Bets dobram receita e ampliam participação nos impostos
Bets dobram receita, arrecadam R$ 4,5 bilhões em quatro meses e ampliam debate sobre dívidas e jogo ilegal
247 - As bets dobraram sua receita no Brasil, arrecadam R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses de 2026 e ampliam o debate sobre dívidas, dependência e jogo ilegal, em um mercado que avança desde a legalização das apostas online no país e já se aproxima, em volume de impostos, de setores tradicionais como tabaco e agricultura, informa a Folha de São Paulo.
A expansão ocorre em meio a restrições impostas pelo governo e pela Justiça a apostas feitas por beneficiários de programas sociais e pessoas endividadas. Segundo dados da Receita Federal, a receita das empresas licenciadas de apostas online dobrou no primeiro quadrimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.
Arrecadação das bets chega a R$ 4,5 bilhões
A arrecadação de tributos sobre apostas passou de R$ 2,2 bilhões nos quatro primeiros meses de 2025 para R$ 4,5 bilhões no mesmo intervalo de 2026. O valor já se aproxima do que recolhem mensalmente a indústria do tabaco e a agricultura, setores que pagam cerca de R$ 1 bilhão por mês cada em impostos.
Como a carga paga pelas casas de apostas representa 37% da receita das empresas, o faturamento das bets legalizadas alcançou R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026. Em todo o ano de 2025, o setor havia registrado R$ 36,9 bilhões em faturamento.
O desempenho das plataformas está ligado a fatores sazonais, como finais de campeonatos de futebol, grandes eventos esportivos e períodos de maior engajamento dos apostadores. Por isso, a expectativa de parte do mercado é de que a atividade ganhe ainda mais força no meio e no fim do ano, especialmente com a Copa do Mundo.
“É um setor que está se consolidando”, afirmou Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, uma das entidades que representam companhias de apostas.
Copa do Mundo pode impulsionar o setor
A Copa do Mundo aparece como um dos principais motores de crescimento adicional para as empresas de apostas. A consultoria H2 Gambling Capital projeta que o torneio pode elevar entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões os valores depositados para apostas esportivas durante o evento.
O cálculo do faturamento do setor, porém, não se baseia no total apostado, mas no saldo que permanece com as empresas depois do pagamento dos prêmios aos vencedores. Por isso, segundo Ed Birkin, presidente da H2 Gambling Capital, o ganho extra efetivo dependerá diretamente dos resultados das partidas.
No longo prazo, o funcionamento econômico desse mercado se apoia em modelos estatísticos que definem os prêmios. A lógica das plataformas é garantir que, na média de milhares de apostas, os valores arrecadados com palpites perdedores superem o montante pago aos vencedores.
Publicidade amplia presença das apostas
Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas, o crescimento do setor está relacionado à maior presença das bets na sociedade, impulsionada pela publicidade.
Desde o início do mercado regulamentado, em 2025, o Ministério da Fazenda concedeu 85 licenças para empresas de apostas. Cada autorização permite a operação de três marcas. Atualmente, há 187 sites autorizados em funcionamento no país, segundo o governo.
No fim de 2025, dez marcas concentravam 68,8% do mercado, conforme estimativas da H2 Gambling Capital. A liderança era da grega Betano, com 23% da receita gerada com apostas no Brasil. Entre as empresas que também disputam as primeiras posições estão Bet365, SportingBet, Esportes da Sorte e Superbet.
Futebol vira vitrine bilionária das bets
O avanço das apostas online também se reflete nos maiores contratos de patrocínio do futebol brasileiro. A Betano fechou acordo com o Flamengo estimado em R$ 268,5 milhões por três anos. A Esportes da Sorte, por sua vez, paga R$ 150 milhões pelo contrato de três temporadas com o Corinthians.
A presença das marcas em clubes, transmissões e campanhas publicitárias ajudou a ampliar o número de apostadores. Segundo o Ministério da Fazenda, 25 milhões de CPFs fizeram apostas em 2025. No fim do primeiro semestre daquele ano, eram 17 milhões.
O gasto médio mensal por jogador em apostas online foi de R$ 123 em 2025, de acordo com o governo. Esse valor considera o total depositado descontadas as premiações recebidas de volta pelos apostadores.
Dependência e endividamento entram no centro do debate
O crescimento acelerado das bets ocorre sob preocupação crescente com compulsão, dependência e superendividamento. Parte dos jogadores desenvolve comportamento de risco, com prejuízos financeiros e sociais.
Um levantamento epidemiológico independente apontou que o Brasil apresenta um quadro mais grave de dependência em jogos do que a média mundial. Publicado no ano passado com base em questionários de 2023, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Unifesp indicou que 4,4% dos apostadores vivem uma situação de “jogo problemático”, marcada por dependência e danos significativos.
A proporção considera diferentes modalidades de jogo, incluindo loterias como a Mega-Sena, e supera a média global, hoje em torno de 2%.
Crescimento deve desacelerar, avalia executivo
Apesar dos números expressivos, parte do setor prevê uma desaceleração no ritmo de expansão. Marco Túlio Oliveira, CEO da Ana Gaming, empresa que controla marcas como Bet7K e CassinoPix, avalia que o mercado já passou pela fase inicial de instalação das companhias.
“Era um mercado que não existia e agora as empresas já se instalaram.”
O executivo projeta crescimento entre 10% e 15% para este ano.
“Depois, o mercado legal vai crescer como cresce a economia”, afirmou Oliveira.
Segundo ele, as empresas devem buscar melhores resultados não apenas na disputa por apostadores, mas também em um processo de consolidação do mercado. A Fazenda afirma que cada jogador tem, em média, conta em quatro bets.
Para Ed Birkin, da H2 Gambling Capital, o setor de apostas online tem muitas empresas pequenas e deve passar por uma seleção natural, com operadores sendo comprados por companhias maiores ou deixando o mercado.
“Não é algo popular de se dizer, mas o fato é que existem operadores legalizados que simplesmente têm desempenho abaixo do esperado e não possuem uma estrutura boa o suficiente”, disse o executivo.
Varejo critica bets e associa setor ao endividamento
A expansão das apostas online colocou as bets no centro da discussão sobre o endividamento recorde da população. A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) associa parte das dificuldades financeiras das famílias ao avanço das apostas.
“Avaliamos que a atividade causa prejuízos a empresas e consumidores, especialmente os mais vulneráveis”, afirmou a entidade em nota.
O presidente do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), André Guelfi, que também é executivo da multinacional Betsson, rebateu as críticas e atribuiu a reação do varejo à disputa pelo orçamento das famílias.
“O varejo está com dificuldades porque o cobertor está curto para a família brasileira”, disse Guelfi.
“Eles veem as bets fazendo publicidade e acham que estamos ganhando dinheiro, o dinheiro que eles perderam”, afirmou.
Ele também disse que o endividamento afeta as próprias empresas de apostas, porque reduz a capacidade de jogo dos consumidores.
“O cobertor curto do varejo também é curto para a gente.”
Sites ilegais viram principal preocupação do setor
Além das críticas sobre endividamento e dependência, as empresas legalizadas apontam a concorrência das bets clandestinas como um dos principais problemas do mercado. Segundo o setor, plataformas ilegais operam sem pagar a licença de R$ 30 milhões, sem recolher impostos e sem cumprir as regras de publicidade.
As companhias argumentam que a ausência desses custos permite aos operadores clandestinos oferecer prêmios mais atrativos. Além disso, esses sites não contam com mecanismos de autoexclusão, ferramenta pela qual o jogador pode impedir a criação de cadastros em plataformas de apostas por meio de um sistema do Ministério da Fazenda.
Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo IBJR, estima que as bets clandestinas representem entre 41% e 51% do mercado total. Nesse cenário, a fatia ilegal movimentaria entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.
Mercados de previsão entram na mira
As empresas de apostas também pressionaram o governo a classificar mercados de previsão, como Kalshi e Polymarket, como operadores ilegais. No fim de abril, a Fazenda determinou a derrubada desses sites.
De acordo com o IBJR, porém, a atividade dessas plataformas no Brasil continuou mesmo após as restrições. O instituto entregou ao governo uma notificação sobre o tema no dia 29.
Pelos cálculos da H2 Gambling Capital, feitos com base em informações do Banco Central sobre remessas ao exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego em sites ilícitos, o mercado clandestino movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025. Birkin reconhece, no entanto, que não há número oficial sobre esse segmento.
No cenário traçado pela consultoria, a receita das empresas de apostas, somando atividades legais e ilegais, passou de R$ 41 bilhões para R$ 51 bilhões entre 2024 e 2025, ano em que teve início o mercado regulamentado no Brasil.



