Betto: “Cuba enfrenta a situação mais difícil nesses 67 anos de revolução”
Frei Betto afirma que apagões e falta de petróleo agravam crise na ilha e responsabiliza o bloqueio dos EUA
247 - A crise energética em Cuba atingiu um patamar sem precedentes desde 1959 e compromete setores essenciais do país, como transporte, saúde e abastecimento de alimentos. O diagnóstico foi apresentado pelo escritor e religioso Frei Betto durante entrevista ao programa “O Dia em 30 Minutos”, ao descrever um cenário marcado por apagões prolongados, escassez de combustíveis e impactos diretos sobre a população.
Segundo ele, a combinação entre dificuldades internas e restrições externas empurrou o país para um momento crítico, em que medidas emergenciais se multiplicam, mas não conseguem oferecer uma solução estrutural. “A situação realmente é a mais difícil enfrentada nesses 67 anos de revolução”, declarou.
Durante a conversa na TV 247, Frei Betto explicou que a vulnerabilidade cubana está ligada à dependência histórica de petróleo importado. Ele afirmou que o país produz apenas uma parte do que consome e precisa complementar o restante com importações, que foram reduzidas drasticamente. “Cuba produz apenas 40% do petróleo de que necessita, então precisa importar 60%”, disse.
O religioso detalhou que o déficit de combustível repercute em toda a economia e na vida cotidiana. “Isso afeta agora o fato desses 100.000 barris não serem mais disponíveis no dia a dia. Afeta todos os setores do país, todos. Do transporte, o funcionamento do sistema de saúde e sobretudo os apagões”, afirmou. De acordo com ele, a instabilidade energética também enfraquece o turismo, um dos principais mecanismos de entrada de divisas na ilha.
A avaliação é que a falta de energia afeta desde a rede de serviços até a preservação de alimentos dentro das casas. “As pessoas quando conseguem abastecer a geladeira correm o risco de perder os seus alimentos em 8, 12 horas de apagão”, relatou Frei Betto. Na entrevista, ele acrescentou que esse quadro tem provocado descontentamento social, ao mesmo tempo em que o governo tenta reorganizar rotinas e eventos.
Entre as consequências diretas, ele citou o cancelamento de congressos e grandes atividades culturais, diante da necessidade de reprogramar o funcionamento do país. “Os congressos previstos para esse mês de fevereiro foram suspensos”, contou. Frei Betto mencionou também o cancelamento do Congresso Mundial de Universidades e de eventos como a Feira do Livro, tradicionalmente frequentada por milhões de pessoas.
O entrevistado atribuiu a deterioração atual ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos desde o início da década de 1960 e que, segundo ele, foi aprofundado em diferentes governos norte-americanos, incluindo o atual mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Cuba está bloqueada desde 1961, quando declarou o seu caráter socialista”, disse.
Para ilustrar os efeitos do bloqueio, Frei Betto citou restrições logísticas e comerciais que impedem a ilha de operar normalmente no comércio internacional. “Se um navio aportar em um dos portos de Cuba, ele não pode aportar em nenhum porto dos Estados Unidos”, afirmou. Ele também relatou obstáculos na compra de equipamentos científicos, quando há componentes norte-americanos envolvidos. “A empresa não vendeu porque tem um componente fabricado nos Estados Unidos”, contou.
Na avaliação de Frei Betto, o endurecimento das sanções, somado à manutenção de Cuba em listas norte-americanas relacionadas ao terrorismo, ampliou a retração do turismo internacional e agravou a escassez de recursos. Ele explicou que cidadãos europeus que visitam Cuba enfrentam dificuldades adicionais para entrar posteriormente nos Estados Unidos, o que desestimula viagens à ilha. “Isso praticamente anulou o turismo”, declarou.
O religioso observou que, diante do quadro de restrições e do colapso de receitas turísticas, a ilha perdeu uma fonte fundamental de divisas. “Você tem toda uma infra muito sofisticada, inclusive de hotelaria e tal, que estão vazias, porque não há suficiente turismo”, afirmou. Ele acrescentou que as dificuldades se intensificam com ameaças sobre abastecimento de aeronaves e limitações de voos.
Frei Betto mencionou que, apesar da pressão, Cuba tem recebido carregamentos pontuais de petróleo e apoio limitado de alguns países, mas classificou essas medidas como insuficientes. “Todas essas medidas são paliativas. Você não tem uma solução estrutural”, disse. Segundo ele, a ausência de uma alternativa duradoura aprofunda a incerteza sobre o futuro.
Ele relatou ainda a chegada recente de um navio-tanque com grande quantidade de petróleo, mas afirmou que nem mesmo os cubanos teriam clareza sobre a origem do carregamento. “Chegou um navio tanque com quase 400.000 toneladas de petróleo para Cuba. Os cubanos mesmo não sabem dizer qual é a procedência desse navio”, afirmou.
Ao analisar possibilidades de apoio externo mais consistente, Frei Betto avaliou que a China mantém ações de solidariedade, como envio de equipamentos e instalação de painéis solares, mas sem assumir um compromisso de longo prazo que altere estruturalmente a matriz energética cubana. “Cuba está absolutamente lotada de painéis solares, mas nada disso é estrutural, tudo isso é paliativo”, afirmou.
Ele argumentou que a limitação não seria apenas tecnológica, mas também política e econômica, já que a China evitaria tensionar sua relação comercial com os Estados Unidos. “A China não quer problemas com os Estados Unidos”, declarou. Frei Betto comparou essa postura com a antiga União Soviética, que, segundo ele, sustentou Cuba durante décadas com maior profundidade estratégica.
Na entrevista, Frei Betto também destacou que o país enfrenta agora o desafio de encontrar uma fonte expressiva de divisas para reorganizar sua economia e garantir estabilidade energética. Para ele, nem mesmo as autoridades cubanas apresentam hoje uma saída clara. “O problema é como Cuba vai resolver as suas dificuldades estruturais. E eu não tenho resposta para isso”, disse.
Ele relatou que acompanhou uma longa entrevista do presidente Miguel Díaz-Canel e que, embora haja apelos à mobilização interna e a medidas de auto sustentação, ainda não se enxerga uma solução definitiva. “Você não tem uma luz no horizonte que diga: ‘Não, por aqui a coisa vai’”, afirmou.
Apesar do cenário descrito como crítico, Frei Betto avaliou que Cuba segue resistindo devido à capacidade histórica de enfrentar adversidades. “É um país muito resiliente, um país que já enfrentou outras dificuldades”, disse.
Ao final da entrevista, ele defendeu que a solidariedade internacional deve se intensificar diante da crise atual e argumentou que a situação cubana tem relevância política para toda a América Latina. “É a importância da nossa solidariedade a Cuba, porque Cuba, primeiro, é o único país soberano, independente, autônomo de toda a América Latina”, afirmou.
Frei Betto também ressaltou que, na visão dele, o país preserva garantias sociais básicas mesmo sob bloqueio e escassez. “É o único país que estrutural e constitucionalmente assegura a toda a população os três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação”, declarou.


