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Bolsonarismo fez dos evangélicos “massa de manobra”, enquanto PT evitou aparelhamento religioso, analisa Paulo Gracino

Sociólogo afirma à TV 247 que Flávio Bolsonaro não compreende códigos evangélicos e elogia carta do PT ao segmento

Paulo Gracino, Lula e Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução/TV247 I Ricardo Stuckert/PR I Reprodução (YT))
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247 - Doutor em sociologia e professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Gracino Jr. afirmou esta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta desgaste entre evangélicos por não compreender os códigos e as sensibilidades desse público. Em participação na TV 247, o estudioso também avaliou como positiva a iniciativa do PT de se aproximar do segmento sem propor o aparelhamento religioso das igrejas.

De acordo com o sociólogo, lideranças evangélicas importantes já demonstravam desconfiança em relação à família Bolsonaro. O professor disse que havia, sobretudo entre lideranças de igrejas com maior presença nas periferias, a percepção de que o bolsonarismo tratava os evangélicos como instrumento político.

“O que acontecia é que as lideranças evangélicas importantes já não confiavam na família Bolsonaro e diziam que o bolsonarismo usava os evangélicos como massa de manobra, principalmente as lideranças de igrejas mais populares”, declarou.

O professor avaliou que Flávio Bolsonaro se desgastou ao assumir protagonismo contra a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. 

Para Gracino, o episódio poderia ser explorado por lideranças ligadas ao governo e ao PT para sustentar a tese de que Flávio não seria confiável. “Que o Flávio votasse contra o Messias era do jogo, mas que ele aparecesse de uma forma tão protagonista nessa votação, isso era ruim para ele”, afirmou.

Bolsonarismo e a desinformação

Gracino também associou o desgaste de Flávio a episódios em que, segundo sua leitura, o senador teria sido confrontado por informações divulgadas posteriormente. O professor disse que isso pode ter impacto específico entre evangélicos por envolver a percepção de mentira.

“Para a maioria dos evangélicos, o pai da mentira é o diabo”, disse. “Então, como eles pensam nesses termos, não quer dizer que os evangélicos sejam alienados nem nada, não. As pessoas pensam a partir de termos que são comuns no dia a dia.”

Comparações

Ao comentar a tentativa de Flávio Bolsonaro de se comunicar com o público evangélico, Gracino disse que o senador soa deslocado nesse ambiente. Para ele, Jair Bolsonaro também não dominava plenamente esses códigos, mas contava com intermediários capazes de fazer essa ponte.

“O Flávio Bolsonaro, ouvindo aquilo, me soou como impostor. E é isso que ele é”, declarou. “Ele está deslocado, ele não conhece os códigos.”

Gracino afirmou que Jair Bolsonaro utilizava frases curtas e intermediários no mundo evangélico, enquanto Michelle Bolsonaro passou a exercer papel importante nesse diálogo. Na avaliação do professor, Flávio não tem o mesmo recurso de mediação. “O Flávio não tem isso”, disse. “O Flávio soa como um impostor.”

PT acertou ao evitar aparelhamento, diz professor

O sociólogo também comentou a carta do PT aos evangélicos. Para ele, o documento não surgiu de improviso, mas de um processo de estudo e tentativa de compreensão do universo evangélico. “Aquela carta surge de um período de estudos. O PT não fez aquilo da noite para o dia”, afirmou.

Segundo o professor, o acerto do texto está em reconhecer uma reclamação recorrente dentro das igrejas: a politização dos púlpitos e o uso da estrutura religiosa para disputas eleitorais. Ele avaliou que a mensagem petista busca se aproximar dos evangélicos sem transformar as igrejas em extensão da disputa partidária.

“Você dizer que nós vamos ficar distantes do púlpito, para usar uma metáfora, não vamos usar o púlpito para pedir votos, nem vamos aparelhar as igrejas, isso é muito importante”, declarou.

Para Gracino, a abordagem também reconhece que o evangélico é um cidadão com múltiplas dimensões, não apenas alguém definido por sensibilidades religiosas. “Levar a sério que o evangélico é um cidadão que também tem sensibilidades de cidadania e não só sensibilidades religiosas também é importante”, afirmou.

Religiosos na democracia

Gracino afirmou que parte das análises políticas costuma colocar os evangélicos apenas no campo das emoções, da moralidade e das sensibilidades religiosas, enquanto trata outros eleitores como se votassem exclusivamente por critérios racionais e econômicos. 

Conforme o estudioso, essa oposição distorce a realidade. “Os evangélicos também trabalham, comem, andam de transporte público”, afirmou. “Eles também escolhem a partir de questões objetivas.”

O professor acrescentou que os demais segmentos do eleitorado também são movidos por afetos, identidades e sensibilidades. Segundo ele, a análise política não deve opor evangélicos moralistas e progressistas racionais, porque essas dimensões se cruzam em diferentes grupos sociais. “Não é tão simples assim essa equação. Evangélicos alienados, sensíveis e moralistas de um lado e progressistas, racionais, do outro”, disse.

Na entrevista, Gracino defendeu que a democracia brasileira deve ser construída a partir das experiências e contradições do próprio país, sem tentar reproduzir modelos europeus. Ele afirmou que grupos religiosos, ateus, umbandistas, candomblecistas e outros segmentos sociais participam do mesmo processo democrático. “A nossa democracia é a nossa democracia brasileira, com suas delícias e seus defeitos”, disse.

O professor afirmou que não há como recolocar grupos sociais “dentro da caixinha” depois que eles passaram a ocupar o espaço público. Para ele, a extrema direita se fortalece ao estimular a separação entre supostos “cidadãos de bem” e inimigos, enquanto a democracia depende de conflitos, convivência e negociação permanente. “A democracia cresce a partir, óbvio, de conflitos, porque a gente vai ter conflitos, a gente vai ter embates”, afirmou.

Estatísticas

Os evangélicos avançam e chegam a 26,9% da população brasileira de dez anos ou mais, enquanto os católicos apostólicos romanos caem para 56,7%, em um movimento que reforça a mudança do perfil religioso do país entre 2010 e 2022, as informações são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

De acordo com os dados do Censo Demográfico, a presença evangélica passou de 21,6% para 26,9% no período analisado. A variação representa alta de 5,2 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

Entre os católicos apostólicos romanos, a tendência foi inversa. O grupo, que correspondia a 65,1% da população de dez anos ou mais em 2010, recuou para 56,7% em 2022. A queda foi de 8,4 pontos percentuais.

O Censo também registrou crescimento entre as pessoas sem religião. Esse segmento passou de 7,9% para 9,3% da população, avanço de 1,4 ponto percentual em 12 anos.

Outro movimento identificado pelo levantamento foi a redução da participação do espiritismo. O grupo caiu de 2,2% em 2010 para 1,8% em 2022, uma retração de 0,3 ponto percentual.

Umbanda e candomblé seguiram caminho oposto. As duas religiões passaram de 0,3% para 1,0% no período, crescimento de 0,7 ponto percentual. Os números indicam maior presença das religiões de matriz africana no mapa religioso brasileiro retratado pelo Censo.

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