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Credores podem virar sócios da Raízen em negociação para converter R$ 16 bilhões em dívida

Plano de reestruturação prevê aporte da Shell e de Rubens Ometto, além de recuperação extrajudicial para renegociar passivo total de R$ 65 bilhões

Raízen (Foto: Reuters)

247 – Credores e acionistas da Raízen, joint venture formada por Shell e Cosan, negociam a conversão de R$ 16 bilhões em dívida em participação acionária, em uma operação que pode transformar bancos e detentores de títulos em sócios da companhia. Se houver acordo, a empresa dará um passo decisivo em sua reestruturação financeira, em meio a uma crise que levou ao protocolo de um pedido de recuperação extrajudicial na madrugada desta quarta-feira, 11.

Segundo informação publicada pela colunista Raquel Landim, do jornal Estado de S. Paulo, os controladores da companhia também farão um novo aporte de capital. Desse total, R$ 3,5 bilhões virão da Shell e R$ 500 milhões serão colocados por Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta. A intenção é reduzir de forma expressiva o endividamento da Raízen, hoje estimado em R$ 65 bilhões.

A operação em discussão é considerada a maior recuperação extrajudicial desse tipo já registrada no Brasil. Embora grupos como Oi e Odebrecht tenham reestruturado passivos maiores, aqueles processos ocorreram já na esfera judicial. No caso da Raízen, a estratégia é buscar proteção por 90 dias para suspender o pagamento de obrigações e, nesse intervalo, tentar consolidar um acordo com os credores.

Conversão de dívida em capital redesenha estrutura da empresa

O centro da negociação é a transformação de parte relevante da dívida em capital. Na prática, isso significa que credores poderão trocar créditos que têm a receber por participação societária na empresa. Se a operação for bem-sucedida, a composição acionária da Raízen poderá mudar de forma significativa.

Ainda não está claro, porém, qual será o desenho final do controle da companhia após a reestruturação. Também permanece indefinido se o BTG, sócio da Cosan, será diluído no processo ou se acabará realizando algum aporte ao fim das negociações.

O BTG, de acordo com a apuração, não participa do aporte neste momento. Essa foi uma das fórmulas encontradas para facilitar a adesão dos credores bancários ao plano. Como não é credor da Raízen, mas sócio da Cosan, o banco ficou fora desse primeiro movimento de capitalização.

Shell resiste a pressão por aporte maior

Um dos pontos centrais da crise foi a expectativa, compartilhada por bancos credores, pela Cosan e até pelo Palácio do Planalto, de que a Shell assumisse um papel mais robusto no salvamento da Raízen. Isso, no entanto, não ocorreu.

A Shell se dispôs a investir R$ 3,5 bilhões, valor considerado insuficiente por interlocutores das negociações. Nas discussões iniciais, havia pressão para que a multinacional elevasse esse montante para R$ 20 bilhões. A avaliação entre participantes das conversas era de que o valor aceito pela empresa representava apenas uma contribuição limitada diante da dimensão do passivo.

Pessoas próximas às tratativas afirmam que a Shell não coloca hoje os segmentos de energia e distribuição de combustíveis entre suas prioridades estratégicas. O foco da companhia estaria concentrado na extração de petróleo e na geração de retorno para seus acionistas.

Esse impasse levou, inclusive, a uma reunião no Palácio do Planalto com a presença de Rubens Ometto, representantes da Shell, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O objetivo do encontro era reforçar à empresa a relevância do mercado brasileiro e tentar sensibilizá-la para uma participação mais ampla no socorro à Raízen. Ainda assim, a companhia manteve sua posição.

Bancos apoiam avanço, mas bondholders ainda são obstáculo

A dívida da Raízen está distribuída de forma relativamente equilibrada entre bondholders estrangeiros e grandes bancos nacionais e internacionais. Entre os credores estão cerca de 20 instituições financeiras, como Itaú, Santander, Bradesco, Bank of America, Citibank e BNP Paribas.

Em apenas uma semana de negociações, o grupo de advogados liderado pelo escritório E.Munhoz conseguiu a aprovação de detentores de 40% da dívida, incluindo praticamente todos os bancos envolvidos. O principal desafio agora é reunir os bondholders, cuja base é mais pulverizada e, por isso, mais difícil de coordenar.

Para que o plano de reestruturação seja aprovado, será necessário obter o apoio de 50% dos credores mais um. Esse quórum é decisivo para a homologação do acordo e para o avanço da recuperação extrajudicial.

Separação de negócios fica fora do plano, por enquanto

Apesar das especulações em torno de uma eventual cisão da companhia, a separação entre os negócios de energia e de distribuição de combustíveis — os dois pilares centrais da Raízen — está, neste momento, fora da mesa.

Segundo a apuração, a hipótese foi descartada nas conversas atuais, embora possa voltar a ser discutida no futuro, caso passe a fazer sentido do ponto de vista estratégico. Por ora, o foco está concentrado na renegociação do passivo e na preservação da estrutura operacional da empresa.

Esse ponto é relevante porque indica que os controladores ainda enxergam valor na manutenção integrada dos ativos da companhia, mesmo em um contexto de forte pressão financeira. A prioridade imediata é estabilizar o caixa, reduzir a dívida e reconstruir a confiança do mercado.

Crise da Raízen expõe limites do modelo de expansão

A crise enfrentada pela Raízen escancara a dimensão dos desafios financeiros de uma das maiores empresas do setor de energia e combustíveis do país. Com passivo de R$ 65 bilhões, necessidade urgente de renegociação e dependência de um acordo complexo com bancos e investidores estrangeiros, a companhia entra em uma fase decisiva.

A eventual conversão de R$ 16 bilhões em capital pode aliviar de forma relevante sua estrutura de endividamento, mas também tende a alterar as relações de poder dentro da empresa. Ao mesmo tempo, o aporte limitado da Shell evidencia que, mesmo em uma operação de grande peso estratégico no Brasil, os interesses globais da multinacional prevalecem sobre as pressões políticas e financeiras locais.

O resultado das negociações deverá definir não apenas o futuro societário da Raízen, mas também o grau de confiança do mercado na capacidade de grandes grupos empresariais de administrar reestruturações bilionárias sem recorrer à recuperação judicial clássica.

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