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Com dívida recorde, CSN vende quase tudo e movimenta bancos de investimento

Plano de desinvestimentos de até R$ 18 bilhões avança com disputa por mandatos e ganha pressão após a Fitch colocar ratings em observação negativa

Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) (Foto: Divulgação)

247 – A CSN colocou em marcha um plano amplo de desinvestimentos que pode chegar a cerca de R$ 18 bilhões e já movimenta os principais bancos de investimento, em meio a um cenário de endividamento elevado e pressão crescente por desalavancagem. A estratégia, que envolve infraestrutura, cimentos e siderurgia, ainda não tem mandatos formais assinados, mas já desencadeou uma corrida silenciosa entre instituições financeiras para liderar a venda de ativos e estruturar soluções de crédito que atendam às exigências do controlador, Benjamin Steinbruch.

As informações foram publicadas pela coluna Pipeline, do Valor, que detalha como os bancos se posicionam para assumir diferentes frentes da operação e como o movimento ganhou urgência após a Fitch colocar os ratings da companhia em observação negativa devido ao alto endividamento.

Corrida por mandatos: infraestrutura, cimentos e siderurgia no centro

O desenho inicial das transações aponta para uma divisão por áreas. Bradesco BBI e Citi devem ficar responsáveis pela venda do pacote de infraestrutura — ferrovias, portos e terminais. Esses ativos, porém, ainda precisam ser segregados em uma holding, que então conduziria uma venda minoritária, de até 30%, preservando o controle e abrindo espaço para entrada de sócios financeiros.

Na frente de cimentos, o cenário é mais radical. Morgan Stanley e Santander são apontados como os assessores mais próximos dessa operação, que pode resultar em uma venda integral. Caso se confirme, esse movimento representaria uma mudança relevante no portfólio do grupo, que passaria a depender ainda mais de mineração e siderurgia para sustentar sua geração de caixa.

Já o segmento de siderurgia virou uma disputa à parte: ao menos três bancos avançam na briga pelo mandato, mas a estratégia, segundo o relato, ainda está sendo discutida diretamente com Steinbruch. Esse ponto indica que, além de uma venda convencional, podem estar na mesa formatos híbridos, reorganizações internas e combinações de ativos que busquem maximizar valor e reduzir riscos de execução.

O plano é vender, mas com crédito junto

O processo não se limita à venda pura e simples. De acordo com o texto, Steinbruch quer “crédito na contrapartida, para refinanciamento e caixa de subsidiárias”. Essa exigência muda o papel dos bancos na operação: além de assessorar transações, eles passam a disputar a chance de estruturar instrumentos de financiamento, renegociações e linhas que deem fôlego imediato à empresa e às controladas.

Esse tipo de engenharia financeira costuma aparecer quando a companhia precisa de liquidez e de uma reorganização do passivo, mas também deseja evitar que a venda de ativos seja interpretada como liquidação apressada. Ao atrelar desinvestimentos a crédito, a CSN busca combinar redução de alavancagem com aumento de flexibilidade financeira no curto prazo.

Desalavancagem e o fator “desapego” de Steinbruch

Segundo pessoas próximas à companhia citadas no texto, o objetivo do desinvestimento é desalavancar a holding. Elas admitem que Steinbruch “tem dificuldade em desapegar”, mas consideram que, desta vez, a operação deve avançar porque o plano partiu dele — e não de imposição direta de credores.

A diferença é relevante para o mercado. Quando um controlador decide antecipar um ajuste, o processo tende a ser desenhado com mais margem de negociação. Mas o risco de execução permanece, especialmente se houver divergência sobre preço, condições de controle e contrapartidas financeiras.

Fitch pressiona: ratings em observação negativa e projeções de alavancagem

O gatilho mais recente para acelerar decisões foi a avaliação da Fitch. Conforme relatado, a agência colocou os ratings da CSN em observação negativa, citando o alto endividamento. O texto informa que a Fitch projeta índice bruto fechado em 2025 de 5,9 vezes e líquido de 4,4 vezes. Para 2026, a projeção é que subam para 6,7 e 4,2 vezes, respectivamente.

Há ainda um dado mais duro: excluindo o segmento de mineração, a alavancagem líquida consolidada do ano passado estaria em 13,7 vezes, segundo o texto. Em outras palavras, parte relevante do equilíbrio financeiro do grupo está fortemente ancorada na mineração — e isso ajuda a explicar por que a Fitch acompanha com atenção qualquer venda que altere a diversificação e a geração de caixa.

A agência pondera que a CSN espera vender uma participação majoritária em cimento e uma minoritária no negócio de infraestrutura, o que poderia ajudar na alavancagem, mas “pode reduzir significativamente a diversificação do portfólio”. O alerta se completa com um ponto central: mineração e siderurgia representam a maior parte da geração de Ebitda.

O dilema: vender para reduzir dívida sem enfraquecer o caixa

O plano de desinvestimentos tem um objetivo claro, mas carrega um risco igualmente evidente. Vender ativos reduz dívida e melhora indicadores. Porém, dependendo do que sai do portfólio e do preço obtido, a empresa pode ficar mais exposta a ciclos de commodities e à volatilidade de demanda no aço, justamente por concentrar ainda mais o negócio em mineração e siderurgia.

A venda minoritária de infraestrutura, se bem estruturada, tende a preservar sinergias e manter parte do controle sobre um conjunto estratégico para logística do grupo. Já a eventual venda integral de cimentos, por outro lado, pode representar o maior sacrifício em termos de diversificação, acelerando o ajuste financeiro, mas alterando a composição do Ebitda e a estabilidade do portfólio.

O que vem agora e o que o mercado vai medir

Com os bancos se posicionando e os números de alavancagem no centro do debate, o mercado deve acompanhar os próximos passos em quatro frentes:

  •  A formalização dos mandatos e o alinhamento final dos assessores por operação
  •  A criação da holding de infraestrutura e a definição do perímetro de ativos e da fatia a ser vendida
  •  O formato da operação de cimentos, especialmente se haverá mesmo venda integral
  •  A amarração do pacote de crédito exigido por Steinbruch para refinanciamento e caixa das subsidiárias

A CSN, ao tentar vender “quase tudo” para enfrentar uma dívida recorde, coloca no mesmo tabuleiro desinvestimentos, reorganização societária e renegociação financeira. O desfecho dependerá de quanto a companhia conseguirá levantar, de como estruturará as contrapartidas de crédito e, sobretudo, de quanto conseguirá preservar de geração de caixa enquanto reduz a alavancagem que hoje limita suas opções estratégicas.

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