Ouro supera US$ 5.100 e atinge recorde histórico com corrida global por proteção
Investidores migram para ativos de refúgio em meio a incertezas geopolíticas e turbulência na política comercial dos EUA
247 – O ouro disparou nesta segunda-feira (26) e rompeu a marca de US$ 5.100 por onça, alcançando um recorde histórico em um movimento que reflete a intensificação da busca por proteção diante do aumento das incertezas geopolíticas e de uma nova onda de aversão a risco nos mercados globais. As informações são da Reuters, que atribui a escalada do metal precioso à combinação de tensões internacionais, volatilidade no dólar e expectativas de continuidade da demanda institucional e de investidores.
No mercado à vista, o ouro avançava 2,2% e era negociado a US$ 5.089,78 por onça por volta de 06h56 GMT, depois de tocar o pico intradiário de US$ 5.110,50, um patamar nunca visto. Os contratos futuros de ouro nos Estados Unidos para entrega em fevereiro também subiam 2,2%, a US$ 5.086,30, reforçando o caráter generalizado do rali.
O movimento desta segunda-feira dá continuidade a uma valorização que já vinha se desenhando como histórica. O metal acumulou alta de 64% em 2025, seu maior ganho anual desde 1979, impulsionado por demanda de refúgio, afrouxamento da política monetária dos Estados Unidos, compras robustas de bancos centrais e forte entrada de recursos em fundos negociados em bolsa (ETFs) lastreados em ouro.
Nas últimas sessões, os preços registraram recordes consecutivos, em uma sequência que se intensificou na última semana. Apenas neste início de ano, o ouro já acumula alta superior a 18%, sinalizando que o mercado não apenas preservou o impulso de 2025 como acelerou a corrida por proteção.
Analistas consultados pela Reuters apontam que um dos gatilhos mais recentes do rali tem relação direta com a percepção de risco político e institucional nos Estados Unidos, em especial após decisões consideradas erráticas do governo do presidente Donald Trump, atual presidente dos EUA. Para Kyle Rodda, analista sênior de mercado da Capital.com, a mudança de humor dos investidores se traduziu em uma corrida ao ouro como alternativa diante do desconforto com ativos norte-americanos.
“O catalisador mais recente é, efetivamente, essa crise de confiança na administração dos EUA e nos ativos dos EUA, que foi desencadeada por parte da tomada de decisões erráticas do governo Trump na semana passada”, disse Rodda, segundo a Reuters.
No noticiário político, Trump recuou abruptamente na quarta-feira de ameaças de impor tarifas a aliados europeus como forma de pressão para “tomar” a Groenlândia. Já no fim de semana, afirmou que pretende impor uma tarifa de 100% sobre o Canadá caso o país leve adiante um acordo comercial com a China. O presidente também ameaçou sobretaxar em 200% vinhos e champanhes franceses, em uma tentativa de pressionar o presidente Emmanuel Macron a aderir à sua iniciativa chamada “Board of Peace”.
A Reuters registra que observadores temem que esse conselho possa enfraquecer o papel das Nações Unidas como principal plataforma global de resolução de conflitos, embora Trump tenha declarado que a iniciativa vai trabalhar em conjunto com a ONU. Em um ambiente de crescente imprevisibilidade, o ouro volta a ser visto como porto seguro clássico, especialmente quando se somam tensões geopolíticas e ruídos em torno do comércio internacional.
“Este governo Trump causou uma ruptura permanente na forma como as coisas são feitas e, por isso, agora todo mundo está correndo para o ouro como a única alternativa”, acrescentou Rodda, de acordo com a Reuters.
Outro componente relevante do rali é o câmbio. Nesta segunda-feira, a valorização do iene pressionou o dólar para baixo de forma ampla, em um momento em que o mercado monitora a possibilidade de intervenção no iene e, ao mesmo tempo, reduz posições compradas na moeda norte-americana antes da reunião do Federal Reserve (Fed) nesta semana.
A dinâmica é conhecida. Com o dólar mais fraco, o ouro cotado na moeda norte-americana tende a ficar relativamente mais barato para compradores de outras divisas, ampliando o apetite global. Esse mecanismo, quando combinado com a procura por proteção, costuma acelerar movimentos de alta, sobretudo quando há liquidez migrando de ativos de risco para instrumentos considerados mais defensivos.
O pano de fundo do rali envolve a sustentação da demanda estrutural. A Reuters destaca compras fortes de bancos centrais, incluindo a China, que teria registrado o 14º mês consecutivo de aquisições em dezembro, além de fluxos recordes para ETFs. O conjunto desses fatores ajudou a consolidar o ouro como reserva de valor em um cenário de incerteza geopolítica e ajustes na política monetária.
Para 2026, a expectativa de parte do mercado é que o movimento ainda tenha espaço para avançar. Analistas ouvidos pela Reuters avaliam que o ouro pode se aproximar de US$ 6.000 ao longo do ano, diante do aumento das tensões globais e da continuidade de compras oficiais e da demanda do varejo.
Philip Newman, diretor da consultoria Metals Focus, afirmou que vê espaço para mais alta, embora com correções pontuais ao longo do caminho. “Esperamos mais alta (para o ouro). Nossa previsão atual sugere que os preços vão atingir um pico em torno de US$ 5.500 mais tarde neste ano”, disse Newman, segundo a Reuters.
O analista também sinalizou que recuos podem ocorrer por realização de lucros, mas não necessariamente mudariam o quadro de fundo. “Recuos periódicos são prováveis, à medida que investidores realizem lucros, mas esperamos que cada correção seja de curta duração e encontre forte interesse comprador”, acrescentou, de acordo com a Reuters.
O movimento de valorização não ficou restrito ao ouro. A prata avançou 4,8% e chegou a US$ 107,903 por onça, depois de tocar o recorde de US$ 109,44. A Reuters observa que o metal ultrapassou US$ 100 pela primeira vez na sexta-feira e acumulou alta de 147% em 2025, impulsionado por fluxo de investidores de varejo, compras orientadas por “momento” e um período prolongado de aperto no mercado físico.
A platina também disparou, subindo 3,4% para US$ 2.861,91 por onça, após alcançar recorde intradiário de US$ 2.891,6. Já o paládio avançou 2,5% para US$ 2.060,70, chegando a tocar o maior nível em mais de três anos, indicando que a busca por metais preciosos e industriais ganhou força simultaneamente, em um cenário de portfólio mais defensivo e expectativas de demanda resiliente.
O quadro descrito pela Reuters sugere um início de ano marcado por uma corrida intensa a ativos de refúgio e por uma reprecificação global do risco, na qual o ouro reassume papel central como termômetro de confiança, enquanto prata, platina e paládio acompanham a mesma direção, cada um com seus próprios fundamentos de oferta e demanda.


