"O tema da soberania pode ajudar Lula após a agressão à Venezuela", diz Paulo Nogueira Batista Júnior
Economista afirma que intervenção dos EUA inaugura uma “nova velha” política imperial e coloca o Brasil diante do maior desafio desde o século XIX
247 – A agressão do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela — que incluiu uma operação descrita como “invasão” e “sequestro do presidente” — pode produzir um efeito político inesperado no Brasil: fortalecer o presidente Lula no debate eleitoral de 2026 ao recolocar a soberania nacional no centro do confronto político. A avaliação é do economista e escritor Paulo Nogueira Batista Júnior, que analisou o episódio em entrevista concedida à jornalista Regina Zappa, na TV 247.
“O Lula pode até se fortalecer, né? Como se fortaleceu quando enfrentou aquele ataque tarifário em meados de 2025 com soberania”, afirmou Paulo Nogueira, ao destacar que, diante do ataque à Venezuela, “a bandeira da soberania tem valor, tem valor político, tem valor eleitoral e o Lula sabe disso”.
A volta do imperialismo sem máscara
Ao comentar a ação de Washington, Paulo Nogueira Batista Jr disse que o início de 2026 tem “sabor de ano velho” e representa uma escalada de práticas imperiais típicas do século XIX, agora apresentadas de forma explícita. Para ele, não se trata de uma ruptura total na política externa norte-americana, mas de uma intensificação de uma lógica histórica que nunca deixou de existir.
“O que acontece com Trump não é propriamente uma ruptura nova, uma inovação completa da política imperial, mas é uma exacerbação de algo que já vem ocorrendo”, disse. Em seguida, apontou o fator central que, segundo ele, explica a ofensiva: a percepção de declínio do império norte-americano.
“O império americano se defronta com um declínio relativo, bastante nítido. E a resposta dessa parte da elite que chegou ao poder com Trump é agressiva”, afirmou. E completou: “Uma potência imperial em declínio é mais perigosa”.
Na visão do economista, o governo de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — “jogou pela janela” a ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra, e passou a tratar a América do Sul como “quintal”, termo que ele diz estar sendo repetido abertamente por membros do governo norte-americano.
“Pela primeira vez que eu me lembro em muito tempo, Trump e os seus ministros estão se referindo não só à América Central e ao Caribe, mas também a América do Sul como quintal dos Estados Unidos”, afirmou.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Paulo Nogueira lembrou seu livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém e afirmou que o país entra em um período crítico, porque o desafio imposto pelo ataque à Venezuela é de uma magnitude inédita. Para ele, o problema não é apenas externo, mas interno: a vulnerabilidade brasileira e a postura de parte das elites nacionais.
“O grande problema é que o Brasil não cabe, mas a elite brasileira ou grande parte dela cabe no quintal de qualquer um”, disse, em uma das declarações mais contundentes da entrevista.
O economista afirmou não saber exatamente como será o desdobramento da intervenção norte-americana, mas sustentou que o que já aconteceu “é suficiente para caracterizar uma grande ameaça”, tanto à Venezuela quanto ao Brasil.
“Nunca vi na minha vida um desafio desse tamanho para a independência e soberania dos países da América do Sul e do Brasil em especial”, afirmou.
Direita apoia intervenção e pode pagar preço
Ao analisar a reação política no Brasil, Paulo Nogueira destacou que todos os presidenciáveis de direita, “sem exceção”, teriam manifestado apoio à intervenção norte-americana. Para ele, essa postura pode se tornar um fardo eleitoral, especialmente se o debate sobre soberania ganhar peso na sociedade.
“Todos os candidatos da direita a presidente, sem exceção, se manifestaram a favor da intervenção americana. A julgar pelo que nós temos visto no passado recente, isso vai prejudicá-los do ponto de vista eleitoral”, avaliou.
Segundo ele, o fato de Trump ter abandonado o “soft power” e exposto a intervenção de forma escancarada cria um ambiente menos confortável para setores políticos locais que tradicionalmente apoiam ações externas contra governos latino-americanos.
“Tem uma vantagem na falta de máscara: fica mais fácil falar com franqueza do que está acontecendo”, disse. E acrescentou: “Agora, se um brasileiro quiser apoiar o que Trump está fazendo, ele vai pagar um preço político grande aqui dentro”.
Venezuela: operação “espetacular”, mas sem mudança de regime
Paulo Nogueira descreveu a ofensiva na Venezuela como uma operação “espetacular de decapitação”, mas observou que ela não teria produzido o objetivo principal de Washington: a mudança de regime. Segundo ele, apesar do sequestro do presidente, o núcleo do governo bolivariano permaneceu.
“Os americanos foram bem-sucedidos numa operação espetacular de decapitação, porém o regime não foi mudado”, afirmou.
O economista comentou ainda que a ascensão de Delcy Rodríguez, agora descrita como “presidente interina”, indicaria uma tentativa de reorganização interna e de controle de danos. Ele avaliou que os EUA podem tentar impor uma capitulação econômica, buscando acesso total aos recursos naturais venezuelanos.
“Os americanos já anunciaram o que querem: querem acesso total a recursos naturais da Venezuela. Querem uma capitulação econômica”, disse.
Brasil sob pressão e a urgência de uma política de defesa
Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa de uma revisão profunda da política de defesa nacional brasileira. Para Paulo Nogueira, o ataque à Venezuela mostra que “simpatia” e “boa conversa” não bastam diante de uma política internacional baseada em força bruta.
“O Brasil precisa ter iniciado uma revisão completa e profunda da política de defesa nacional, porque agora nós estamos vendo que soft power, simpatia, fazer amigos no mundo, nada disso resolve diante do desafio da força bruta”, afirmou.
Ao analisar o comportamento do governo Trump, ele sintetizou o padrão da nova política externa: respeito apenas por quem tem capacidade real de dissuasão.
“Onde é que Trump respeita quem ele respeita? Ele respeita a China, respeita a Rússia. Por quê? Porque esses dois países resistem duramente ao bullying americano”, afirmou.
E reforçou: “Montar uma defesa nacional eficaz não é ter pretensão de derrotar uma superpotência. É ter poder de dissuasão”.
Deep fakes e o risco de interferência nas eleições de 2026
Paulo Nogueira também alertou para o risco de interferência externa no processo eleitoral brasileiro, sobretudo por meio do uso de big techs e ferramentas de inteligência artificial. Segundo ele, a escala de manipulação pode ser “sem precedentes”.
“As big techs podem entrar com tudo, inclusive favorecendo a circulação de fake news, de deep fakes, que podem ter influência muito grande na eleição”, disse.
Ele relatou que já foi alvo de vídeos falsos que imitam sua voz e sua imagem: “Pegam a minha imagem, botam uma voz, imitam a minha voz bastante bem em alguns casos e jogam uma mensagem muito diferente do que eu diria”.
E advertiu que uma ofensiva desse tipo contra Lula teria impacto devastador: “Você imagina: bota na boca do Lula ataques, vão fazer isso”.
“Estamos diante da eleição mais importante da nossa vida”
Em um tom de alerta, Paulo Nogueira afirmou que 2026 pode ser o pleito mais decisivo desde a redemocratização. Na visão dele, uma vitória de um candidato alinhado ao bolsonarismo significaria o retorno do país à condição de subordinação total aos Estados Unidos — especialmente em um contexto de ofensiva imperial mais explícita.
“Se houver uma vitória de um candidato bolsonarista, estamos perdido”, afirmou.
E completou: “Com o Trump nessa ofensiva imperial, será um desastre monumental pro Brasil e pra América Latina”.
O império, antes e depois de Trump
Ao final da entrevista, Paulo Nogueira insistiu que o problema não se resume ao presidente norte-americano, mas ao comportamento estrutural do império. Trump, segundo ele, apenas radicalizou e explicitou um movimento de agressão já presente em décadas anteriores.
“O império antecede Trump. O império era agressivo, violento, sem respeito a regras antes de Trump”, afirmou.
Para ele, a diferença central é que agora “caíram as máscaras” — e isso muda o modo como o Brasil e a América do Sul precisarão reagir: com realismo, organização estratégica e capacidade de defesa.
“O bom mocismo foi uma grande vítima do governo Trump no plano internacional”, disse. E concluiu com uma frase que resume o tom da entrevista:
“Hoje eu digo isso com mais clareza ainda: nós temos que nos armar até os dentes”.



