Grandes fundos da Europa reavaliam exposição aos EUA em meio a riscos geopolíticos
Investidores alertam para aumento do prêmio de risco de ativos americanos diante de incertezas políticas e fiscais nos Estados Unidos
247 - Grandes investidores institucionais do norte da Europa passaram a reavaliar sua exposição a ativos dos Estados Unidos diante do aumento das tensões geopolíticas e de incertezas sobre a política externa e a situação fiscal norte-americana. Dirigentes de fundos de pensão e consultores de investimento afirmam que o cenário atual elevou o prêmio de risco associado ao dólar, aos títulos do Tesouro dos EUA e ao mercado acionário do país, sinalizando uma possível mudança gradual no apetite pelo maior mercado financeiro do mundo, segundo a agência Reuters.
Representantes de fundos e entidades da Finlândia, Suécia e Dinamarca relataram à Reuters que a imprevisibilidade da política externa dos EUA e os elevados níveis de endividamento da Casa Branca passaram a ser vistos como fatores de pressão estrutural sobre ativos americanos. A região nórdica abriga alguns dos maiores fundos de pensão da Europa em volume de recursos sob gestão, o que amplia o peso dessas avaliações no cenário financeiro internacional.
Nos últimos dias, dois grandes fundos nórdicos — o sueco Alecta e o dinamarquês AkademikerPension — anunciaram que venderam ou estão em processo de venda de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Embora as instituições afirmem que as decisões não estão ligadas a eventos recentes específicos, as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Groenlândia reacenderam especulações sobre possíveis respostas europeias, inclusive no campo financeiro, às políticas de sua administração.
“Estamos tendo muitas discussões com clientes sobre se é hora de reduzir a exposição a ativos dos Estados Unidos”, afirmou Van Luu, chefe global de estratégia de soluções, renda fixa e câmbio da Russell Investments. Segundo ele, “cerca de 50% deles estão considerando se deveriam fazer algo a respeito”, especialmente clientes do norte da Europa, incluindo países escandinavos e os Países Baixos. A Russell Investments assessora fundos com cerca de US$ 1,6 trilhão em ativos e administra diretamente US$ 636 bilhões.
Dados recentes indicam que o valor dos títulos do Tesouro americano detidos pelo fundo holandês ABP, o maior fundo de pensão da Europa, caiu de forma acentuada do fim de 2024 até setembro do ano passado, movimento que sugere redução de posições em dívida dos EUA.
Apesar dessas sinalizações, mudanças em alocações estratégicas de longo prazo costumam ocorrer de forma gradual. Os Estados Unidos ainda mantêm uma economia robusta e mercados profundos e líquidos, fatores que continuam atraindo investidores globais. As ações americanas seguem próximas de máximas históricas. Ainda assim, a incerteza em torno das políticas do governo dos EUA tem pressionado o dólar, que recuou cerca de 10% frente a outras grandes moedas no ano passado, enquanto os rendimentos dos títulos do Tesouro de 30 anos giram em torno de 4,9%, patamar próximo ao observado durante a crise financeira global.
Os fundos nórdicos, diferentemente de outros grandes investidores, têm se mostrado mais abertos ao debater publicamente sua exposição a ativos americanos. A Alecta informou que vendeu a maior parte de seus títulos dos EUA porque os riscos associados aos Treasuries e ao dólar aumentaram. Já o AkademikerPension declarou que pretende concluir a saída desses ativos até o fim do mês, citando a fragilidade das finanças públicas americanas, embora tenha enfatizado que a decisão não representa um posicionamento político ligado às tensões entre Dinamarca e Estados Unidos sobre a Groenlândia.
O debate público sobre esse tipo de movimento é incomum no setor, já que investidores institucionais costumam evitar comentários que possam ser interpretados como reações a acontecimentos conjunturais. Em geral, decisões de longo prazo tendem a ignorar eventos pontuais. “Toda essa turbulência está levantando algumas questões sobre o nível adequado de exposição aos Estados Unidos… é isso que nossos membros estão avaliando profissionalmente”, afirmou Tom Vile Jensen, diretor-adjunto da entidade Insurance and Pensions Denmark.
Ainda assim, os fundos ressaltam que não pretendem retirar capital por motivações políticas. “Certamente não há qualquer ‘armamentização’ do capital. Não é função do nosso setor fazer isso”, disse Vile Jensen.
Para Annika Ekman, vice-presidente executiva de investimentos do fundo finlandês Ilmarinen, que administra pouco mais de 65 bilhões de euros, os Estados Unidos continuam sendo um mercado investível, mas o prêmio de risco “continua a subir”. Já a provedora de previdência Veritas, também da Finlândia, mantém suas diretrizes de investimento, embora reconheça que a incerteza política nos EUA representa um risco adicional para o dólar. “Quanto maior a imprevisibilidade, mais difícil se torna o ambiente”, afirmou a diretora de investimentos Laura Wickstrom.
Esse cenário também tem impulsionado a busca por ativos considerados mais seguros, como o ouro. A seguradora sueca Folksam informou que vendeu títulos do Tesouro dos EUA em 2024, em parte para reduzir riscos antes da eleição presidencial americana. Apesar do clima de cautela, Jonas Thulin, diretor de investimentos do fundo sueco AP3, que administra cerca de US$ 61 bilhões, defendeu uma postura equilibrada: “Há muita conversa no momento, mas, por enquanto, acredito que seja preciso manter a cabeça fria”.


