Minerais críticos, defesa e tecnologia aproximam Brasil e União Europeia
Brasil e UE defendem cooperação, agregação de valor e integração diante do avanço do isolacionismo em evento da ApexBrasil
247 - O acordo entre Mercosul e União Europeia foi apresentado nesta terça-feira (23), durante o II Fórum de Investimentos União Europeia–Brasil, na sede da ApexBrasil, como um instrumento capaz de reposicionar a relação entre os dois blocos em bases mais amplas do que o comércio tradicional. Autoridades brasileiras e europeias defenderam uma integração voltada para a agregação de valor, investimentos produtivos, inovação tecnológica e até mesmo novas possibilidades de cooperação na área de defesa.
O tom do encontro foi de aproximação estratégica em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e reorganização das cadeias globais de produção. Representantes dos dois lados defenderam que a parceria entre Brasil e União Europeia oferece uma alternativa baseada em previsibilidade, confiança e cooperação de longo prazo.
O presidente da ApexBrasil, Laudemir André Müller, afirmou que o fortalecimento da relação ocorre em um momento em que o Brasil alcança resultados econômicos históricos. “Ao mesmo tempo em que há turbulências internacionais, nós vemos ao mesmo tempo o Brasil bater um recorde de exportação, de atração de investimentos”, disse ele, de acordo com declarações divulgadas pela Sputnik Brasil.
Segundo ele, os resultados decorrem de uma escolha política e diplomática. “Isso não se dá do acaso, não é por acaso que o Brasil tem esse desempenho, é por conta de uma decisão acertada, de um caminho que o Brasil trilha, talvez um caminho diferente de alguns outros países, que é o caminho do entendimento, o caminho da negociação, da abertura.”
Müller destacou que a aproximação com a Europa vai além dos interesses econômicos. “Com a Europa não temos só uma boa relação, com a Europa nós compartilhamos valores. O Brasil compartilha com a Europa os valores de democracia, multilateralismo, sustentabilidade, negociação e entendimento.”
O dirigente ressaltou que o acordo cria um novo ambiente para negócios e investimentos. “Estamos celebrando a parceria estratégica do Mercosul e do Brasil com a Europa”, afirmou. Segundo ele, o estoque de investimentos europeus no Brasil se aproxima de meio trilhão de dólares, mas ainda existe amplo espaço para expansão, inclusive em áreas como data centers, infraestrutura digital e minerais críticos.
A ideia de construir cadeias produtivas integradas apareceu de forma recorrente ao longo do fórum. O presidente do Conselho do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges, avaliou que o mundo atravessa profundas transformações econômicas e geopolíticas e que a resposta para esse cenário não está no isolamento.
“Isso exige integração, não isolamento”, afirmou. Para ele, Brasil e União Europeia possuem condições de dominar cadeias produtivas completas em setores estratégicos. “Brasil e União Europeia juntos têm condição de dominar toda a cadeia produtiva, inclusive aplicações em IA e defesa.”
A referência à defesa também apareceu nas falas do Itamaraty. O secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, Maurício Carvalho Lyrio, observou que a Europa atravessa um processo de rearmamento e apontou oportunidades para aprofundar a cooperação industrial.
“Estamos em um momento de rearmamento europeu”, afirmou. Segundo Lyrio, o Mercosul e o Brasil podem se apresentar como parceiros confiáveis para a Europa. “Vamos pensar nos países do Mercosul como um parceiro confiável e imune a configurações geoestratégica eventuais”, disse, ao mencionar o potencial de integração com a indústria militar europeia.
O diplomata também defendeu que a relação entre os dois lados seja construída com foco em agregação de valor industrial. “É óbvio que não há nada mais relevante na economia brasileira do que o agronegócio. Não há dúvida disso para o país.
Mas não há nada mais relevante também do que um bom parque industrial, em que há a possibilidade de promover integração produtiva com outras nações, de agregar valor.”
Na mesma linha, a embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, afirmou que o acordo comercial representa um marco, mas que seu sucesso dependerá da capacidade de transformar oportunidades em projetos concretos. Segundo ela, a prioridade europeia é ampliar investimentos sustentáveis e fomentar setores considerados estratégicos para ambos os lados.
“A UE vê o Brasil como um parceiro fundamental em um mundo mais complexo”, declarou. Para a diplomata, o desafio é gerar valor agregado em áreas como minerais críticos, lógica que também se aplica a outros setores da nova agenda de competitividade europeia.
O comissário europeu para as Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, reforçou a mensagem de que a estratégia europeia não está baseada apenas na extração de matérias-primas. “Não investimos somente em extração, ao contrário de outros atores”, afirmou.
Segundo ele, o programa Global Gateway busca desenvolver capacidades produtivas e tecnológicas de longo prazo. O comissário anunciou mais de 260 milhões de euros para o projeto EliaLink, cabo submarino de internet de alta capacidade que conecta Brasil e Europa e deverá ampliar a conectividade em áreas remotas da Amazônia.
A ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, situou a parceria em um contexto geopolítico mais amplo. Ao recordar uma reflexão do assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, ela afirmou que a Europa tende a ocupar uma posição singular na estratégia internacional brasileira.
“Uma certa vez Celso Amorim me disse que, do ponto de vista geopolítico, e fez muito sentido, quando se começou a discussão do acordo, o Brasil já tinha essa expectativa de que você teria dois polos importantes, um nos Estados Unidos, outro mais na Ásia, e que a Europa talvez fosse o parceiro mais estratégico.”
Dweck destacou ainda que Brasil e União Europeia compartilham agendas comuns nas áreas climática e digital, além de avanços recentes que fortalecem a competitividade brasileira, como a reforma tributária e a redução do desmatamento.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o acordo representa uma resposta ao avanço de tendências protecionistas. “A formação do maior bloco econômico do mundo entre UE e Mercosul é a melhor resposta para aqueles que apostam no isolacionismo”, disse.
Para ele, o tratado pode servir como referência internacional. “O acordo Mercosul-UE deve servir de exemplo”, afirmou. O ministro também defendeu a continuidade do processo de implementação. “O importante, como foi dito, é que daqui para frente nós tenhamos prosseguimento na implementação desse acordo sem grandes crises.”
Ao longo do encontro, a mensagem predominante foi a de que a parceria entre Brasil e União Europeia está sendo redesenhada para além do comércio de commodities. O objetivo compartilhado é construir cadeias de valor integradas, ampliar investimentos em tecnologia, energia limpa, infraestrutura digital e minerais críticos e abrir espaço para uma cooperação industrial cada vez mais sofisticada, incluindo setores ligados à defesa e à segurança econômica.



