“As pessoas querem um sonho, não apenas entregas”, diz Breno Altman sobre queda de apoio a Lula
Breno Altman avalia que a queda de apoio ao governo Lula exige resposta política e programática
247 - “As pessoas querem um sonho, uma esperança”, afirmou Breno Altman ao analisar a queda de popularidade do governo Lula e sustentar que a resposta para esse quadro não passa por pânico diante de pesquisas eleitorais, mas pela capacidade de o governo apresentar uma direção política e programática que dialogue com o descontentamento social.
Em entrevista ao Bom Dia 247, Altman disse que a questão central, neste momento, não está nas sondagens eleitorais feitas com antecedência, mas na redução da aprovação do governo. Para ele, esse é o dado que precisa ser compreendido com mais profundidade, porque está ligado à percepção da população sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro.
Segundo o jornalista, pesquisas eleitorais realizadas muitos meses antes da votação têm valor limitado para medir o desfecho da disputa. “Pesquisa eleitoral, seis meses antes das eleições, não indica nada. É muito prematura, muito precoce”, declarou. Na avaliação dele, o problema real é outro: “O que me preocupa é a queda de popularidade do governo”.
Altman argumentou que esse cenário se torna mais relevante porque, em sua leitura, é difícil vencer uma eleição quando a aprovação do governo permanece em patamar baixo. Ele observou que os indicadores macroeconômicos não são, em si, desfavoráveis. “O país está com a inflação sob controle, a taxa de desemprego está nos seus padrões históricos mais baixos, os salários, embora de forma moderada, crescem, os programas sociais principais foram recompostos pelo governo Lula”, disse.
Ainda assim, acrescentou, esses resultados não têm se convertido em entusiasmo popular. “Os macro números, pelo menos na planilha, são positivos. Mas o estado de ânimo da população não é entusiasmado com esses números”, afirmou. Para Altman, isso indica que há uma desconexão entre os dados econômicos e a forma como a sociedade sente sua própria vida material e suas perspectivas.
Na entrevista, ele sustentou que essa distância pode ser explicada por dois fatores, isolados ou combinados: ou as medidas adotadas foram insuficientes para produzir uma melhora percebida como compatível com as expectativas da população, ou o governo enfrenta dificuldades de comunicação. “Ou essas medidas do governo foram insuficientes para efetivamente melhorar a vida das pessoas de acordo com as suas expectativas, ou o governo tem problemas de comunicação e problemas graves, ou as duas coisas combinadas”, resumiu.
Altman situou esse diagnóstico em um contexto mais amplo de polarização política e de crise prolongada das expectativas sociais. Na visão dele, a disputa eleitoral já não se organiza apenas em torno de resultados econômicos imediatos. “A frase ‘é a economia, estúpido’ parece ter caducado”, afirmou, ao defender que o elemento ideológico passou a ter peso maior porque uma parte crescente da população deixou de enxergar possibilidade de ascensão para si e para as próximas gerações.
Para o jornalista, esse ambiente produz demanda por respostas mais rápidas e mais profundas do que as oferecidas pelo gradualismo. “As pessoas não estão aceitando o gradualismo. As pessoas querem uma solução mágica, uma solução disruptiva. Elas querem uma solução porque percebem que o mundo que elas conhecem se aproxima do fim”, declarou. Em sua análise, é nesse terreno que a extrema direita tem conseguido se mover com mais eficácia do que a esquerda.
Ao abordar diretamente a estratégia do governo, Altman afirmou que o problema não se limita à comunicação de entregas administrativas. Segundo ele, falta um horizonte de transformação capaz de dar sentido político às medidas adotadas. “As pessoas não querem saber apenas de entregas, as pessoas querem ter um sonho, as pessoas querem ter esperança, as pessoas querem ter um projeto de civilização que as tire do buraco atual”, disse.
Ele afirmou ainda que a mensagem hoje associada ao governo não responde plenamente a essa demanda social. “Qual é o sonho que hoje representa o governo Lula? Qual é a esperança?”, questionou. Em seguida, sintetizou sua crítica em uma frase direta: “É um governo sem poesia”.
Na entrevista, Altman explicou que essa “poesia” não se refere a peças publicitárias ou a slogans de campanha, mas à capacidade de formular um rumo reconhecível para o país. “A poesia não é estética, não são imagens bonitas da publicidade. A poesia é dizer: nós estamos dando os primeiros passos para um grande sonho”, afirmou.
O jornalista também relacionou esse problema à forma de operação política do governo. Para ele, a lógica de esperar a formação de consensos mínimos antes de avançar em temas estruturais reduziu a capacidade de iniciativa do Planalto. “É um governo lento”, disse. Em outro trecho, reforçou a crítica: “O tempo do estudo à ação tem que ser muito curto”.
Altman avaliou que esse ritmo compromete a construção de maioria social e política. “Se você não coloca propostas claras, como é que você vai criar maioria?”, perguntou. Na mesma linha, afirmou que a estratégia de centrar a disputa apenas na rejeição ao bolsonarismo pode não ser suficiente para responder às expectativas populares. “As expectativas da população é melhorar o urgente da vida, é encontrar um caminho, é ver um futuro, é apresentar um futuro”, declarou.
Ao final de sua análise, Breno Altman reiterou que não vê razão para alarmismo com levantamentos eleitorais feitos antes da campanha, mas insistiu que a aprovação do governo precisa ser tratada como sinal de alerta político. “Não há razões de pânico. As pesquisas eleitorais são prematuras. Agora, a pesquisa de popularidade do governo, essa precisa ser bem compreendida, porque a popularidade do governo é decisiva para a disputa eleitoral”, afirmou.


