Aos 95 anos, historiador analisa China, EUA e a disputa por uma nova ordem
Wong Gong Wu explica como a ideia de unificação molda Pequim, critica a polarização nos Estados Unidos e avalia Taiwan, democracia e estabilidade
247 - A história chinesa, segundo o historiador Wong Gong Wu, não pode ser vista como um arquivo encerrado. Ela funciona, ainda hoje, como um guia político que influencia decisões estratégicas e a forma como a sociedade chinesa interpreta o mundo. Aos 95 anos, o professor — um dos mais respeitados especialistas em história da China, radicado em Singapura — afirma que conceitos forjados ao longo de séculos seguem no centro da política contemporânea do país.
As reflexões foram apresentadas em entrevista ao canal do YouTube do apresentador Max Chernov, no vídeo “95-year-old Professor on China, US and a New World Order”. Ao longo da conversa, Wong percorre o colapso do império, a guerra civil chinesa, a vitória comunista em 1949 e os desafios atuais envolvendo os Estados Unidos, Taiwan, liberdade política e estabilidade global.
A unidade como valor central da história chinesa
Para Wong Gong Wu, a noção de unidade nacional é um dos pilares mais profundos da tradição política chinesa. Ele sintetiza essa herança de forma direta: “Na tradição chinesa, existe apenas uma China, assim como existe apenas um sol no céu. Essa China precisa estar unida.” Na avaliação do historiador, a experiência histórica associou a fragmentação ao caos, à pobreza e à violência, enquanto a unificação passou a ser vista como condição para prosperidade e segurança.
Ao revisitar o início do século 20, Wong explica que, após a derrota para o Japão em 1894, as elites chinesas passaram a temer o desaparecimento do próprio país. A criação da República da China, inspirada em modelos europeus e norte-americanos, não trouxe estabilidade. “A revolução política fracassou. O que veio depois foi a divisão do país entre senhores da guerra, durante cerca de 15 anos”, afirmou. Esse cenário, segundo ele, abriu caminho para a guerra civil entre nacionalistas e comunistas, com apoio externo das grandes potências da época.
Dois modelos ocidentais e a busca pela modernização
O historiador destaca que, naquele momento, os chineses enxergavam dois caminhos distintos de modernização, ambos considerados “ocidentais”. “Para os chineses, havia dois Ocidentes: o anglo-americano, ligado aos Estados Unidos, e o socialista, representado pela União Soviética”, explicou. Nacionalistas e comunistas, embora rivais, concordavam em um ponto: era necessário aprender com o Ocidente para salvar a China.
Décadas depois, essa lógica reapareceu durante a abertura econômica. Wong associa esse processo a uma releitura do marxismo feita pela liderança chinesa. “O capitalismo sabe criar riqueza. Não há nada de errado nisso. E só quando existe riqueza é possível falar em socialismo, porque o socialismo redistribui o que já foi criado”, afirmou. Para ele, a ideia de “socialismo com características chinesas” surgiu como tentativa de combinar crescimento econômico, identidade nacional e controle político.
Liberdade política e o pacto pela estabilidade
Wong reconhece que a China impõe limites claros à liberdade política, mas ressalta que muitos cidadãos enxergam essa restrição de forma pragmática. “A principal coisa que você não é livre para fazer é dizer o que quiser sobre política”, afirmou. Segundo ele, críticas públicas à liderança, especialmente em redes sociais, são rapidamente bloqueadas. “Você não pode dizer em público que não gosta do presidente Xi Jinping, muito menos publicar isso”, acrescentou.
Ao comparar com sistemas eleitorais do Ocidente, Wong questiona se a disputa política permanente é, de fato, central para a vida da maioria das pessoas. “Para muitos, eleições acabam parecendo um espetáculo, como assistir a um jogo de futebol”, disse. Em contraste, ele afirma que a tradição chinesa valoriza um Estado orientado pelo desempenho administrativo. “A ideia de bom governo, na China, é a de um governo que cuida das pessoas, formado por dirigentes treinados, avaliados pelo desempenho e promovidos pelo mérito.”
Estados Unidos, polarização e Donald Trump
Ao analisar o cenário político norte-americano, Wong afirma que a polarização extrema compromete o funcionamento da democracia. Para ele, o sistema depende de uma maioria moderada, capaz de negociar e construir consensos, algo que estaria se perdendo. “Hoje quase não existe mais centro. Os lados se vêem como inimigos”, observou.
Nesse contexto, ele cita Donald Trump como um exemplo de liderança que prospera em ambientes altamente polarizados. “Alguém como Trump pode chegar ao poder dizendo o que quiser e fazendo o que quiser, porque não há moderação suficiente para contê-lo”, afirmou. Segundo Wong, quando a política se reduz à lógica do “vencedor leva tudo”, a democracia perde legitimidade e estabilidade.
Intervenções externas e perda de credibilidade
Wong também avalia que a imagem de liderança global dos Estados Unidos foi enfraquecida por intervenções militares mal sucedidas. “Onde quer que os Estados Unidos tenham intervindo, os resultados foram ruins”, disse, citando conflitos no Oriente Médio e no Norte da África. Para ele, essas ações minaram a confiança internacional e também a autoconfiança da própria sociedade norte-americana.
China e EUA: competir sem guerra
Apesar das tensões, o historiador diz acreditar que um confronto militar direto não é o objetivo de nenhum dos lados. “Tenho razões para acreditar que tanto os Estados Unidos quanto a China querem evitar uma guerra a qualquer custo”, afirmou. A alternativa, segundo ele, é a disputa econômica e tecnológica. “Se não houver guerra, a competição vai ocorrer na economia, na ciência e na tecnologia”, explicou, apontando esse caminho como menos destrutivo para a ordem global.
Taiwan e o risco da escalada
Sobre Taiwan, Wong afirma não acreditar que Pequim deseje resolver a questão pela força. “Não acho que a China queira tomar Taiwan militarmente, porque isso significaria matar muitos chineses”, disse. Para ele, a principal preocupação de Pequim é estratégica: “O que a China quer é garantir que Taiwan não seja usada como base para atacar o território continental.”
O historiador considera possível manter o status quo por longo tempo, desde que não haja iniciativas externas que tratem Taiwan como um Estado independente. “Gestos que dão a impressão de que Taiwan é um país separado são vistos como provocações”, alertou.
Identidade, fronteiras e legado
No plano mais filosófico, Wong relativiza o peso das fronteiras nacionais. “Não vejo as fronteiras como algo sagrado. Elas são uma definição legal, não tudo aquilo que somos”, afirmou. Para ele, identidades são múltiplas e mutáveis, e a ideia de lealdade absoluta a uma única identidade nacional é um conceito moderno, associado a conflitos e guerras.
Ao final, o historiador reflete sobre a própria vida e o sentido do conhecimento. “Você não pode levar nada com você”, disse. E completou: “O mais importante foi aprender, reconhecer erros e transmitir o que aprendi. Se isso ajudou outras pessoas, então valeu a pena.”

