Endividamento em Minas pressiona orçamento das famílias
Em Belo Horizonte, 88,5% das famílias tinham algum tipo de dívida em abril, segundo pesquisa analisada pela Fecomércio-MG
247 - O endividamento em Minas Gerais segue em nível elevado e pressiona o orçamento das famílias, especialmente em Belo Horizonte, onde 88,5% dos lares declararam possuir algum tipo de dívida em abril de 2026. O dado faz parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), analisada pela Fecomércio-MG, segundo o Metrópoles.
Embora o percentual tenha recuado 1 ponto percentual em relação a março, o patamar ainda é considerado muito alto e revela a dificuldade das famílias para equilibrar renda, consumo e compromissos financeiros. Na capital mineira, o cartão de crédito aparece como o principal instrumento associado ao endividamento, presente em 97% dos casos.
Para a economista da Fecomércio-MG Gabriela Martins, o dado indica uma mudança relevante no uso do cartão pelas famílias. “O cartão de crédito deixou de ser utilizado apenas para compras pontuais e passou a funcionar, em muitos casos, como complemento da renda mensal. Isso aumenta o risco de descontrole financeiro, principalmente em um ambiente de juros elevados”.
Inadimplência atinge 63% das famílias em Belo Horizonte
O cenário se torna mais preocupante quando se observa a inadimplência. Em Belo Horizonte, 63% das famílias afirmaram ter contas em atraso, alta de 0,4 ponto percentual na comparação com o mês anterior.
A situação é mais grave entre os lares com menor renda. Nas famílias que recebem até dez salários mínimos, a inadimplência chega a 65,1%. Entre aquelas com renda superior, o índice é de 50,3%.
O tempo de atraso também acende alerta. Entre os inadimplentes, 43,9% disseram estar com contas vencidas há mais de 90 dias. O atraso médio registrado na capital mineira é de 60,4 dias, o que indica que uma parcela expressiva dos consumidores permanece por longos períodos sem conseguir regularizar seus compromissos financeiros.
Esse quadro limita o acesso a novas linhas de crédito, amplia o risco de restrições ao nome do consumidor e aprofunda a pressão sobre o orçamento doméstico.
Dívidas comprometem renda por mais de oito meses
Em média, as famílias de Belo Horizonte terão a renda comprometida por 8,1 meses em razão das dívidas já assumidas. Em 83,2% dos casos, os débitos representam mais de 10% da renda mensal familiar.
O impacto é ainda mais severo em parte dos lares. Em 28,2% das famílias, as parcelas consomem mais de 50% do orçamento mensal, o que reduz a margem para despesas básicas e dificulta a reorganização financeira.
Apesar do cenário adverso, a pesquisa aponta um sinal de alívio. O percentual de consumidores que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas caiu para 23,6%. Ainda assim, o índice permanece elevado entre as famílias de menor renda, chegando a 25,1%.
Brasil registra quarto recorde consecutivo de endividamento
A situação observada em Belo Horizonte acompanha a tendência nacional. Segundo a PEIC da CNC, o endividamento das famílias brasileiras chegou a 80,9% em abril de 2026, marcando o quarto recorde consecutivo.
Em março, o índice havia sido de 80,4%. Em abril de 2025, estava em 77,6%, o que demonstra avanço consistente do endividamento no país ao longo de um ano.
A inadimplência nacional também atingiu nível recorde. Em abril, o Brasil registrava 83,3 milhões de pessoas negativadas, o maior número da série histórica do Serasa. A maior concentração está entre consumidores de 41 a 60 anos, que representam 35,6% do total. Em seguida aparece a faixa de 26 a 40 anos, com 33,4%.
No mesmo mês, o valor médio dos acordos de renegociação fechados foi de R$ 804. Ao todo, mais de R$ 10,9 bilhões em descontos foram concedidos. Ainda assim, seguem disponíveis mais de 655 milhões de ofertas de negociação, que somam mais de R$ 1 trilhão em dívidas passíveis de renegociação.
Juros altos e custo de vida pressionam consumidores
Economistas da CNC apontam que a combinação de juros elevados, aumento nos preços dos combustíveis, especialmente o diesel, e incertezas internacionais, como o conflito no Oriente Médio, tem contribuído para pressionar o custo de vida.
Nesse contexto, muitas famílias passam a recorrer ao crédito não apenas para compras pontuais, mas também para despesas essenciais, como alimentação e transporte. O resultado é um endividamento mais disseminado e mais difícil de administrar.
O avanço das dívidas ocorre em todas as faixas de renda no país. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento subiu para 83,6%. Já entre aquelas que recebem mais de dez salários mínimos, o percentual chegou a 70,8%.
A CNC avalia que, embora o endividamento continue crescendo, a inadimplência nacional permaneceu relativamente estável em abril, em 29,7%. O dado sugere que parte das famílias ainda consegue manter os pagamentos em dia, mas em uma situação de equilíbrio frágil.
Planejamento financeiro ganha importância em cenário de crédito caro
Diante do peso das dívidas e da perspectiva de juros ainda elevados por mais tempo, Gabriela Martins afirma que o planejamento financeiro é decisivo para reduzir os impactos da inadimplência e preservar a capacidade de consumo das famílias.
“O consumidor precisa priorizar o equilíbrio do orçamento, renegociar dívidas sempre que possível e evitar assumir novos compromissos sem previsibilidade de pagamento. O controle financeiro é essencial”, afirmou.
Especialistas avaliam que o ritmo de queda da Selic deve ser mais lento do que o esperado inicialmente, o que tende a manter o crédito caro e prolongar o ciclo de endividamento elevado entre as famílias brasileiras.



