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Bresser lamenta venda da CBA, da Votorantim, para grupos internacionais: "o alumínio é deles"

Economista alerta que déficit em conta corrente amplia remessas de juros e lucros, pressionando a soberania econômica

Luiz Carlos Bresser-Pereira (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247)

247 – O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira lamentou a venda da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do grupo Votorantim, para grupos internacionais e afirmou que o movimento traduz um problema estrutural da economia brasileira: o déficit em conta corrente, que se repete ano após ano e empurra o país para a ampliação da dívida externa e da remessa de renda ao exterior. 

"Hoje os jornais informam que a Votorantim, dos Ermírio de Morais, vendeu sua grande empresa produtora de alumínio, a CBA, para uma empresa chinesa, Chinalco, e outra australiana, Rio Tinto." A partir desse ponto, Bresser sustenta que a decisão empresarial pode ter tido justificativas específicas, mas que o pano de fundo é nacional e recorrente. "A Votorantim certamente teve um bom motivo para decidir vender a CBA, mas qual foi o motivo da venda do Brasil?", questiona. "Porque há uma causa para isso; é déficit em conta corrente em que incorre o Brasil todos os anos."

Déficit externo e aumento da dívida: a conta que volta sempre

Na avaliação do economista, um país que convive com déficit em conta corrente acima do próprio crescimento do PIB tende a aumentar a dívida externa, elevando também a transferência de recursos para fora na forma de juros, lucros e dividendos. "Um déficit que, se em termos percentuais do PIB, for maior do que o crescimento do próprio PIB, implicará em aumento da dívida externa e a correspondente remessa de juros e dividendos para o exterior."

Bresser aponta números para sustentar o alerta. "Em 2025 o déficit em conta corrente foi 3,02 % do PIB, enquanto o próprio PIB deve ter crescido neste ano cerca de 2,3%." Para ele, essa diferença já indica um mecanismo de deterioração externa: "O que significa que a dívida externa aumentou neste ano devido ao déficit."

Remessas ao exterior: quase o tamanho do gasto em educação

O economista também destaca o que considera uma pressão crescente sobre o orçamento e a capacidade de investimento nacional. "E nos permite entender por que a remessa total de juros, lucros e dividendos, e royalties em 2025 foi de 3,9% do PIB." Em seguida, faz uma comparação direta para dimensionar o impacto: "Estamos, portando, remetendo ao exterior quase a mesma coisa que gastamos com educação (5% do PIB)." E conclui com um aviso sobre a tendência: "E esses 3,9% só tendem a aumentar."

A leitura de Bresser é que, ao se consolidar essa dinâmica, operações de venda de ativos estratégicos deixam de ser fatos isolados e passam a compor um processo de desnacionalização impulsionado por desequilíbrios externos persistentes.

A crítica ao discurso convencional: “não há por que se preocupar”

Bresser contrapõe sua interpretação ao que chama de tranquilidade dos economistas convencionais diante desse quadro. "Mas não há por que se preocupar dizem os economistas convencionais." Ele então apresenta dois argumentos que, segundo ele, são usados para minimizar o problema — e explica por que discorda de ambos.

O primeiro é a ideia de que o déficit em conta corrente não seria um risco porque foi financiado por investimentos diretos vindos do exterior. Bresser contesta: "Primeiro porque o déficit em conta corrente foi totalmente coberto pelos investimentos diretos vindos do exterior. Que, no entanto, apenas aumentam a dívida externa patrimonial do Brasil."

O segundo argumento é que a presença crescente de capital externo, refletida nas remessas, teria impulsionado o crescimento do país. Para Bresser, isso não se sustenta. "Segundo, porque o estoque de capital externo existente no Brasil, que explica os 3,9% de remessas, aumentou a taxa de crescimento do Brasil." Em seguida, ele rebate: "Mas isto não é verdade por uma razão teórico (segundo a teoria novo-desenvolvimentista poupança externa não causa aumento do investimento mas do consumo."

“Poupança externa” e crescimento: a divergência novo-desenvolvimentista

O economista afirma que a tese de que a poupança externa eleva automaticamente o investimento interno não encontra respaldo nem na teoria que defende, nem na evidência empírica que ele observa. Além do argumento teórico, ele invoca uma crítica prática: "E por uma razão prática: Não tenho conhecimento de nenhum estudo que mostre que a taxa de crescimento do país aumentasse à medida que aumentavam os investimentos das empresas multinacionais."

Bresser sintetiza sua conclusão em uma frase que resume sua divergência com a ortodoxia econômica: "A poupança externa não se soma à interna, mas a substitui." Na interpretação novo-desenvolvimentista, a entrada de capital externo tende a pressionar o câmbio, incentivar consumo e reduzir a competitividade, em vez de elevar estruturalmente a formação de capital produtivo.

Uma venda e um símbolo: o alumínio como ativo estratégico

Ao lamentar a operação envolvendo a CBA, Bresser sinaliza que, para além do caso específico, o Brasil estaria repetindo um padrão em que déficits externos recorrentes abrem espaço para a transferência de empresas relevantes para o controle estrangeiro. A frase que aparece no título — "Pois é, agora também o alumínio é deles" — funciona como síntese política e simbólica do alerta: a perda de ativos industriais estratégicos seria um desdobramento previsível de uma economia que aceita financiar seu crescimento com poupança externa e tolera o aprofundamento de remessas de renda para fora.

O argumento central do economista, ao relacionar o tema do alumínio ao déficit em conta corrente, é que o país precisa olhar para o problema de forma estrutural: enquanto o desequilíbrio externo persistir e a política econômica aceitar a lógica de dependência financeira, novas vendas de patrimônio produtivo tenderão a se repetir, e a conta das remessas seguirá crescendo.

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