Relação da Casa dos Ventos com a TotalEnergies ajuda a explicar ofensiva contra leilão de energia estratégico para o País
Governo Lula considera o certame essencial para garantir a expansão segura da oferta de energia no País, mas vem sendo alvo de um poderoso lobby privado
247 – A ofensiva privada contra o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026, liderada pelo bilionário cearense Mário Araripe, ganhou dimensão estratégica dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Integrantes do setor elétrico avaliam que a disputa envolve não apenas divergências sobre a matriz energética brasileira, mas também interesses bilionários ligados ao curtailment — o corte compulsório da geração renovável — e à relação entre a Casa dos Ventos, de Araripe, e a gigante francesa TotalEnergies.
Para o governo federal, a manutenção do leilão é considerada fundamental para garantir a expansão segura da oferta de energia no Brasil e evitar riscos futuros de apagões no Sistema Interligado Nacional (SIN). O Ministério de Minas e Energia e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sustentam que o País precisa ampliar rapidamente a contratação de potência firme e despachável para assegurar estabilidade ao sistema elétrico nos próximos anos.
A avaliação técnica é de que a forte expansão de fontes intermitentes — como solar e eólica — elevou os desafios operacionais do sistema. Em determinados momentos do dia, principalmente no início da noite, a geração solar desaparece abruptamente e a produção eólica também pode sofrer oscilações. Sem fontes capazes de entrar rapidamente em operação para suprir a demanda, cresce o risco de desequilíbrios no abastecimento.
Por isso, o governo considera o LRCAP peça central da estratégia energética nacional. A contratação de usinas térmicas e outras fontes firmes é vista como necessária para garantir segurança energética durante a transição para uma matriz cada vez mais renovável.
O que é curtailment
O debate ocorre justamente no momento em que o setor renovável enfrenta os efeitos crescentes do chamado curtailment. O mecanismo ocorre quando o ONS determina cortes obrigatórios na geração de energia eólica e solar devido ao excesso de oferta ou limitações na capacidade de transmissão.
Na prática, usinas renováveis deixam de produzir energia mesmo havendo vento e sol disponíveis. O fenômeno se intensificou nos últimos anos com a rápida expansão da geração renovável, especialmente no Nordeste, onde há momentos em que o sistema não consegue absorver toda a energia produzida.
Os cortes passaram a afetar diretamente a rentabilidade de empresas do setor, reduzindo receitas e pressionando investidores.
Casa dos Ventos e TotalEnergies no centro da disputa
É nesse contexto que cresce a pressão de grupos ligados às renováveis pela expansão do armazenamento por baterias, considerado uma solução para armazenar energia excedente e reduzir os impactos do curtailment.
Segundo fontes do setor elétrico, a relação entre a Casa dos Ventos e a TotalEnergies ajuda a explicar parte da ofensiva contra o LRCAP 2026. Em 2022, a companhia francesa adquiriu participação em ativos da empresa de Mário Araripe em uma operação de US$ 550 milhões, correspondente a 34% da companhia, com cláusulas de earn-out vinculadas ao desempenho futuro dos projetos.
O modelo prevê que parte do valor final da operação dependa da evolução e da rentabilidade dos ativos renováveis. Pelo acordo, a TotalEnergies também poderá ampliar sua participação na empresa ao longo dos anos.
Com o avanço do curtailment, porém, fontes do setor afirmam que os resultados financeiros dos ativos adquiridos passaram a sofrer forte pressão. A avaliação nos bastidores é de que reduzir os prejuízos causados pelos cortes de geração tornou-se prioridade estratégica para a companhia francesa e para a Casa dos Ventos.
Lobby em favor do leilão de baterias
Executivos da própria TotalEnergies já declararam publicamente que baterias são consideradas essenciais para reduzir os efeitos do curtailment no Brasil. A empresa também confirmou interesse em disputar, ao lado da Casa dos Ventos, o futuro leilão de armazenamento previsto pelo Ministério de Minas e Energia para 2026.
Nesse ambiente, o deputado Danilo Forte (PP-CE), aliado histórico do setor eólico e defensor da expansão de baterias, passou a intensificar críticas ao LRCAP após o certame, atuando no lobby contrário a um projeto estratégico do Ministério de Minas e Energia.
Nos bastidores do setor elétrico, a atuação do parlamentar é vista como convergente com os interesses econômicos da Casa dos Ventos e de agentes ligados às renováveis. A percepção é de que há uma tentativa de enfraquecer ou atrasar a consolidação do leilão de capacidade para acelerar soluções mais favoráveis ao setor de baterias.
Governo vê risco de insegurança energética
Apesar de defender o avanço das baterias e reconhecer seu papel no futuro da transição energética, o governo Lula sustenta que o Brasil ainda necessita ampliar rapidamente a oferta de potência firme para evitar vulnerabilidades no abastecimento.
A preocupação ganhou força diante do crescimento acelerado da demanda por energia, da eletrificação da economia e da dependência crescente de fontes intermitentes. Técnicos do setor avaliam que a ausência de contratação de capacidade adicional poderia elevar o risco de déficits de potência e até de apagões em horários críticos.
Por isso, a confirmação do LRCAP 2026 passou a ser tratada como prioridade estratégica pelo governo federal. A recente decisão da Justiça Federal que negou pedido de suspensão do leilão foi interpretada dentro do Planalto e do Ministério de Minas e Energia como uma vitória importante para a segurança energética brasileira e para a preservação da previsibilidade regulatória do setor elétrico. Esta vitória, no entanto, não impediu outros movimentos junto a órgão como o Tribunal de Contas da União, para tentar evitar a concretização do leilão.
A avaliação no governo é de que o Brasil precisa equilibrar a expansão das renováveis com a garantia de estabilidade operacional do sistema. Nesse cenário, o embate em torno do LRCAP extrapola o debate técnico e se transforma em uma disputa bilionária sobre o futuro da matriz energética nacional.



