BRB controla fundos ligados ao Banco Master e expõe conexões com Vorcaro
Auditorias e investigações apuram sobreposição de fundos, investimentos cruzados e ativos de R$ 8 bilhões em meio à liquidação do conglomerado financeiro
247 - O Banco de Brasília (BRB) aparece no centro de uma complexa rede de fundos de investimento associados ao Banco Master, instituição envolvida em um esquema classificado como fraudulento por autoridades financeiras. De acordo com registros do Banco Central, o BRB controla oito fundos que surgem interligados às operações do Master, o que levou o regulador a tratar todas essas entidades como parte de um mesmo conglomerado, estratégia adotada para evitar riscos sistêmicos e efeitos em cadeia no setor financeiro, explica a Folha de São Paulo.
Segundo dados oficiais, seis desses fundos constavam nos balanços do Banco Master como tendo participação acionária ou administração ligada à instituição. Outros dois integram um grupo de fundos apontados pelo Banco Central como suspeitos de participação na estrutura fraudulenta. A coincidência entre fundos controlados pelo BRB e aqueles identificados na teia do Master passou a ser analisada por uma auditoria externa contratada pelo banco estatal do Distrito Federal, que investiga possíveis irregularidades na relação com o banco comandado por Daniel Vorcaro.
O volume financeiro envolvido é expressivo. Conforme informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os fundos que aparecem nessa sobreposição somam cerca de R$ 8 bilhões em ativos. Entre os investimentos identificados, ao menos dois têm ligação direta com negócios associados a Daniel Vorcaro e pessoas de seu entorno familiar e empresarial.
Um dos casos envolve o fundo imobiliário Supreme Realty, que aplicou R$ 145 milhões na Mgi Desenvolvimento Imobiliário SPE. A empresa tem como diretora Natalia Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel, que chegou a ser preso pela Polícia Federal durante a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada.
Outro investimento relevante foi feito pelo fundo Strelitzia, que detém uma participação de R$ 452 milhões na A.Life Partners, grupo proprietário de bares e restaurantes conhecidos, como Nino Cucina e Ninetto. Em 23 de outubro de 2024, o fundo adquiriu R$ 210 milhões em ações da empresa, operação na qual o nome de Daniel Vorcaro aparece como “interveniente anuente”, figura que formaliza o consentimento contratual. A compra foi realizada em dinheiro, com a condição de que os vendedores aplicassem os recursos em certificados de depósito bancário (CDBs) do Banco Master, com rendimento de 100% do CDI, conforme consta nas demonstrações financeiras do Strelitzia.
Do total pago aos acionistas da A.Life, R$ 180 milhões foram direcionados a um fundo da XP, que investiu em papéis do Banco Master com prazo de um ano, vencido em outubro do ano passado, cerca de um mês antes da liquidação do banco, ocorrida em 17 de novembro. Outros R$ 29 milhões foram repassados à própria A.Life, que também adquiriu CDBs do Master, com vencimento em três anos. Não há informação pública se esses papéis foram mantidos pela empresa ou negociados no mercado secundário antes da liquidação. A A.Life não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Em nota, a XP afirmou que a exposição aos papéis do Banco Master “ocorreu exclusivamente por meio de um de seus fundos de Private Equity, sem qualquer capital proprietário”. A instituição acrescentou que “a venda da participação foi realizada em processo competitivo que atraiu potenciais compradores de diversos segmentos da economia, como parte do ciclo natural de desinvestimentos do fundo”, ressaltando que o processo foi concluído antes de se tornarem públicos os problemas recentes envolvendo a instituição compradora. A XP declarou ainda que seguiu as melhores práticas de compliance e que a operação foi integralmente aprovada pelos órgãos reguladores.
Dois dos fundos sob controle do BRB, Texas 1 e Kyra, também são citados em investigações do Ministério Público Federal que apuram a relação entre o banco do Distrito Federal e o Banco Master. Ambos realizaram investimentos em ações da Ambipar e, em conjunto com um terceiro fundo, chegaram a concentrar cerca de 15% do capital social da empresa. Essas operações reduziram em aproximadamente 70% a quantidade de ações em livre negociação, movimento que passou a ser investigado pela CVM após uma valorização acentuada dos papéis, que saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 entre 28 de junho e 9 de agosto de 2024.
O histórico societário desses fundos também levanta questionamentos. O Texas 1 pertencia ao Banco Voiter, adquirido posteriormente pelo Banco Master e depois vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também investigado pela Polícia Federal. Já o fundo Kyra tinha como cotista o fundo Borgonha, ligado a um executivo do próprio Banco Master.
Entre março e setembro de 2025, o BRB chegou a negociar a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Banco Master. A operação, no entanto, foi vetada pelo Banco Central, que identificou a venda de aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras de crédito consideradas fraudulentas do Master para o banco de Brasília. O caso também está sob investigação da Polícia Federal.
Nesta semana, o Banco Central decretou a liquidação do Will Bank, banco digital que integrava o conglomerado do Master. Durante a execução de garantias, surgiu mais um elo entre as instituições: o Will havia oferecido ações do próprio BRB como garantia em operações com a Mastercard. Com o inadimplemento, a bandeira passou a deter 33.684.706 ações do BRB, o equivalente a 6,93% do capital total da instituição, participação avaliada em cerca de R$ 230 milhões.


