Holanda avança com semana de quatro dias e desafia cultura do trabalho intenso
Modelo mantém salários e reduz carga semanal para 32 horas. Economistas alertam para desafios de produtividade e envelhecimento da população
247 - A Holanda vem reduzindo silenciosamente sua jornada de trabalho e consolidando a semana de quatro dias como prática comum em diversas empresas, sem necessariamente cortar salários ou aumentar a carga diária. O modelo, já adotado inclusive por grandes companhias, ganhou força com o argumento de melhorar a qualidade de vida, elevar a produtividade e reduzir o desgaste físico e mental dos trabalhadores, relata a BBC News Brasil.
O país já se tornou referência global ao combinar uma das menores jornadas semanais da Europa com altos indicadores econômicos, embora especialistas apontem limites para a sustentabilidade do sistema diante do envelhecimento populacional e da estagnação da produtividade.
Uma decisão para não perder o tempo com os filhos
Um exemplo citado é a empresa Positivity Branding, sediada em Amsterdã, que adotou a semana de quatro dias em 2019. O cofundador Gavin Arm explica que a mudança foi motivada por uma reflexão sobre o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
"Seus filhos só são pequenos uma vez", afirmou Arm. Ele acrescenta que muitos empreendedores se dedicam totalmente ao trabalho para garantir estabilidade à família, mas acabam percebendo tarde demais o custo emocional dessa escolha: "Mas depois, quando elas ficam mais velhas, olham para trás e dizem 'eu perdi essa parte da vida deles', e isso é terrível. Nós não queremos ser assim".
A empresa, que presta consultoria em identidade de marca e design de embalagens, manteve a carga semanal em 32 horas, distribuídas em quatro dias de trabalho de oito horas. Segundo o relato, os funcionários não tiveram redução salarial nem precisaram compensar o dia livre com jornadas mais longas.
"Trabalhar de forma mais inteligente"
O cofundador Bert de Wit também defendeu que a proposta não significa produzir menos, mas reorganizar prioridades. "O equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho esteve no centro da decisão", disse. Ele rebate a crítica de que funcionários trabalham menos pelo mesmo salário e resume o conceito: "Trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa".
De Wit ainda aponta que o maior desafio está na transformação cultural. "Em outros países, as pessoas passam muito tempo no trabalho, mas isso não significa que trabalhem muito. Mudar a cultura e a mentalidade é o maior desafio", afirmou.
Empresas relatam queda em licenças médicas e maior retenção
O avanço da semana de quatro dias também aparece no setor de tecnologia. A diretora de gestão de pessoas da empresa holandesa de software Nmbrs, Marieke Pepers, relata que passou a tirar folga toda sexta-feira e que isso trouxe ganhos pessoais e corporativos. "Gostamos de ter tempo para liberar a mente. Tenho minhas melhores ideias quando passeio com o meu cachorro", disse Pepers. Ela complementa: "Ninguém espera nada de mim nesse dia, eu me inspiro, fico melhor e a empresa também".
De acordo com Pepers, a experiência trouxe resultados concretos. "As licenças médicas diminuíram e a retenção aumentou", afirmou. Ainda assim, ela admite que houve resistência inicial, inclusive de investidores e da própria equipe. "Tivemos que convencer os investidores. Nossos próprios funcionários estavam céticos no começo: 'não consigo terminar meu trabalho nem em cinco dias' [foi uma das reações]", contou.
Ela diz que, para o modelo funcionar, a empresa precisou reorganizar rotinas internas. "Algumas pessoas se sentiam pressionadas. Mas precisamos ser extremamente criteriosos ao definir prioridades no nosso trabalho e reduzimos o número de reuniões", explicou.
Menos horas trabalhadas e alta renda: o paradoxo holandês
A adoção gradual da semana de quatro dias na Holanda passou a atrair atenção internacional porque os trabalhadores holandeses têm, em média, a menor carga horária da União Europeia: 32,1 horas por semana, abaixo da média do bloco, de 36 horas.
Apesar disso, o país mantém um PIB per capita entre os mais altos da Europa, figurando próximo ao topo entre os membros da OCDE, organização que reúne economias desenvolvidas. Esse desempenho desafia a ideia de que países ricos precisam de jornadas longas para sustentar competitividade.
O movimento também recebe respaldo sindical. O maior sindicato holandês, a Netherlands Trade Union Confederation (FNV), pressiona o governo para transformar o modelo em recomendação oficial, embora os trabalhadores já tenham o direito legal de solicitar redução de jornada.
OCDE alerta: produtividade não cresce há 15 anos
O debate, porém, não é consensual. A economista Daniela Glocker, responsável pela Holanda na OCDE, afirma que a produtividade do país não acompanhou o avanço do modelo nos últimos anos. "É verdade que a Holanda tem alta produtividade e trabalha menos horas", disse Glocker. Mas ela ressalta: "Mas o que vimos nos últimos 15 anos é que ela [a produtividade] não cresceu".
A economista avalia que, para manter o padrão de vida, o país terá de aumentar a produtividade ou ampliar a força de trabalho. "Então, se os holandeses quiserem manter sua qualidade de vida, terão de aumentar a produtividade ou ampliar a oferta de trabalho", afirmou.
Segundo Glocker, isso pode significar maior produção diária por trabalhador ou a entrada de mais pessoas no mercado, inclusive por meio de imigração.
Cresce a pressão por mais trabalhadores no mercado
A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE: quase metade dos empregados atua com carga reduzida. O modelo é influenciado por fatores econômicos, como salários relativamente altos e a estrutura tributária, que torna menos atrativo trabalhar horas extras.
Uma análise do próprio governo aponta que três em cada quatro mulheres e um em cada quatro homens trabalham menos de 35 horas por semana. Sindicatos defendem que um dia a menos pode melhorar energia e produtividade e evitar a saída de profissionais do mercado.
A OCDE, no entanto, alerta para o impacto do envelhecimento populacional, já que mais aposentadorias reduzem a base ativa de trabalhadores. O economista Nicolas Gonne, da organização, questiona se o modelo pode ser mantido no longo prazo.
"Os holandeses são ricos e trabalham menos — mas a questão é: isso é sustentável?", afirmou. Para ele, o país enfrenta limites estruturais: "Há um limite para o que se pode fazer com poucos trabalhadores."
Gonne defende que a solução passa por ampliar a oferta de mão de obra. "O que vemos é que a Holanda enfrenta restrições por todos os lados; a forma de aliviar isso é expandir a oferta [de trabalho]", disse.
Participação feminina em tempo integral vira ponto central
Entre as alternativas debatidas está o aumento da participação feminina em jornadas integrais. Apesar da elevada taxa de emprego entre mulheres, mais da metade trabalha em tempo parcial — índice cerca de três vezes acima da média da OCDE.
A dificuldade de acesso a creches acessíveis e o peso tributário sobre a renda, somados à complexidade do sistema de benefícios, são apontados como obstáculos para que mulheres ampliem suas jornadas, especialmente entre aquelas que atuam como segunda fonte de renda familiar.
O pesquisador Peter Hein van Mulligen, do Escritório Central de Estatísticas da Holanda (CBS), descreve a existência de um "conservadorismo institucionalizado" como fator relevante para explicar a permanência desse padrão.
Um estudo de 2024 citado na reportagem aponta que um em cada três holandeses considera que mães com filhos pequenos não deveriam trabalhar mais de um dia por semana, enquanto quase 80% afirmam que três dias seriam o limite. Entre pais, os índices são menores: 5% e 29%, respectivamente.
"Uma diferença considerável", observou van Mulligen.
Sindicatos defendem semana de quatro dias como avanço social
A representante sindical Yvette Becker, da FNV, afirma que a semana reduzida pode contribuir para diminuir desigualdades de gênero e melhorar o desempenho profissional.
"Há ganho de produtividade com menor absenteísmo", afirmou.
De volta à Positivity Branding, Bert de Wit avalia que o modelo pode ser uma resposta estratégica em setores com falta de mão de obra, como educação e saúde, tornando essas áreas mais atrativas.
"Pode ser uma forma de tornar essas profissões mais atrativas e elevar novamente a produtividade", disse.
Para Gavin Arm, a discussão vai além de indicadores econômicos e se conecta ao sentido do trabalho na vida cotidiana. "Você está mais feliz? Está aproveitando mais a vida? É disso que se trata", concluiu.


