Famílias comprometem 29% da renda com dívidas
Dados do Banco Central mostram maior comprometimento da renda em 20 anos
247 - O avanço do endividamento das famílias brasileiras passou a acender um sinal de alerta em diferentes setores da economia. Mesmo com o desemprego em níveis historicamente baixos e a inflação sob controle até o momento, o peso das dívidas sobre a renda dos consumidores cresce de forma consistente.
De acordo com a Folha de São Paulo, dados do Banco Central apontam que as famílias passaram a comprometer 29% de sua renda com o pagamento de dívidas desde outubro do ano passado — o maior patamar registrado em pelo menos duas décadas.
Endividamento elevado e avanço da inadimplência
Do total comprometido, 10,38% correspondem apenas aos juros, enquanto 18,81% são destinados ao pagamento do principal. O cenário tem levado a um aumento nos atrasos: a inadimplência chegou a 6,9% entre o fim de 2025 e janeiro deste ano, acima dos 5,6% observados no mesmo período anterior.
Especialistas apontam que o crescimento de modalidades de crédito mais arriscadas tem sido um dos principais fatores por trás desse movimento, especialmente entre consumidores de baixa renda.
Crédito caro impulsiona dívidas
Entre as linhas mais problemáticas estão o rotativo do cartão de crédito, com inadimplência de 63,5%, o cheque especial (16,5%) e o parcelamento da fatura (13%). Essas modalidades também apresentam juros elevados, chegando a 14,81% ao mês no caso do rotativo.
O volume de crédito nessas categorias segue em expansão. O saldo do rotativo cresceu 31,2% em um ano, enquanto o parcelado avançou 18,3% e o cheque especial, 13,8%. No geral, o crédito com recursos livres teve alta de 12,4%.
Segundo Everton Gonçalves, diretor da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), a mudança no perfil das operações contribui para o aumento dos atrasos. “Há um crescimento maior do que a média nas operações de crédito de maior risco. Com isso, se nota uma mudança na composição da carteira de crédito total, o que pesa na inadimplência”, afirmou.
Impacto maior sobre a baixa renda
O avanço da inadimplência é mais intenso entre as famílias de menor renda. Levantamento da Febraban indica que consumidores que recebem até três salários mínimos registraram taxa de atrasos acima de 90 dias de 7,5%.
Para Luiz Fernando Castelli, gerente de economia da entidade, a vulnerabilidade financeira desse grupo é maior diante de imprevistos. “O orçamento é mais apertado. Qualquer imprevisto financeiro coloca a pessoa em dificuldades com as quais não consegue lidar”, disse.
O professor da FGV Rafael Schiozer destaca que o acesso ampliado ao crédito trouxe benefícios, mas também riscos. “É positivo que pessoas com mais necessidade de crédito tenham acesso a ele. Mas também há riscos no endividamento excessivo da baixa renda, que pode ter impacto sobre o consumo no longo prazo”, afirmou.
Mudanças regulatórias e transparência
Parte da alta recente da inadimplência também está associada a mudanças nas regras do Banco Central. Desde janeiro de 2025, os bancos passaram a manter por mais tempo em seus balanços créditos inadimplentes antes de reconhecer prejuízos.
Para Isabela Tavares, economista da consultoria Tendências, a medida melhora a leitura do cenário financeiro. “Essa resolução veio para dar maior clareza sobre as finanças dos brasileiros. Antes a inadimplência saía mais rápido das estatísticas, mas agora temos noção do quanto as pessoas estão em situação financeira delicada”, explicou.
Reflexos no varejo e na economia
O nível elevado de endividamento já impacta o comércio. Empresas do varejo têm adotado postura mais cautelosa na concessão de crédito. O presidente da Casas Bahia, Renato Franklin, afirmou que a companhia está mais rigorosa nas vendas parceladas. “É muito fácil você se empolgar com o cenário de desemprego em queda e aumento da renda real, querer acelerar demais e se endividar de novo”, declarou.
Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers mostram que o setor cresceu apenas 1,2% em termos nominais em 2025, somando R$ 200,9 bilhões — desempenho inferior à inflação.
Efeitos no cenário político
O aumento do endividamento também influencia a percepção econômica da população em um ano eleitoral. Pesquisa Datafolha indica piora na avaliação do cenário: 46% dos brasileiros consideram que a situação econômica do país se deteriorou, ante 41% em dezembro.
Além disso, 33% afirmam que a própria condição financeira piorou nos últimos meses, frente a 26% anteriormente. Para o cientista político Rafael Cortez, o fenômeno revela um descompasso entre indicadores econômicos e percepção social.
“Vemos a renda crescendo e a menor taxa de desemprego da história, mas isso não se traduz em popularidade para o governo. Como se transforma renda em bem estar? Se a renda está direcionada ao consumo é uma coisa, mas, se for para quitar dívidas, é outro cenário”, analisou.


