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Deputado Danilo Forte tem sido peça central de Araripe no lobby contra leilão estratégico para o País

Parlamentar atuou em Brasília em favor da Casa dos Ventos, acionou TCU e Cade contra o leilão que protege o Brasil contra riscos de apagões

Deputado Danilo Forte tem sido peça central de Araripe no lobby contra leilão estratégico para o País (Foto: Brasil 247 / Câmara dos Deputados)
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247 – O deputado federal Danilo Forte (PP-CE) tornou-se peça central da ofensiva política e institucional articulada em Brasília para tentar barrar o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026, considerado estratégico pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para garantir estabilidade ao sistema elétrico brasileiro e evitar riscos de apagões nos próximos anos. Nos bastidores do setor energético, a avaliação é de que o principal interessado na suspensão do certame é o empresário Mário Araripe, fundador da Casa dos Ventos e hoje o homem mais rico do Nordeste segundo a Forbes. A suspensão do leilão também atende aos interesses da multinacional francesa TotalEnergies, que se tornou sócia de Araripe.

Levantamentos sobre a atuação parlamentar mostram que Danilo Forte dedicou mais articulações em Brasília aos interesses de Araripe do que aos prefeitos de seu próprio estado. 

Desde o início do governo Lula, o deputado agendou 19 reuniões com ministros e secretários para atender demandas da Casa dos Ventos e de Mário Araripe. Foi exatamente o mesmo número de encontros que organizou, somando todos os prefeitos de 16 municípios cearenses — apesar de o Ceará possuir 184 cidades.

Segundo relatos de bastidores, Danilo Forte esteve presente em todas as reuniões de Araripe em Brasília. Entre os temas tratados estavam projetos ligados ao setor elétrico, expansão de renováveis, datacenters e medidas regulatórias de interesse direto da Casa dos Ventos.

Governo vê LRCAP como estratégico para evitar apagões

O embate ganhou força porque o governo Lula considera o LRCAP 2026 essencial para ampliar a oferta de potência firme no Sistema Interligado Nacional (SIN). O Ministério de Minas e Energia e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) avaliam que o Brasil precisa contratar rapidamente fontes capazes de garantir estabilidade em horários críticos, especialmente no início da noite, quando a geração solar desaparece abruptamente e a produção eólica sofre oscilações.

A avaliação técnica dentro do governo é de que a ausência de expansão da capacidade firme poderia elevar significativamente os riscos de desequilíbrios no abastecimento e até de apagões em períodos de pico de consumo.

Apesar disso, Danilo Forte se tornou o principal articulador, dentro do Congresso, da ofensiva contra o certame. O parlamentar acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), apontando supostas irregularidades no leilão.

Nos últimos dias, a ofensiva ganhou novo capítulo quando a advogada Fernanda Cristinne Rocha de Paula, esposa do deputado, protocolou ação na 6ª Vara Federal Cível do Distrito Federal pedindo a suspensão do leilão e a paralisação da homologação dos contratos em nome da Abraenergias.

Relação antiga com Mário Araripe

A proximidade entre Danilo Forte e Mário Araripe vem de longa data. Em 1º de outubro de 2018, César Araújo Alencar Araripe transferiu eletronicamente R$ 40 mil para a campanha eleitoral do deputado. O recibo eleitoral tem o número 045550600000CE000015E — Documento 4888584 — e consta nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

César Araripe é irmão de Mário Araújo Araripe, controlador da Casa dos Ventos e principal beneficiário, segundo críticos do setor, dos subsídios bilionários incluídos por Danilo Forte na MP 1118, editada em 2022.

A medida provisória tratava originalmente de combustíveis, mas o deputado inseriu dispositivos que ampliaram benefícios ao setor renovável. O custo acabou sendo transferido para os consumidores brasileiros por meio das tarifas de energia elétrica.

Subsídios bilionários pagos na conta de luz

A atuação de Danilo Forte em favor do setor eólico e da Casa dos Ventos não se restringiu ao debate do LRCAP. O parlamentar também se tornou um dos principais defensores do PDL 365, proposta que elimina o benefício tarifário concedido a moradores de áreas próximas a empreendimentos de geração de energia.

Na prática, críticos afirmam que a medida pode aumentar custos para consumidores do Ceará e do Nordeste enquanto amplia vantagens econômicas para grandes geradores da região.

Outro ponto sensível ocorreu durante a tramitação da chamada MP do Setor Elétrico, a MP 1304. Segundos antes da votação, Danilo Forte conseguiu incluir emenda prevendo amplo ressarcimento financeiro para casos de curtailment — situação em que parques renováveis sofrem cortes compulsórios de geração devido ao excesso de oferta de energia no sistema.

Segundo cálculos do Ministério de Minas e Energia, a medida pode gerar impacto de aproximadamente R$ 6 bilhões por ano, custo que acabaria sendo distribuído entre todos os consumidores brasileiros nas contas de luz.

Benefícios à geração centralizada

Danilo Forte também relatou a MP 1212, que prorrogou por 36 meses descontos nas tarifas de transmissão para geração centralizada — exatamente o principal modelo de negócios da Casa dos Ventos.

Com a prorrogação do benefício, empresas de energia renovável mantiveram descontos relevantes nas tarifas do sistema elétrico. Segundo estimativas do setor, apenas em 2025 o impacto superou R$ 10 bilhões pagos pelos consumidores brasileiros nas tarifas de energia.

MP dos Data Centers beneficiou Casa dos Ventos

Outro episódio apontado por agentes do setor ocorreu durante a tramitação da MP 1307, conhecida como MP dos Data Centers. A medida abriu caminho para instalação de um centro ligado à rede TikTok no Porto de Pecém, no Ceará.

Durante a discussão do texto, Danilo Forte inseriu emenda determinando que a energia consumida pelo empreendimento viesse exclusivamente de usinas novas. Segundo críticos da proposta, isso teria permitido que a Casa dos Ventos se tornasse a única empresa capaz de atender imediatamente às exigências do projeto.

Disputa energética e interesses bilionários

Nos bastidores do governo e do setor elétrico, cresce a percepção de que a ofensiva contra o LRCAP extrapola o debate técnico sobre a matriz energética brasileira. A avaliação é de que a disputa envolve interesses econômicos bilionários ligados ao avanço das renováveis, aos impactos do curtailment e ao futuro mercado de baterias no País.

Enquanto o governo Lula defende o leilão como peça central para garantir segurança energética e expansão estável da oferta de eletricidade, grupos ligados ao setor renovável tentam reorientar a política energética para priorizar soluções associadas ao armazenamento e à compensação financeira dos cortes de geração.

Nesse cenário, Danilo Forte tornou-se o principal operador político de uma disputa que hoje mobiliza Congresso, TCU, Cade e a Justiça Federal.

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