PF amplia apuração sobre ativos do Digimais ligados ao Master
Investigação mira carteiras sem lastro, terreno em Pernambuco e financiamentos de veículos usados para inflar patrimônio do Banco Digimais
247 - A Polícia Federal vai ampliar a investigação sobre ativos do Banco Digimais ligados ao Master, após identificar indícios de carteiras sem lastro, avaliação suspeita de terrenos e créditos de veículos com alta inadimplência usados para inflar o patrimônio da instituição financeira, informa o jornal O Globo.
Nos documentos analisados, investigadores avaliam registros contábeis, auditorias independentes e ações judiciais para apurar o valor real de fundos relacionados ao Digimais. A apuração busca verificar se houve manipulação de ativos para encobrir a situação financeira do banco e permitir a emissão de novos títulos de captação no mercado.
De acordo com a Polícia Federal, o inquérito identificou carteiras supostamente relacionadas ao Banco Master sem “documentação comprobatória de lastro”, além de ativos vinculados a um empreendimento imobiliário ainda não construído e a financiamentos de automóveis com elevado índice de inadimplência. A suspeita é que esses ativos tenham sido superavaliados para “maquiar a real situação de insolvência da instituição”.
Para os investigadores, a conduta pode configurar crimes de “gestão fraudulenta e inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis”. A PF também apura se há conexões entre as operações do Digimais e o modelo de atuação atribuído ao Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
Em nota, o Banco Digimais afirmou que está à disposição das autoridades. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, declarou o banco.
Uma das frentes de investigação envolve uma ação judicial aberta no ano passado por um fundo que afirma ter sido prejudicado pelo Digimais na compra de uma carteira de CCBs, as Cédulas de Crédito Bancário. Segundo a ação citada no relatório policial, a carteira não teria lastro suficiente para sustentar seu valor.
Uma auditoria contratada pelo fundo apontou que 42% da carteira apresentava pendências de documentação. O mesmo fundo afirmou ter identificado que parte dos créditos tinha origem associada ao Master. “A análise concluiu que parte relevante das CCBs objeto da cessão não possuíam documentação comprobatória de lastro. De fato, uma parte considerável da carteira de créditos cedida ao Fundo no âmbito do Contrato tem sua origem relacionada ao Banco Master e à REAG”, diz a auditoria.
No relatório que embasou a Operação Miragem, deflagrada na terça-feira (23), a Polícia Federal também destacou a oferta de títulos de captação com remuneração muito acima da média de mercado. Para os investigadores, esse comportamento, combinado à manutenção de ativos de baixa liquidez e à exposição a créditos de origem duvidosa associados ao Master, “sugere a eventual ocorrência de gestão temerária ou fraudulenta”.
Outro ponto sob análise envolve investimentos citados anteriormente pela revista Piauí. Segundo a publicação, uma administradora de fundos teria precificado artificialmente um terreno em Pernambuco em R$ 150 milhões, embora o imóvel valesse cerca de R$ 10 milhões. O ativo estaria ligado a um projeto imobiliário no município de Goiana, que ainda não teria licença da prefeitura para ser construído, conforme informação atribuída ao jornal O Estado de São Paulo.
Os imóveis constam no patrimônio de um fundo em que o Digimais aparece como cotista. Para a PF, esse tipo de operação pode ter contribuído para melhorar artificialmente os indicadores patrimoniais do banco, ampliando sua capacidade de captar recursos por meio de CDBs, os Certificados de Depósito Bancário.
A investigação também mira uma carteira de financiamentos de automóveis avaliada em R$ 3,5 bilhões. Segundo a Piauí, um fundo que tinha o Digimais como investidor teria elevado artificialmente seu patrimônio em R$ 350 milhões. A suspeita é que a superavaliação de ativos tenha sido usada para sustentar novas emissões de títulos no mercado financeiro.
A Polícia Federal afirmou que os mandados cumpridos na Operação Miragem tiveram como objetivo identificar “outros possíveis ilícitos que ainda não sejam de conhecimento do órgão policial” e viabilizar “outras diligências investigatórias”. A apuração segue em andamento para determinar a extensão das operações suspeitas, seus beneficiários e eventuais vínculos com outras instituições financeiras.



