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“A crise é pior do que a de 1973”, diz Gabrielli sobre impacto de Ormuz

José Sergio Gabrielli diz que a tensão no Estreito de Ormuz desorganiza o mercado de petróleo, eleva custos e amplia a instabilidade global

“A crise é pior do que a de 1973”, diz Gabrielli sobre impacto de Ormuz (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

247 - A crise do petróleo aberta pela escalada militar no Golfo Pérsico e pela ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz desorganiza o mercado internacional de energia, eleva custos logísticos e amplia a instabilidade financeira, na avaliação do economista José Sérgio Gabrielli. Para o ex-presidente da Petrobras, o impacto do estreito não pode ser medido apenas pelo volume que cruza a região, mas pelo peso que esse fluxo tem sobre a Ásia, especialmente sobre China e Índia, o que empurra compradores a buscar alternativas mais caras e pressiona todo o sistema global.

Em entrevista ao programa 20 Minutos, do Opera Mundi, Gabrielli afirmou que o bloqueio em Ormuz atinge “especialmente a Índia, a China e a Ásia” e produz um efeito em cadeia sobre o mercado. Segundo ele, até existem alternativas de fornecimento num cenário de excesso de oferta global, mas elas não impedem o aumento dos custos nem a deterioração das expectativas. “Essas outras alternativas existem, principalmente nesse momento, mas aumentam os custos e aumenta a instabilidade no sistema”, disse.

Na análise de Gabrielli, o centro do problema está na combinação entre um choque geopolítico real e a reação dos mercados financeiros. Ele observou que a interrupção ou o risco de interrupção de uma rota decisiva para o escoamento de petróleo do Oriente Médio obriga grandes consumidores asiáticos a reorganizarem rapidamente sua cadeia de suprimentos. Ao mesmo tempo, essa tensão abre espaço para operações especulativas de curto prazo que ampliam movimentos bruscos de preço sem relação direta com a dinâmica produtiva. “O petróleo sobe 15% num dia, cai 18% no outro, o que não tem nenhum sentido do ponto de vista objetivo, produtivo, mas que reflete um grande movimento especulativo no mercado financeiro”, afirmou.

Para o economista, esse duplo movimento transforma uma crise regional em uma crise internacional do petróleo. De um lado, há o efeito concreto sobre os principais polos de consumo e refino na Ásia. De outro, há a atuação de agentes financeiros que aceleram a volatilidade e espalham a incerteza para além da região do conflito. “A combinação do mercado financeiro especulando, com reais impactos objetivos sobre China e Índia como consumidores, faz com que o mercado de petróleo entre em crise”, resumiu.

Gabrielli sustenta que a gravidade do quadro atual supera a crise do petróleo dos anos 1970. “Crise é pior do que a crise de 1970”, declarou. Ao desenvolver essa comparação, ele argumentou que, no passado, o mundo conseguiu responder ao choque com mudanças graduais de eficiência energética, expansão do transporte coletivo e incorporação de combustíveis alternativos. No cenário atual, porém, a instabilidade se dissemina com maior velocidade, em meio a mercados financeirizados, cadeias logísticas mais integradas e uma disputa geopolítica que alcança diretamente os principais fluxos energéticos do planeta.

A leitura de Gabrielli concentra o impacto direto da crise sobre a Ásia, não sobre o Ocidente. Segundo ele, o petróleo que cruza Ormuz hoje não tem como principal destino os Estados Unidos, que se tornaram auto suficientes, nem a Europa, que passou a depender mais de derivados produzidos em refinarias americanas. Por isso, o efeito imediato se concentra sobre os países asiáticos que seguem fortemente vinculados à produção do Oriente Médio. O Ocidente, nessa equação, sofre sobretudo com a repercussão dos preços. “Diretamente, não, porque muito pouco desse petróleo tá vindo pro Ocidente”, afirmou. E acrescentou: “O Ocidente é afetado por conta dessa movimentação de preços”.

Esse desenho ajuda a explicar por que, para Gabrielli, o Estreito de Ormuz não é apenas uma passagem marítima estratégica, mas um ponto de pressão capaz de reorganizar o equilíbrio do mercado mundial. Quando a ameaça se instala sobre esse corredor, o problema não é apenas a eventual redução física do petróleo disponível, mas o encarecimento do transporte, do seguro e das rotas alternativas, num ambiente em que cada anúncio político ou militar alimenta novas oscilações.

Ao tratar do cenário mais amplo, Gabrielli lembrou que o mercado já opera sob tensão adicional diante da possibilidade de agravamento do conflito em outros corredores marítimos. Mesmo assim, seu diagnóstico central sobre Ormuz é que o estreito se converteu no principal foco de instabilidade porque conecta a produção do Oriente Médio ao maior centro consumidor de petróleo do planeta. Por isso, qualquer ameaça à sua operação altera preços, custos e expectativas de forma imediata.

Na entrevista ao Opera Mundi, o ex-presidente da Petrobras apresentou, assim, um ponto central para compreender a atual crise: o risco em Ormuz não se limita ao petróleo que deixa de circular, mas à desorganização mais ampla que ele impõe ao mercado internacional. “Aumentam os custos e aumenta a instabilidade no sistema”, disse Gabrielli, ao resumir um quadro em que geopolítica, logística e especulação financeira passaram a agir ao mesmo tempo sobre a energia global.

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