já captou recursos no mercado chinês por meio de títulos panda, com juros entre 2,55% e 2,90% ao ano.

Além da redução de custos, a emissão em renminbi integra uma estratégia mais ampla de diversificação monetária. Ao captar recursos em moeda chinesa, o Brasil amplia suas alternativas de financiamento, reduz sua exposição ao dólar e fortalece canais financeiros compatíveis com uma economia mundial mais multipolar.

A China é hoje uma das principais potências financeiras globais. O renminbi é a segunda maior moeda de financiamento comercial do mundo, de acordo com a SWIFT, rede global de mensagens financeiras interbancárias. Esse dado, no entanto, considera apenas transações realizadas dentro da própria rede e não inclui operações feitas pelo sistema chinês de pagamentos transfronteiriços em renminbi, o CIPS, que movimentou 175 trilhões de yuans em 2024, cerca de R$ 136 trilhões.

Durante a cerimônia em Pequim, participaram também o presidente do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), Liao Lin, e o vice-presidente do Banco da China, Liu Chenggang. As duas instituições devem atuar como subscritoras da emissão brasileira.

Pan Gongsheng afirmou que a cooperação financeira bilateral, sob a liderança estratégica do presidente Xi Jinping e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já produziu “uma série de resultados práticos na cooperação em moeda local, interconexão de infraestrutura financeira e cooperação nos mercados financeiros”.

O presidente do Banco Popular da China também declarou que Pequim deseja ampliar a presença de instituições brasileiras em seu sistema financeiro. “Apoiamos o Ministério da Fazenda do Brasil na emissão oficial de títulos panda, para que o Brasil se torne o primeiro país latino-americano a emiti-los”, afirmou Pan. “Os títulos panda têm potencial para se tornar uma ponte importante da cooperação financeira entre os dois países.”

Durigan afirmou que conversou com Lula a caminho da cerimônia e relatou entusiasmo do presidente brasileiro com o avanço da iniciativa. “O presidente Lula ficou muito feliz e disse que ia ligar para o presidente Xi para saudar este momento importante, este passo adiante que estamos dando juntos”, disse o ministro.

Na cerimônia, o ministro da Fazenda também apresentou indicadores econômicos do atual governo, destacando a combinação entre inflação baixa, queda do desemprego e aumento da renda das famílias. Segundo Durigan, trata-se de um quadro “muito raro na história econômica brasileira”.

O ministro citou dados do IBGE segundo os quais o rendimento médio mensal de todas as fontes chegou a R$ 3.367 em 2025, o rendimento habitual do trabalho alcançou R$ 3.560 e a renda domiciliar per capita atingiu R$ 2.264, todos recordes da série histórica iniciada em 2012.

“Tudo o que fazemos na economia não significaria nada se pessoas reais no Brasil e na China não se beneficiassem desses avanços”, afirmou Durigan.

O ministro classificou a emissão dos títulos panda como um “sinal de confiança” entre os dois países. Ele também defendeu que Brasil e China podem exercer papel conjunto na reorganização da economia global. Segundo Durigan, “não há dois países melhores do que Brasil e China que possam mostrar que podem coliderar o mundo e a economia, trabalhando juntos, construindo vidas melhores para seus cidadãos”.

De acordo com Durigan, em entrevista à Reuters, o governo brasileiro planeja emitir até 5 bilhões de yuans, cerca de R$ 4 bilhões. A operação ainda depende das próximas etapas técnicas e regulatórias, mas a carta de intenção marca o início formal do processo.

A iniciativa integra uma agenda mais ampla de cooperação financeira sino-brasileira. Em 9 de junho, a quarta reunião do Grupo de Trabalho de Cooperação Financeira Estratégica China-Brasil, copresidida por Pan Gongsheng e pelo presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, resultou em consensos sobre a expansão do swap em moeda local, a negociação direta entre renminbi e real e o piloto de um “Bond Connect” bilateral, segundo o Banco Popular da China.

Em maio de 2025, durante visita de Lula à China, Pan Gongsheng e Gabriel Galípolo participaram do seminário “Aprofundar a Abertura Financeira, Criar Juntos um Novo Capítulo da Cooperação China-América Latina”. Na ocasião, o presidente do Banco Popular da China afirmou que “a China convida mais países da América Latina a emitir títulos panda”.

Além da carta de intenção, Durigan anunciou o lançamento de um portal sobre o mercado de capitais brasileiro voltado a investidores chineses, em parceria com uma empresa chinesa. Segundo o ministro, o mercado de capitais do Brasil movimenta mais de R$ 50 trilhões.

O ministro também confirmou a abertura de um escritório da Receita Federal em Pequim e uma parceria de conexão de ETFs com o governo chinês, iniciativas que ampliam a integração financeira entre os dois países.

“É a minha primeira visita à China, e espero que seja a primeira de muitas”, afirmou Durigan.

Após a cerimônia, em conversa com jornalistas, o ministro explicou que a emissão de títulos no exterior exige um processo técnico de longo prazo. “Para emitir esses títulos, seja na Europa, seja o título panda, é necessário um trabalho que dura anos, de maturação, de adaptação do Tesouro Nacional”, disse, citando a presença do secretário do Tesouro Nacional, Daniel Cardoso Leal, na delegação brasileira.

Durigan também vinculou a iniciativa a uma estratégia de soberania econômica. “Temos uma estratégia nacional e essa estratégia nacional vai ser executada independentemente de forças estrangeiras”, afirmou. “Diferente do que alguns querem no Brasil, quem lidera um país soberano como o Brasil deve executar sua estratégia soberana, independentemente de constrangimentos do exterior.”

A entrada do Brasil no mercado de títulos panda reforça a aproximação com a China, principal parceira comercial do país, e aponta para um novo capítulo nas relações financeiras entre as duas maiores economias em desenvolvimento de suas regiões. Ao buscar financiamento em renminbi, o governo Lula sinaliza uma estratégia de longo prazo voltada à redução de custos, à diversificação de fontes de financiamento e ao fortalecimento de uma ordem econômica mais multipolar.

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