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Lula diz que privatização da BR Distribuidora tirou do Brasil instrumento para conter alta dos combustíveis

Em Betim, presidente anuncia R$ 3,8 bilhões para a Regap, critica venda da distribuidora e cobra da Petrobras uma política de estoques reguladores

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul (MG) (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (20), em Betim (MG), que a privatização da BR Distribuidora retirou do Brasil um instrumento decisivo para conter a alta dos preços dos combustíveis ao consumidor. A declaração foi feita durante cerimônia de anúncio de novos investimentos da Petrobras na Refinaria Gabriel Passos (Regap). As informações foram publicadas originalmente pela Agência Gov, com informações do Planalto.

Ao comentar o impacto da venda do controle acionário da BR Distribuidora, concluída em julho de 2019, Lula sustentou que o País perdeu capacidade de fazer com que a política de preços da Petrobras chegasse de fato aos postos. "Se a BR Distribuidora estivesse na nossa mão, haveria a garantia de que o preço da Petrobras chegaria na bomba, para o consumidor. O preço do etanol, da gasolina ou do diesel. Agora, ganha o distribuidor [privado] e o consumidor fica chupando o dedo", disse o presidente.

A fala foi feita no contexto do anúncio de R$ 3,8 bilhões em investimentos para ampliação da produção da Regap, unidade estratégica da Petrobras em Minas Gerais. No estado, o plano total de investimentos da companhia prevê R$ 9 bilhões. O pacote, segundo o governo e a estatal, deverá reforçar a capacidade de refino, estimular a transição energética e gerar empregos.

Crítica à privatização e defesa do papel estatal

O discurso de Lula retomou uma crítica central de seu governo à política de desestatização adotada na área de energia em administrações anteriores. Para o presidente, o argumento de que empresas públicas não seriam rentáveis não se sustenta diante da realidade do setor.

"Se não fosse rentável, empresário algum ia comprar", afirmou Lula, ao defender a presença do Estado em segmentos estratégicos da economia. Ele também ressaltou que a Petrobras liderou, no ano passado, a lista das empresas mais rentáveis do Brasil, entre públicas e privadas.

A crítica à venda da BR Distribuidora também foi reforçada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que falou antes do presidente. Segundo ele, a operação retirou do poder público uma ferramenta relevante de abastecimento e moderação de preços.

"Se não fosse o crime de lesa-pátria da venda da BR Distribuidora, hoje teríamos condições de dar suprimento e adotar uma política de preços mais confortáveis", disse Silveira.

De acordo com o ministro, a ausência de uma distribuidora sob controle estatal obriga o Governo do Brasil a recorrer com mais intensidade a outros mecanismos, como fiscalização mais rígida sobre a rede privada de distribuição, aplicação de multas e desoneração tributária, a exemplo da retirada de impostos federais sobre o diesel.

Estoques reguladores entram no centro da discussão

Além de atacar a privatização da BR Distribuidora, Lula aproveitou a cerimônia para lançar um novo desafio à Petrobras: a formulação de uma política de estoques reguladores de combustíveis. A proposta surge em meio à pressão internacional sobre os preços do petróleo, provocada pela guerra no Oriente Médio.

Para o presidente, o Brasil precisa construir instrumentos permanentes de proteção diante das oscilações geopolíticas e do mercado externo. Ao comparar a ideia dos estoques reguladores às reservas internacionais acumuladas pelo País, Lula associou soberania à capacidade de antecipar crises e preservar margens de manobra.

"Soberano é quando você é dono do seu nariz", declarou, ao mencionar o tema e sugerir que a presidenta da Petrobras, Magda Chambriard, trabalhe numa estratégia para enfrentar momentos de forte volatilidade internacional.

A defesa de estoques reguladores reforça uma linha de raciocínio mais ampla do governo: a de que o setor de energia não pode ser tratado apenas sob a lógica financeira de curto prazo, mas como um dos pilares da soberania nacional, da estabilidade econômica e da proteção social.

Regap receberá aportes bilionários e deve gerar empregos

No campo operacional, o principal anúncio do evento foi o investimento de R$ 3,8 bilhões na Regap, no período do atual Plano de Negócios da Petrobras para 2026-2030. Segundo a companhia, as ações na refinaria devem gerar em torno de 8 mil postos de trabalho. Em todo o estado de Minas Gerais, a previsão é de 36 mil empregos vinculados aos investimentos da Petrobras.

As iniciativas anunciadas incluem ampliação da capacidade de produção, modernização de processos e reforço da confiabilidade operacional da unidade. A estratégia da estatal busca combinar aumento da oferta de combustíveis com ações de descarbonização e introdução de fontes mais limpas de energia nas operações industriais.

Com capacidade atual de processamento de 166 mil barris de petróleo por dia, a Regap responde por cerca de 9% da produção de derivados da Petrobras. Em 2026, a refinaria já iniciou as obras de um projeto de aumento de capacidade de 25 mil barris por dia, com entrada em operação prevista para 2027.

Além disso, já está em estudo uma ampliação adicional de 59 mil barris por dia. Se esse segundo movimento se confirmar, a capacidade atual da unidade poderá ser elevada em 50%, consolidando a importância da refinaria para o abastecimento nacional e para a economia mineira.

Energia limpa e transição energética

Um dos marcos do anúncio foi a entrada em operação da primeira usina fotovoltaica instalada em uma refinaria da Petrobras. Com investimento de R$ 63 milhões, o projeto foi implantado na Regap e conta com cerca de 20 mil placas solares distribuídas em 24 hectares.

A capacidade de geração é de 13,3 mil quilowatts, volume suficiente para atender ao consumo aproximado de 10 mil residências. A expectativa da Petrobras é reduzir em 20% o gasto de energia da refinaria com a entrada em funcionamento da usina.

A estatal também projeta ganhos ambientais expressivos. Com a redução do uso de energia elétrica gerada por combustível fóssil, a estimativa é evitar a emissão de cerca de 8 mil toneladas anuais de CO2. O projeto foi financiado com recursos do Fundo de Descarbonização da Petrobras, criado para apoiar iniciativas de redução de emissões nas operações da companhia.

O modelo adotado em Betim deverá ser replicado em outras unidades. As refinarias Abreu e Lima (Rnest), em Ipojuca (PE), e de Paulínia (Replan), em São Paulo, já estão com usinas fotovoltaicas em construção.

SAF, Diesel R e novos combustíveis

A Regap também vem sendo preparada para responder às novas exigências da transição energética e da legislação brasileira voltada ao setor. A refinaria está em processo de implantação da produção de combustível sustentável de aviação, o chamado SAF, com o objetivo de atender à Lei do Combustível do Futuro e às exigências da aviação civil internacional.

Paralelamente, a unidade já concluiu adequações operacionais e iniciou a produção de Diesel R, combustível com conteúdo renovável. A medida, segundo a Petrobras, reforça o compromisso da empresa com alternativas de menor impacto ambiental e com a modernização de sua matriz industrial.

O projeto energético da refinaria também prevê a substituição da queima de gás natural por energia limpa, o que amplia o peso da Regap dentro da estratégia de descarbonização da companhia. Após ter sido colocada em processo de desinvestimento no governo anterior, a unidade passa agora a receber novos aportes voltados à redução de emissões e à expansão de combustíveis mais sustentáveis.

Entre as frentes anunciadas está ainda o fortalecimento da Petrobras Biocombustível, com foco na produção de biodiesel 90% renovável, além de outras iniciativas de modernização e expansão com impacto regional.

Impacto econômico em Minas Gerais

Ao investir na ampliação da capacidade produtiva da Regap, a Petrobras também aprofunda sua presença econômica em Minas Gerais. A companhia informou que a refinaria movimenta uma ampla rede de fornecedores e contratos no estado, o que deve ser impulsionado com os novos aportes.

Segundo os dados apresentados, são 16 mil fornecedores cadastrados, 480 contratos ativos e cerca de R$ 28 bilhões contratados. O efeito esperado é o fortalecimento das cadeias produtivas locais, a geração de empregos qualificados e o aumento da renda em diversos segmentos associados à indústria de petróleo, energia e serviços.

Nesse cenário, o evento em Betim serviu ao mesmo tempo como vitrine de investimentos e como peça política de um debate maior sobre o papel da Petrobras e do Estado brasileiro na garantia do abastecimento, da soberania energética e da moderação dos preços ao consumidor.

Ao relacionar a venda da BR Distribuidora à perda de capacidade de intervenção sobre os preços, Lula recolocou no centro da agenda uma discussão que ultrapassa a gestão empresarial de ativos: a de como o Brasil pode usar suas empresas estratégicas para proteger a população em momentos de crise internacional e instabilidade nos mercados de energia.

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