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Sem o Redata, Brasil perde chances de formar profissionais em IA, alerta Nvidia

Executivo diz que ausência de regime tributário para data centers empurra investimentos para outros países e afasta o país dos eixos de inovação

Ilustração com logo da Nvidia - 16/2/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 – A expectativa frustrada de aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que deixou de ser votado no plenário do Senado, pode custar ao Brasil oportunidades estratégicas de capacitação e inserção nos principais polos de inovação em inteligência artificial (IA). O alerta foi feito por Marcio Aguiar, diretor da divisão de negócios da Nvidia para a América Latina.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, nesta quarta-feira (25), o executivo afirmou que a falta de avanço do projeto reduz o acesso de profissionais brasileiros às tecnologias de ponta e aos ambientes onde a inovação em IA está acelerando.

A avaliação de Aguiar parte de um ponto central: data centers e infraestrutura de computação são, hoje, a base material do salto recente da inteligência artificial. Sem um regime que torne o país mais competitivo para atrair esses investimentos, empresas globais tendem a concentrar seus grandes projetos em outras regiões, levando junto empregos qualificados, ecossistemas de inovação e, sobretudo, oportunidades de formação prática.

“Seria bom para o Brasil ter essa visão de investimento em novas tecnologias”

Ao comentar o impacto da não votação do Redata, Aguiar reforçou que o tema não se limita a custos empresariais, mas atinge diretamente a capacidade do país de preparar mão de obra para um mercado em rápida transformação.

“Seria bom para o Brasil ter essa visão de investimento em novas tecnologias”, disse o executivo, ao falar sobre o cenário após a divulgação do balanço trimestral da companhia, na noite de quarta-feira.

Na leitura da Nvidia, a ausência de um ambiente mais favorável para a expansão de centros de dados pode afastar profissionais brasileiros das plataformas e recursos que concentram desenvolvimento e experimentação em IA. Em outras palavras: a inovação acontece onde a infraestrutura está instalada, e o aprendizado de alto nível tende a acompanhar esses fluxos.

“Grandes empresas vão continuar contratando ‘hyperscales’, mas em outros países”

Aguiar ressaltou que a Nvidia não baseia suas perspectivas de negócios apenas em incentivos fiscais, mas lamentou que a proposta não tenha avançado como previsto. Na prática, isso significa que a demanda por computação de alto desempenho continuará crescendo, porém não necessariamente com infraestrutura em território brasileiro.

“As grandes empresas vão continuar contratando ‘hyperscales’ [centros de dados de grande escala], mas em outros países”, comentou.

A consequência, segundo ele, vai além de uma decisão de investimento. Ela atinge o coração da formação técnica: proximidade com as “altas tecnologias” e com ambientes onde a IA é treinada, escalada e aplicada em grande volume.

“Isso afeta a oportunidade de capacitar novos profissionais que estão no Brasil porque eles estarão cada vez mais longe das altas tecnologia disponíveis”, afirmou.

Participação latino-americana e avanço da demanda por infraestrutura

Apesar do impasse em torno do Redata no Brasil, as operações da Nvidia na América Latina mantiveram participação média de 4% a 5% na receita global da empresa, de acordo com o executivo. O dado indica estabilidade regional, mas também sugere que o grande motor do crescimento está concentrado nos mercados onde a infraestrutura de data centers se expande com mais velocidade.

No recorte setorial, Aguiar disse observar aumento de vendas não apenas para centros de dados, mas também para infraestrutura instalada dentro das organizações, no modelo “on premisses”, tanto no Brasil quanto na América Latina. Esse movimento tem sido puxado por empresas que buscam reduzir latência, proteger dados sensíveis ou manter cargas críticas de trabalho dentro de seus próprios ambientes.

Além disso, a Nvidia relata aumento da demanda por computadores mais robustos voltados a projetos de engenharia e aplicações intensivas em processamento, com destaque para a indústria audiovisual e a área de saúde, segmentos que vêm incorporando IA de forma acelerada em rotinas de produção e diagnóstico.

Resultados recordes reforçam centralidade dos data centers na era da IA

Os números do balanço trimestral divulgados pela Nvidia reforçam por que a disputa por data centers se tornou um tema estratégico global. A companhia registrou lucro de US$ 42,96 bilhões no quarto trimestre fiscal de 2026, alta anual de 94%. A receita trimestral alcançou recorde de US$ 68,13 bilhões, avanço de 73% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

O dado mais emblemático está na origem desse faturamento: as vendas para centros de dados responderam por 91,5% da receita total, somando US$ 62,3 bilhões no trimestre, com crescimento anual de 75%. O desempenho evidencia a consolidação da infraestrutura de data center como principal motor da atual corrida tecnológica, especialmente por conta da expansão de modelos de IA generativa, treinamento em larga escala e novas aplicações corporativas.

Projeção acima do esperado e gargalo de oferta

Para o trimestre atual, a Nvidia projetou receita de US$ 78 bilhões, acima das expectativas de US$ 72,93 bilhões. O guidance indica continuidade do ciclo de expansão, sustentado por demanda crescente por chips e infraestrutura dedicada à IA.

Aguiar destacou que o ritmo segue forte. “Começamos o ano muito acelerados, ainda sem considerar vendas para a China”, disse. E completou com um indicador do desequilíbrio entre demanda e capacidade de entrega: “Estamos com uma demanda cinco vezes maior do que a capacidade de entrega”.

O que está em jogo para o Brasil na disputa por data centers e IA

As declarações do executivo apontam para um debate que vem ganhando peso em vários países: a infraestrutura que sustenta a inteligência artificial passou a ser tratada como ativo estratégico de desenvolvimento. Quando grandes projetos de data center migram para outros mercados, não saem apenas investimentos diretos, mas também cadeias de fornecedores, serviços avançados, pesquisa aplicada e formação de profissionais.

No caso brasileiro, a avaliação da Nvidia sugere que a não aprovação do Redata pode ampliar a distância entre o país e os principais eixos de inovação em IA, ao dificultar a criação de um ambiente competitivo para atrair hyperscales e consolidar um ecossistema capaz de formar talentos em escala.

Ao vincular o tema à capacitação, Aguiar traz o debate para um ponto sensível: sem proximidade com infraestrutura moderna e com grandes operações de IA, profissionais e empresas locais podem perder velocidade num setor em que ciclos de atualização são cada vez mais curtos e a corrida global se intensifica trimestre a trimestre.

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