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Paulo Nogueira Batista Jr. alerta para “megacrise financeira” e diz que superpotência em declínio “pode ser muito perigosa”

Ex-diretor do FMI afirma que o dólar deixou de ser refúgio após tarifas de Donald Trump e defende a criação urgente de uma nova moeda de reserva

Paulo Nogueira Batista Júnior (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Paulo Nogueira Batista Jr., um dos economistas brasileiros mais influentes nos debates sobre o futuro do sistema financeiro internacional e uma das vozes heterodoxas associadas ao projeto dos BRICS, fez um alerta contundente sobre a conjuntura global: o declínio dos Estados Unidos, somado à reação agressiva de Washington diante da perda de hegemonia, pode empurrar o mundo para um período de instabilidade prolongada e para uma crise financeira de grandes proporções.

A avaliação foi apresentada em entrevista ao jornal La Vanguardia, na qual o ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (o banco dos BRICS) defende que os países do Sul Global acelerem a construção de alternativas ao dólar e aos sistemas de pagamento dominados pelo Ocidente. Segundo ele, a urgência é real, porque se aproxima uma megacrise em que a moeda americana deixará de funcionar como porto seguro para o mercado.

Batista Jr. sustenta que o principal fator de risco não é apenas o declínio em si, mas a resposta dos EUA diante desse declínio. Em suas palavras, “a história nos ensina que uma superpotência em declínio pode ser muito perigosa, e os Estados Unidos estão demonstrando isso com nitidez neste momento”. Para ele, as potências ocidentais se acostumaram a governar o mundo durante séculos e agora, ao verem esse domínio contestado, reagem de forma cada vez mais agressiva.

“Apertem os cintos”: por que ele prevê risco iminente de crise

Em tom de advertência, Batista Jr. volta a insistir que é hora de “apertar os cintos”. Questionado sobre os motivos, afirma que isso se deve a várias razões, mas principalmente ao declínio dos Estados Unidos. Ele também aponta um conjunto de sinais que indicariam que bolhas financeiras podem estourar, sobretudo no sistema norte-americano, e que uma nova crise global, semelhante à de 2008 e 2009, não pode ser descartada.

O economista lembra que a crise, caso ocorra, atingirá um mundo em situação mais frágil do que a do período em que o banco Lehman Brothers quebrou, em 2008. Para ele, EUA e Europa estariam hoje ainda mais vulneráveis, com déficits fiscais elevados, dívida pública crescente e pouca disposição política para enfrentar problemas estruturais.

Ele inclui ainda um fator adicional para a Europa: a pressão que tende a aumentar sobre os orçamentos nacionais com a necessidade de ampliar gastos militares, já que, segundo Batista Jr., Donald Trump tem retirado o “guarda-chuva” de defesa dos europeus.

O dólar pode deixar de ser refúgio numa nova turbulência

Um dos pontos centrais da entrevista é a avaliação de que o dólar já começou a perder o papel de ativo de segurança em períodos de crise, algo que historicamente sempre beneficiou os Estados Unidos. Batista Jr. afirma que, em crises anteriores, mesmo quando a instabilidade se originava no sistema financeiro norte-americano, investidores corriam para o dólar como refúgio.

Mas ele destaca que, após o anúncio de uma bateria de tarifas por Donald Trump no início de abril, esse padrão começou a mudar, o que representaria o primeiro sinal importante de ruptura.

Na visão do economista, se bolhas financeiras estourarem e o sistema americano entrar em colapso, pode haver uma fuga não apenas de ativos de risco, mas do próprio dólar e do sistema financeiro dos EUA. Isso envolveria investidores se afastando de títulos do Tesouro norte-americano e buscando outros destinos, como ouro e algumas moedas alternativas.

O renminbi como destino provável e o “problema” para a China

Batista Jr. afirma que o euro não se consolidou como alternativa real ao dólar e chama a moeda europeia de “satélite” da divisa norte-americana, argumentando que a subordinação política da Europa a Washington tornou o euro tão inseguro quanto o dólar.

Diante disso, ele considera que, num cenário de crise, parte significativa do movimento de fuga poderia ir em direção ao renminbi, a moeda chinesa. Porém, ele ressalta que isso criaria dificuldades para a própria China.

Segundo Batista Jr., uma entrada massiva de capital especulativo de curto prazo valorizaria o renminbi, prejudicando exportações e crescimento. Ele acrescenta um risco pouco mencionado: a deflação. Para ele, a China está à beira da deflação e uma valorização muito forte poderia empurrar a economia para um cenário de queda de preços, o que levaria empresas e consumidores a adiar gastos na expectativa de valores ainda menores, como ocorreu mundialmente na década de 1930.

O economista avalia que o Banco Popular da China teria opções ruins: permitir a valorização do renminbi, intervir comprando dólares e euros — aumentando reservas em moedas que ele considera “perigosas” — ou impor controles de capital, o que afastaria a moeda chinesa de uma convertibilidade mais ampla.

“É preciso desenhar uma nova moeda de reserva antes da próxima crise”

Diante desses riscos, Batista Jr. afirma que o momento é adequado para que países não ocidentais elaborem uma nova arquitetura financeira internacional. Ele diz estar concluindo um artigo sobre esse tema e defende a criação de uma nova moeda de reserva e de sistemas de pagamento alternativos, capazes de amortecer o choque caso uma nova crise como a de 2008 se repita.

Ele considera que existe espaço para uma nova divisa de reserva e sugere que ela seja criada não por uma iniciativa multilateral tradicional, mas por uma iniciativa “plurilateral” envolvendo cerca de 15 ou 20 países, principalmente os maiores do Sul Global e membros dos BRICS. Ele cita China, Rússia, Brasil e Indonésia como exemplos.

Batista Jr. ressalta que a situação é delicada porque, embora EUA e Europa estejam em declínio, seguem sendo economias gigantescas. Para ele, se a crise que muitos preveem de fato ocorrer, o mundo correrá atrás de ideias e soluções, e por isso o debate precisa avançar agora.

O dólar como arma e a corrosão da confiança no sistema ocidental

Outro ponto forte da entrevista é a crítica à “instrumentalização geopolítica” do dólar. Batista Jr. argumenta que o Ocidente passou a usar sistemas financeiros e mecanismos de pagamento como armas para punir e excluir países e indivíduos que não se alinham aos seus interesses.

Ele afirma que não se trata apenas de países considerados inimigos, mas também de nações que mantêm relações comerciais com esses países. Para ele, esse comportamento corroeu a confiança na moeda norte-americana e em sistemas de mensagens financeiras como o SWIFT.

Na visão do economista, os BRICS avançaram devagar demais na construção de alternativas, em parte porque os Estados Unidos sempre foram hostis a qualquer tentativa de reduzir a centralidade do dólar. Ele observa que essa política é contínua, independentemente de o governo ser republicano ou democrata. A diferença, segundo ele, é que Trump assume essa postura de maneira mais explícita e agressiva, o que intimida países vulneráveis à pressão ocidental.

Batista Jr. cita como exemplo novos integrantes dos BRICS, como Egito e Etiópia, que dependem de programas do FMI e temem represálias caso desagradem Washington.

Europa subordinada, euro inseguro e o “vácuo de ideias” no Ocidente

Batista Jr. também critica a falta de autonomia estratégica da Europa e afirma que, para o continente recuperar independência, seria necessário um novo De Gaulle — algo que ele não enxerga no atual cenário.

Ele lembra que muitos, inclusive no Brasil, tiveram esperança de que o euro pudesse se tornar uma alternativa ao dólar. No entanto, segundo ele, isso não aconteceu porque a Europa demonstrou subordinação política aos Estados Unidos, inclusive ao congelar reservas russas em euros depois que Washington congelou reservas em dólares.

Nesse contexto, o euro teria se tornado tão inseguro quanto o dólar. Batista Jr. considera que a Europa acabou se alinhando aos esforços dos EUA para cercar e desestabilizar a Rússia e hoje vive uma situação que ele considera absurda: foi arrastada para um confronto com Moscou por causa da Ucrânia e agora vê os EUA mudarem de posição, deixando os europeus com o ônus político e financeiro do conflito.

Para o economista, isso deveria ser um sinal definitivo de que a Europa não pode confiar em Washington.

Trump como acelerador do caos e da busca por soluções alternativas

Batista Jr. afirma que Donald Trump acelera a chegada de uma solução global ao transmitir ao mundo a mensagem de que não se pode mais confiar nos Estados Unidos. Para ele, isso obriga outros países a buscarem suas próprias saídas e pode impulsionar a atuação de China e BRICS, ainda que esse movimento não seja simples nem imediato.

China: força, eficiência e cautela estratégica

Ao comentar a possibilidade de a China substituir os EUA como potência hegemônica, Batista Jr. faz uma avaliação cuidadosa. Ele diz que o país está se tornando muito forte, eficiente e dinâmico, e relata ter ficado impressionado com o avanço chinês. Ao mesmo tempo, ele alerta que o poder chinês é frequentemente superestimado, lembrando que, apesar do PIB elevado, a China ainda é um país de renda média quando se observa o PIB per capita, com vulnerabilidades típicas de uma economia em desenvolvimento.

Na sua interpretação, isso faz com que Pequim adote uma postura ambiciosa, mas cautelosa, avançando passo a passo, com visão de longo prazo e paciência estratégica. Por isso, ele não acredita que a China busque, neste momento, a hegemonia mundial.

Instituições multilaterais: diálogo com a China e “monólogo” com os EUA

Ao falar de sua experiência pessoal em instituições multilaterais, Batista Jr. afirma que, quando atuou no FMI e depois no banco dos BRICS, teve contato intenso com chineses e americanos. E diz que as relações com a China foram muito mais construtivas, com espaço para diálogo, ainda que existam discordâncias. Já com os Estados Unidos, segundo ele, a dinâmica foi diferente: em vez de diálogo, predominou um “monólogo”.

A entrevista reforça a visão de Batista Jr. de que o sistema internacional vive um momento de transição profunda, no qual o Ocidente perde capacidade de liderança, mas mantém instrumentos de poder que podem ser usados de forma desestabilizadora. E, para ele, a única resposta racional do Sul Global é acelerar a construção de alternativas financeiras e políticas que reduzam a dependência de um centro hegemônico cada vez mais imprevisível.

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