Inflação dos alimentos desacelera em 2025 e registra menor taxa em dois anos
Preços da alimentação no domicílio sobem 1,43%, impulsionados por safra recorde e dólar mais baixo, segundo dados oficiais
247 - A inflação dos alimentos consumidos dentro de casa perdeu força ao longo de 2025 e encerrou o ano com alta acumulada de 1,43% no Brasil. O resultado representa uma desaceleração expressiva em relação a 2024, quando os preços haviam subido 8,23%, e marca a menor taxa desde 2023, ano em que o índice chegou a registrar deflação no segmento.
Os dados fazem parte do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial da inflação brasileira, divulgado nesta sexta-feira (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A leitura mais branda da inflação dos alimentos está diretamente associada ao comportamento da oferta e do câmbio, segundo análise do economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), ouvido pela Folha de São Paulo. Para ele, um dos fatores centrais foi o desempenho excepcional da produção agrícola. “Uma delas é a ampliação da oferta de produtos a partir de uma ‘safra muito robusta’”, afirmou. Em 2025, a colheita de grãos no país atingiu nível recorde.
Além da produção elevada, Braz aponta o efeito da valorização do real frente ao dólar ao longo do ano passado. A moeda norte-americana mais fraca contribuiu para reduzir as cotações de commodities agrícolas no mercado internacional e também os custos de insumos utilizados no campo, aliviando a pressão sobre os preços finais dos alimentos.
Para 2026, no entanto, a expectativa é de um cenário menos favorável. O economista projeta uma inflação mais elevada no grupo alimentação, embora sem movimentos abruptos. Segundo ele, a alta deve ficar entre 4% e 4,5% no acumulado do ano, ainda distante de uma “explosão” de preços.
O próprio IBGE já antecipa um recuo na produção agrícola. A estimativa oficial aponta para uma safra de grãos cerca de 3% menor em 2026, reflexo principalmente da base de comparação elevada do ano anterior, quando as condições climáticas favoreceram amplamente o campo.
Parte do mercado também enxerga riscos adicionais vindos do setor de proteínas animais. Fernando Iglesias, coordenador de mercados da consultoria Safras & Mercado, avalia que a dinâmica da pecuária pode gerar pressão sobre os preços da carne bovina. “O abate de fêmeas foi ‘muito amplo’ em 2024 e 2025”, explicou. Segundo ele, a tendência agora é de retenção desses animais para recomposição do rebanho, o que deve reduzir a oferta de bovinos nos próximos meses.
A inflação dos alimentos teve peso relevante no debate político ao longo de 2025. No início do ano, o custo da alimentação figurava como uma das principais preocupações do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diante do impacto sobre o poder de compra da população e da repercussão negativa na avaliação do governo.
Em março, Lula chegou a comentar publicamente a alta do preço do ovo de galinha, atribuindo a disparada, na ocasião, à ação de um “pilantra”. Analistas, porém, apontaram fatores estruturais para a elevação, como o aumento da demanda com a volta às aulas, o crescimento das exportações e os efeitos do calor intenso sobre a produção.
Ao longo do segundo semestre, o cenário começou a se inverter. A entrada da safra no mercado interno e a trégua do dólar levaram a alimentação no domicílio a registrar uma sequência de quedas mensais, consolidando a desaceleração observada no fechamento de 2025 e reduzindo o impacto inflacionário acumulado sobre os consumidores.



