Presidente do Bradesco aponta cenário macroeconômico positivo para 2026
Marcelo Noronha diz ver inflação sob controle, desemprego estável e projeta Selic a 12% no fim do ano, mesmo com volatilidade eleitoral
247 – O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que enxerga um cenário macroeconômico positivo no Brasil em 2026, com inflação controlada, desemprego “controlado” e espaço para a taxa Selic encerrar o ano em 12%. Em coletiva sobre os resultados do quarto trimestre, ele disse que trabalha com uma visão otimista, apesar da expectativa de maior volatilidade no segundo semestre por causa das eleições. As declarações foram registradas pelo Valor Econômico.
"Esse é o horizonte da gente, mas assim, eu estou vendo o Brasil se movimentar, o desemprego controlado, então a gente está vendo ainda com otimismo, não estamos pessimistas agora", disse Noronha. Na avaliação do executivo, o ambiente doméstico tende a favorecer a construção de resultados melhores, ainda que o humor do mercado oscile no curto prazo.
Otimismo para 2026, com juros menores no radar
Ao projetar a Selic em 12% no fim de 2026, Noronha indicou que o banco está calibrando suas expectativas a partir de um quadro de inflação mais comportada e de atividade que, segundo ele, segue sustentada por um mercado de trabalho relativamente estável. O executivo reconheceu que se trata de um “horizonte” de referência, mas reforçou que, no momento, não trabalha com leitura pessimista do país.
O discurso ganha relevância num contexto em que bancos são diretamente afetados pelo nível de juros: a Selic influencia o custo de funding, o apetite por crédito, o comportamento da inadimplência e o ritmo de consumo e investimento. Ao sinalizar juros mais baixos no fim do ano, Noronha sugere um cenário mais favorável para expansão de crédito e melhora de margens em determinadas linhas — desde que o ciclo de corte se confirme.
Eleições e volatilidade: alerta sem mudança de visão
Noronha também abordou o efeito das eleições sobre o comportamento dos ativos. Ele afirmou que o mercado tende a se tornar mais volátil no segundo semestre, mas ponderou que medir o impacto final é difícil e que a instituição seguirá trabalhando com uma visão construtiva.
"A gente sabe que vai ter mais volatilidade. Agora, o impacto final, você conseguir medir isso é mais difícil. Eu trabalho com cenário otimista em relação ao que a gente pode construir", afirmou.
A mensagem busca separar ruído de curto prazo e trajetória econômica. Ao mesmo tempo em que admite turbulência típica do calendário político, o executivo sustenta que a leitura de fundo — inflação e emprego — permite manter confiança no ambiente de negócios.
A pressão do mercado após o balanço
As falas sobre o macro vieram no mesmo encontro em que Noronha respondeu à reação negativa do mercado após a divulgação dos resultados do banco. Depois do balanço, os recibos de ações (ADRs) do Bradesco caíram 5% no after-market em Nova York, e as ações registraram forte queda no pregão seguinte. Noronha afirmou que a cobrança dos investidores é maior do que a de seus “chefes” e do conselho de administração.
"Eu vi que ele (mercado) aumenta a bitola na hora de tirar sangue a cada trimestre, mas não dá para fazer com aquela bitola do trimestre passado. Agora é um pouco mais. Então eles já estavam com expectativa de R$ 30 bilhões [para o lucro de 2026], querendo que a gente cresça 30% ao ano o lucro líquido e esqueça a competitividade negativa, a gente não vai fazer isso", declarou.
O executivo disse ainda que, com expectativa elevada, era provável que o mercado “devolvesse alguma coisa” nas ações — o que, segundo ele, se confirmou. Mesmo assim, defendeu que o plano do banco é gradual e que não fará movimentos que comprometam a competitividade apenas para satisfazer metas de curto prazo.
Competitividade e tecnologia como eixo do plano
Para Noronha, a estratégia de transformação do Bradesco exige continuidade de investimentos, especialmente em tecnologia, ainda que isso pressione resultados no curto prazo. Ele afirmou que o banco não pretende abrir mão desse esforço para buscar ganhos imediatos.
"A gente não vai abrir mão de investimentos para aumentar a competitividade por nada. Acho que as organizações têm momentos distintos", disse.
O presidente indicou que os investimentos em tecnologia aumentaram 22% em 2025 e afirmou que, se o banco reduzisse esse ritmo, as despesas teriam ficado mais próximas da inflação. A justificativa é que a modernização melhora a capacidade de competir, reduz custo de serviço no varejo digital e sustenta a transição para um modelo de atendimento e oferta mais eficiente.
Guidance de crédito e busca por participação de mercado
Ao tratar das projeções para 2026, Noronha afirmou que o guidance mostra “tração comercial”, com crescimento relevante da carteira de crédito. O Bradesco projetou expansão do crédito entre 8,5% e 10,5%. O executivo indicou que vê possibilidade de ganho de participação em linhas específicas.
"A gente vê tração comercial, crescimento de crédito importante, com possibilidade de ganho de ‘market share’ em algumas linhas específicas", comentou.
No segmento de pequenas e médias empresas, Noronha afirmou que o banco ganhou 2,3 pontos percentuais de participação desde o início do plano de transformação, em fevereiro de 2024, até setembro de 2025.
"Eu dizia que íamos crescer em PMEs e tinha gente que duvidava", disse.
Rentabilidade em melhora e meta de eficiência para 2028
O presidente afirmou que a rentabilidade do banco seguirá melhorando. No quarto trimestre de 2025, o retorno sobre o patrimônio (ROE) chegou a 15,2%, acima do terceiro trimestre (14,7%) e do quarto trimestre de 2024 (12,7%). Noronha foi direto ao afirmar que o banco não pretende retroceder nesse indicador.
"Não vamos entregar ROE menor do que o que temos agora, é daqui para cima", declarou.
A instituição também reafirmou a meta de reduzir o índice de eficiência para 40% em 2028. No quarto trimestre de 2025, o indicador foi de 50%, ante 52,2% no mesmo período de 2024. O diretor de relações com investidores, André Carvalho, afirmou que a trajetória de queda deve continuar em 2026 e se aprofundar em 2027.
Custos, inflação e o “timing” do ajuste
Questionado sobre o fato de despesas não crescerem abaixo da inflação, mesmo desconsiderando parte dos investimentos em tecnologia, Noronha afirmou que a expectativa é de redução mais clara em 2027 e 2028. Em 2025, as despesas avançaram 8,5%, perto do topo do guidance (5% a 9%). O banco afirmou que cerca de 3% do avanço se deve a tecnologia; sem isso, o crescimento seria em torno de 5%.
A estratégia, segundo ele, é ajustar “footprint”, ganhar capacidade de competir e reduzir custo de serviço no varejo digital. A leitura implícita é que o esforço atual — inclusive de despesas — seria um investimento para destravar eficiência mais forte mais adiante.
Consignado privado, agro e oferta hiperpersonalizada
Noronha disse estar “tranquilo” com a qualidade do novo consignado privado no Bradesco e afirmou que a inadimplência do banco nesse produto está em 3%, enquanto o mercado teria números mais altos. Ele também comentou o agronegócio, apontando pequeno desvio de inadimplência em 2025, mas disse que o banco trabalha com “muita tranquilidade”, mencionando que parte do movimento veio da compra do banco John Deere.
Na frente comercial, descreveu uma mudança na jornada de oferta, com foco em personalização, o que teria permitido acelerar a concessão depois de uma postura mais conservadora no início do processo.
"É tudo individualizado, hiperpersonalizado. A gente está decolando e nós vamos decolar. Nós temos um modelo muito mais avançado do que tínhamos", afirmou.
O recado central: macro mais benigno, execução como resposta à pressão
Ao enfatizar um cenário macroeconômico favorável — com inflação sob controle, emprego resiliente e possível queda de juros — Noronha procura ancorar a narrativa do Bradesco em condições externas que poderiam ajudar a sustentar crescimento e rentabilidade em 2026. Ao mesmo tempo, reconhece que o mercado quer mais velocidade e reage com força a cada trimestre.
A mensagem do presidente combina duas linhas: confiança no ambiente econômico do país e defesa de uma transformação que não será “forçada” apenas para cumprir expectativas consideradas excessivas. Em 2026, com volatilidade eleitoral no horizonte, o Bradesco tenta convencer investidores de que a melhora deve continuar — e que, para isso, a estratégia precisa de consistência, não de atalhos.


