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Bancos avaliam uso de compulsórios para reforçar caixa do FGC após liquidações

Proposta em debate no Banco Central busca recompor recursos do Fundo Garantidor e reduzir impacto sobre o sistema financeiro

Moedas de reais - 15/10/2010 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

247 - Bancos de diferentes portes estão em diálogo com o Banco Central (BC) sobre a possibilidade de destinar parte dos depósitos compulsórios para recompor o caixa do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), após perdas bilionárias provocadas pelas liquidações do Banco Master e do Will Bank. A discussão ocorre em meio à preocupação do mercado com os efeitos que a recomposição integral do Fundo pode gerar sobre o custo do crédito e a liquidez do sistema financeiro, segundo o jornal O Globo.

O BC ainda não tomou uma decisão sobre a proposta, que surge como alternativa para diluir o impacto entre os agentes do sistema financeiro. Com as liquidações, o FGC teve um desfalque de R$ 46,9 bilhões e, caso a recomposição recaia diretamente sobre os bancos, o custo seria rateado conforme a base de clientes de cada instituição. Antes desses eventos, o Fundo contava com R$ 155 bilhões em caixa, segundo dados do próprio FGC.

Os depósitos compulsórios correspondem à parcela dos recursos captados pelos bancos que deve ser obrigatoriamente recolhida ao Banco Central. O instrumento funciona como um mecanismo de segurança, ajudando a regular a liquidez da economia e a mitigar riscos sistêmicos. Desde 2021, os depósitos a prazo — como alguns títulos de renda fixa, entre eles os CDBs — têm alíquota de 20% de retenção. De acordo com a série histórica do BC, em dezembro de 2025 o volume total de depósitos compulsórios em espécie alcançava R$ 674,2 bilhões.

A utilização desse instrumento para enfrentar momentos de estresse financeiro não é inédita. Estratégias semelhantes foram adotadas durante a crise financeira global de 2008, quando a redução da liquidez exigiu medidas excepcionais para preservar o funcionamento do sistema. A avaliação é que, se os bancos tiverem de usar recursos próprios para recompor o FGC, o efeito tende a ser o encarecimento do crédito, já que as instituições precisariam de mais capital para manter suas operações.

Para o analista da agência de classificação de risco Austin Rating, Luis Miguel Santacreu, o compulsório tem papel central na estabilidade do sistema financeiro. “O compulsório é uma medida de segurança para o ecossistema financeiro, a fim de garantir os depósitos”, afirma. Segundo ele, “com o compulsório, o banco aplica o valor em títulos do Tesouro. E é uma forma de o BC atuar, percebendo que tem muito dinheiro na economia que pode ser canalizado para crédito, vindo a gerar um aumento da demanda e inflação”.

O último balanço disponível do FGC indica que a maior parte de seus recursos estava aplicada em operações compromissadas — instrumento do BC lastreado em títulos públicos — e em papéis do Tesouro Nacional. Análises recentes apontam que a recomposição do Fundo pode ter impacto expressivo sobre os bancos. A agência de classificação de risco Moody’s estimou que os pagamentos aos credores do Banco Master, feitos com recursos do FGC, podem gerar um efeito bilionário sobre o sistema financeiro.

De acordo com a Moody’s, para que o Fundo volte ao patamar mínimo de cobertura de 2,5% dos depósitos segurados, seriam necessários cerca de R$ 55 bilhões adicionais. Nesse cenário, grandes instituições como Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Caixa Econômica Federal e BTG, que juntas concentram aproximadamente 75% dos depósitos cobertos, seriam responsáveis pela maior parte da recomposição.

Entidades representativas do setor acompanham as discussões. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que participa de reuniões com o BC, o FGC e entidades setoriais sempre que o Fundo é acionado para cobrir depósitos, mas afirmou não comentar tratativas em andamento. A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) confirmou a existência de debates, mas ressaltou que ainda não há soluções concretas definidas. Procuradas, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa instituições de menor porte, e a Zetta, entidade que reúne fintechs, não se manifestaram. O Banco Central também não respondeu aos questionamentos.

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