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PT muda estratégia para 2026 após avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas

Partido aposta em confronto direto entre projetos de país, com foco em entregas, soberania e ataque ao legado bolsonarista

Lula e Flávio Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação)

247 – O PT decidiu reposicionar sua estratégia para as eleições presidenciais de 2026 diante do avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto e da avaliação interna de que houve falhas na comunicação política desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo reportagem de Lara Brito, do Poder360, publicada neste domingo, 12 de abril de 2026, a legenda pretende intensificar a comparação entre o governo Lula e a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo em que busca ampliar a divulgação de programas, políticas públicas e entregas da atual administração.

A mudança de rumo ocorre após o Datafolha divulgar, no sábado, 11 de abril, um cenário de segundo turno em que Flávio Bolsonaro aparece com 46% das intenções de voto, contra 45% de Lula. Foi a primeira vez que o senador surgiu numericamente à frente do presidente em um levantamento do instituto, o que acendeu o sinal de alerta no comando petista e acelerou a reformulação da estratégia de comunicação para a disputa de 2026.

No centro da autocrítica do partido está a percepção de que o governo e a legenda não explicitaram de forma suficiente, desde 2023, o quadro econômico e social herdado da administração anterior. A avaliação foi vocalizada por integrantes da área de comunicação da sigla. O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, afirmou ao Poder360 que o partido “pecou na comunicação” ao não deixar claro “o tamanho do estrago” deixado pelo governo Bolsonaro.

A fala sintetiza uma leitura que ganha força dentro do PT: parte do desgaste enfrentado atualmente pelo governo estaria ligada menos à ausência de resultados concretos e mais à incapacidade de disputar a narrativa pública sobre o ponto de partida encontrado por Lula ao reassumir a Presidência. Nesse diagnóstico, a eleição de 2026 não será travada apenas em torno de promessas e realizações, mas também da batalha política pela memória recente do país e pela interpretação do que foi herdado em 2023.

Duas frentes de campanha

A nova estratégia petista deve operar em dois planos simultâneos. De um lado, a exaltação das entregas do governo Lula, com ênfase na reconstrução de políticas públicas e programas sociais. De outro, o confronto direto entre dois modelos políticos, econômicos e institucionais: o projeto representado pelo presidente Lula e o legado bolsonarista, que o partido pretende associar à perda de direitos, ao enfraquecimento do Estado e ao comprometimento da soberania nacional.

As inserções partidárias que começarão a ser exibidas em rádio e televisão a partir de 23 de abril devem refletir esse novo desenho. A comunicação será organizada em seis eixos principais. O primeiro será a comparação entre políticas públicas nas áreas de saúde, educação e economia nos períodos de 2019 a 2022 e de 2023 a 2026. O segundo eixo será o reforço da ideia de reconstrução nacional, com destaque para a recriação e retomada de programas sociais.

O terceiro eixo mira diretamente a disputa de narrativa na economia. Nesse campo, o PT pretende politizar o debate econômico por meio de contraposições como “soberania vs. entreguismo” e “distribuição de renda vs. concentração”. Trata-se de uma tentativa de enquadrar o debate eleitoral como um confronto entre um projeto nacional de desenvolvimento e outro voltado à desestatização, à financeirização e à subordinação do país a interesses privados.

Novas bandeiras sociais e foco na segurança

Além do embate econômico, o PT quer agregar novas bandeiras sociais à campanha. Entre elas estão o fim da escala 6x1, o combate ao feminicídio e a defesa da tarifa zero no transporte público. A legenda avalia que essas pautas podem ampliar sua conexão com setores populares e urbanos, sobretudo em um ambiente de crescente insatisfação com o custo de vida e com a precarização das condições de trabalho.

No caso específico da escala 6x1, o partido pretende destacar seu impacto sobre a vida das mulheres, associando a redução da jornada ao alívio da dupla jornada e à melhoria das condições de cuidado dentro das famílias. O combate à violência de gênero também aparece como peça importante dessa construção discursiva, em uma tentativa de vincular as propostas petistas à proteção social e à ampliação de direitos.

Outro ponto de inflexão na estratégia é a segurança pública. O tema passará a ocupar um papel mais central na comunicação partidária, com a defesa de um sistema nacional integrado. A inclusão desse eixo revela a tentativa do PT de responder a uma pauta historicamente explorada pela direita e de neutralizar um terreno em que os adversários costumam ter mais aderência eleitoral.

Também está prevista uma ampliação da atuação digital, com mobilização direta da militância e maior presença nas redes. O objetivo é aumentar a capilaridade da mensagem partidária e reagir com mais velocidade ao ambiente digital, considerado decisivo para a formação da opinião pública e para a disseminação de ataques e desinformação.

A narrativa da reconstrução e o ataque ao legado bolsonarista

Na avaliação da direção petista, a reconstrução do país precisa ser apresentada de maneira mais contundente. Por isso, a legenda pretende insistir na tese de que o governo Lula teve de reorganizar áreas desestruturadas, recompor programas desmontados e reconstruir instrumentos de ação estatal enfraquecidos nos anos anteriores.

Um dos pontos que o partido pretende explorar com mais intensidade é a condução fiscal do governo Bolsonaro, especialmente no caso dos precatórios. Essas dívidas judiciais da União tiveram seus pagamentos limitados por emenda constitucional aprovada em 2021, que impôs um teto anual e autorizou o adiamento de parte dos valores. A medida abriu espaço no Orçamento, mas foi duramente criticada pela oposição à época, que passou a tratá-la como um “calote”.

O tema voltou a ganhar relevância política por permitir ao PT sustentar a narrativa de que houve deterioração fiscal e postergação artificial de compromissos públicos para acomodar interesses eleitorais. Embora a postergação tenha ocorrido dentro de regra legal aprovada pelo Congresso, a legenda pretende explorar o episódio como símbolo de um modelo de gestão que, em sua leitura, comprometeu a previsibilidade das contas públicas e agravou distorções estruturais.

Outro eixo de ataque será o processo de privatizações conduzido no período anterior. O PT cita a venda da Eletrobras, concluída em 2022, e da BR Distribuidora, finalizada em 2021, como exemplos de perda de instrumentos de intervenção estatal, sobretudo no setor energético. O argumento ganhou novo impulso com o debate sobre a alta dos combustíveis e com a percepção, dentro do governo, de que a venda de ativos estratégicos ligados à distribuição e ao refino reduziu a capacidade de resposta do Estado diante de choques externos.

Integrantes do partido avaliam que decisões adotadas nos anos anteriores ampliaram a exposição do Brasil à volatilidade internacional e enfraqueceram mecanismos de proteção econômica. Assim, a defesa da soberania nacional passa a funcionar como um eixo central da narrativa petista, articulando temas como energia, proteção social, papel do Estado e desenvolvimento.

Flávio no centro da ofensiva

O reposicionamento do PT não se limita à valorização da gestão Lula e à crítica ao legado bolsonarista. Ele também envolve uma ofensiva mais direta contra Flávio Bolsonaro, hoje tratado como principal adversário no tabuleiro eleitoral. A legenda prepara material de pré-campanha para associar o senador a casos de corrupção, especialmente ao esquema das “rachadinhas”.

A avaliação interna é que, embora o sobrenome Bolsonaro impulsione Flávio junto ao eleitorado conservador e bolsonarista, ele também carrega elevada rejeição e vulnerabilidades que podem ser exploradas eleitoralmente. O objetivo do PT é desconstruir a imagem mais moderada que aliados do senador tentam consolidar e vinculá-lo mais fortemente ao núcleo político, ideológico e moral do bolsonarismo.

Éden Valadares indicou ao Poder360 que essa linha de ação já começa a aparecer em iniciativas de pré-campanha. Um dos momentos mencionados é a mobilização das centrais sindicais marcada para 15 de abril, quando o partido pretende, nas palavras do dirigente, “apresentar quem é” o adversário ao eleitorado. A formulação revela uma aposta clara na nacionalização do confronto político e na tentativa de impedir que Flávio se apresente como um nome dissociado da trajetória de Jair Bolsonaro e de seus episódios mais desgastantes.

Disputa de narrativa será decisiva em 2026

O diagnóstico consolidado no PT aponta que a eleição presidencial de 2026 tende a ser marcada por uma disputa intensa de memória, identidade política e interpretação do país. Nesse cenário, a legenda pretende combinar a valorização das políticas do governo Lula com uma ofensiva mais agressiva sobre o campo adversário, mobilizando temas econômicos, sociais, institucionais e simbólicos.

Ao admitir falhas de comunicação e reformular seu discurso, o partido tenta corrigir o que considera um erro estratégico do início do mandato: não ter transformado em narrativa política permanente a herança recebida em 2023. Agora, diante do crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a ordem é endurecer o contraste entre os dois projetos e fazer da campanha uma disputa direta entre reconstrução nacional e continuidade do legado bolsonarista.

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